CAPÍTULO IX. Os que não quiseram honrar o santo respeitando sua festa como dia santo de guarda

1. Na cidade de Le Simon perto de Poitiers, um sacerdote chamado Reginaldo, que tinha grande devoção a São Francisco, disse aos paroquianos que a festa do santo devia ser celebrada solenemente. No entanto um dos paroquianos, que nada conhecia do poder milagroso do santo, não deu ouvidos àquela ordem. Foi ao campo cortar lenha. E quando se preparava para o trabalho, ouviu três vezes alguém lhe dizer: "Hoje é dia santo de guarda e não é lícito trabalhar". Como de nada adiantassem a ordem do pároco e o oráculo celeste, a Providência divina operou, para glória do santo, um milagre e um terrível castigo. Efetivamente, segurava numa das mãos o forcado para amontoar a colheita, quando quis levantar a outra que sustinha um instrumento de ferro para começar seu trabalho. Aconteceu, por virtude divina, que ambos os instrumentos ficaram de tal forma presos nas mãos dele, que não conseguia fazê-los desprenderse dos dedos. Atemorizado e sem saber o que fazer, foi à igreja, à qual haviam concorrido muitos outros, ansiosos por ver o milagre. Diante do altar e muito arrependido pelas exortações de um dos sacerdotes presentes (pois muitos se haviam reunido para a solenidade), consagrou-se inteiramente a Francisco, e, em atenção às três vezes que ouviu aquela voz, fez também outras três promessas: observar como dia santo de guarda a festa de São Francisco, vir no dia da festa a essa mesma igreja onde se encontrava e visitar pessoalmente o sepulcro do santo. Para grande espanto de todos, feita a primeira promessa, desprendeu-se um dos dedos; ao pronunciar a segunda, soltou-se o outro, e formulada a terceira, ficou livre o terceiro dedo e depois a mão inteira. A seguir aconteceu o mesmo com a outra mão. Havia uma grande multidão ali implorando o patrocínio do taumaturgo. Dessa forma, aquele homem, completamente livre, depôs os instrumentos, enquanto as outras pessoas louvavam ao Senhor e admiravam a maravilhosa virtude do santo, que podia castigar tão facilmente como conceder a saúde. Aqueles instrumentos ainda hoje estão suspensos ao lado do altar construído ali em honra de São Francisco, para perpétua memória de fato tão prodigioso.

Grande número de outros milagres que se realizaram aí e na vizinhança mostra claramente ser Francisco um dos santos mais gloriosos do céu e com quanta razão se deve celebrá-lo com toda reverência nesta terra.

2. Uma mulher em Le Mans tomou em suas mãos a roca e o fuso, na festa de São Francisco, e logo ficaram-lhe paralisadas as mãos, enquanto sentia nos dedos um ardor insuportável. O castigo serviu-lhe de lição. Reconheceu o poder do santo e, arrependida, correu até os Irmãos, que, como filhos devotos, imploraram a demência do ser fico Pai em favor daquela mulher, que repentinamente ficou curada. Não se notava em suas mãos outro sinal do mal padecido a não ser uma pequena marca, como de queimadura, bastante para recordar o estupendo milagre. Três outras mulheres, da Campania, de Olite (Valíadolid) e de Piglio, foram milagrosamente punidas por sua obstinação em não quererem respeitar o dia santo de guarda na festa do santo e milagrosamente livres do castigo por intercessão dele, ao se arrependerem.

3. Um cavaleiro de Borgo San Sepolcro, na província de Massa Trabaria, ridicularizava os milagres de São Francisco; injuriava os peregrinos que visitavam seu sepulcro e difamava os Irmãos, zombando deles. Certa ocasião, ao atacar a fama do santo, cometeu o crime ainda maior de blasfemar. Dizia: "Se é verdade que São Francisco é um santo, que eu morra hoje pela espada. Se não é verdade, que eu nada sofra". A ira de Deus não tardou em puni-lo como merecia, pois até mesmo sua oração era pecaminosa. Pouco tempo depois, o cavaleiro injuriou gravemente um sobrinho seu, que tomou uma espada e lhe traspassou o corpo com ela. Morreu naquele mesmo dia em seus crimes, escravo do demônio e filho das trevas, para que os outros aprendessem, não a desprezar com blasfêmias as obras maravilhosas de Francisco, mas a lhes prestar os devidos louvores.

4. Um juiz, chamado Alexandre, tudo fazia com sua língua venenosa para impedir que o povo honrasse o santo. Por isso foi privado do uso da língua e ficou mudo durante seis anos. Sentindo-se castigado naquilo mesmo com que havia pecado, arrependeu-se sinceramente de haver falado tão nesciamente por sua boca contra os milagres do santo. São Francisco teve compaixão dele e sua indignação se desfez. Admitiu novamente o pecador a participar de sua graça, o qual, penitente e humilhado, invocava sua proteção. Restituiu-lhe misericordiosamente a fala que havia perdido. Desde então aquela língua, antes blasfema, se consagrou aos louvores do santo. O castigo que ele sofrera serviu para convertê-lo num homem devoto.