CAPÍTULO III. Alguns que São Francisco salvou do perigo da morte

1. Vivia perto de Roma um nobre de nome Rodolfo com sua mulher, muito devota, os quais receberam certa vez em sua casa alguns Irmãos menores, não apenas por espírito de hospitalidade, mas particularmente por seu amor e devoção ao santo. Naquela mesma noite descansava no mais alto ponto da torre a sentinela do castelo sobre um monte de lenha colocado sobre o ressalto do muro, quando se desfez o monte e ele caiu sobre o telhado do palácio e daí no chão. Ao ruído, toda a família despertou e, sabendo da desgraça da sentinela, o senhor do castelo, sua esposa e os Irmãos acudiram rápidos em seu auxílio. Mas o infeliz estava com tanto sono, que não despertou com a dupla queda nem com o clamor de toda aquela família desconsolada. Acordando, enfim, pelos movimentos dos que o levavam e moviam de um lado para o outro, começou a queixar-se amargamente de ter sido privado de seu suave repouso, dizendo que se encontrava dormindo tranqüilamente nos braços de São Francisco. Mas vindo a saber pelos circunstantes de sua queda e vendo-se em terra, ele que se achava no mais alto da torre, ficou muito admirado por não se ter dado conta do que lhe sucedera; e como prova de seu agradecimento a Deus e a São Francisco, prometeu, em presença de todos, consagrar-se aos rigores da penitência.

2. Numa pequena aldeia chamada Pofi, na Campania, um sacerdote chamado Tomás estava consertando o moinho de propriedade da igreja. Caminhando incautamente ao longo do conduto da água, por onde esta se precipitava com grande força, formando um sorvedouro profundo, caiu de repente e ficou preso entre as p s da roda que fazia girar o moinho. Deitado assim com o ventre para cima, calam-lhe as águas sobre a boca. Não podendo abri-la, invocava com o coração o nome de Francisco. Muito tempo ficou nessa posição, até que seus companheiros, que acudiram ao lugar do acidente, desesperaram de poder salvar-lhe a vida, embora fizessem a roda girar para trás. Com isso conseguiram livrá-lo daquela espécie de prisão, mas o sacerdote, quase asfixiado, revolvia-se na corrente das água. Entretanto, um Irmão menor, vestido de branca túnica e cingido de uma corda, tomou-o suavemente pelo braço e, tirando-o para fora da água, lhe disse: "Eu sou Francisco, a quem com tanta fé invocaste". Vendo-se livre o sacerdote, admirou-se muito e desejando beijar as pegadas dos pés de Francisco, corria de um lado para outro, perguntando a seus companheiros: "Onde está o servo de Deus? Por que lugar andou o santo? Por que caminho saiu?" Atemorizados, os companheiros caíram de joelhos no chão, anunciando as grandes maravilhas do Altíssimo e os extraordinários méritos de seu servo.

3. Alguns jovens de Celano tinham ido cortar pasto num campo, onde havia um velho poço cuja boca estava coberta de mato abundante. Tinha mais ou menos quatro metros de profundidade. Andavam trabalhando separadamente pelo campo, quando um deles repentinamente caiu no poço. Mas enquanto seu corpo descia ...aquelas profundezas, seu espírito subia invocando a proteção de São Francisco. E já ao sair gritava: "São Francisco, socorro!" Todos os outros, não o vendo mais, começaram a procurá-lo por toda parte, gritando e chorando. Quando descobriram que ele havia caído no poço, correram a comunicar o acidente e pedir socorro. E voltaram com muita gente. Um homem desceu ao fundo do poço atado com uma corda e viu o jovem sentado tranqüilamente sobre as água, sem o menor ferimento. Tirado com grande facilidade daquele lugar, disse aos circunstantes: "Quando caí tão inesperadamente, invoquei o auxilio de São Francisco, o qual logo me apareceu em pessoa e, estendendo a mão, tomou-me com grande cuidado e não me abandonou até que juntamente convosco me tirou do poço".

4. Na igreja de São Francisco de Assis, enquanto o bispo de Óstia, que seria mais tarde Alexandre IV, estava pregando diante da Cúria Romana, uma grande pedra, deixada por descuido no púlpito que era muito alto, desprendeu-se repentinamente e caiu em cima da cabeça de uma senhora. Julgando os presentes que ela estava morta por causa da violência da pancada e que tinha a cabeça esmagada, cobriram-na com o manto que ela levava, dispostos a levar para fora da igreja aquele cadáver, logo que terminasse o sermão. Entretanto, ela se encomendava a São Francisco, diante de cujo altar se encontrava. E quando terminou a pregação, a mulher se levantou em presença de todos sã e salva, não encontrando-se nela nenhum sinal de lesão física. E o mais curioso é que as dores de cabeça continuas de que sofria até então cessaram definitivamente, como ela mais tarde atestou.

5. Em Corneto, estavam reunidas diversas pessoas devotas num lugar próximo ao convento dos Irmãos para presenciar a fundição de um sino, e um menino de oito anos, chamado Bartolomeu, ocupavase em levar material aos Irmãos que trabalhavam. levantou-se um furacão que fez tremer a casa e arremessou com tanta força uma das pesadas portas sobre a criança que, vendo-a debaixo daquele enorme peso, todos julgavam-na morta, pois não aparecia dela nenhuma parte do corpo oculto atrás daquela carga pesadíssima. Acorreram todos para socorrê-la, invocando ao mesmo tempo a poderosa intercessão de São Francisco. O próprio pai da criança, que por ter os membros tolhidos não podia mover-se por causa da dor, oferecia em altas vozes seu filho a São Francisco, fazendo-lhe vá rias promessas. Removeram, por fim, não sem grande labuta, a pesada porta que esmagava o menino E para admiração de todos, lá estava o pequeno, muito alegre, como se houvesse despertado de um suave sono, sem apresentar nó corpo a menor lesão. Aos quatorze anos, o menino miraculado entrou na Ordem e foi homem de grande saber e pregador eloqüente.

6. Em Lentino, alguns homens cortaram no monte uma grande pedra que devia ser colocada sobre o altar de uma igreja dedicada a São Francisco e que em breve seria consagrada. Uns quarenta homens procuraram colocar a pesada pedra em certa carroça para transportá-la ao lugar apropriado. Infelizmente, depois de tantos esforços, caiu a pedra sobre um dos homens que ficou debaixo daquele enorme peso. Perplexos e totalmente confusos, não sabiam os trabalhadores o que fazer. E a maior parte fugiu desesperada. Só dez tiveram coragem de ali permanecer e com voz lastimosa invocaram a proteção de Francisco, rogando-lhe que se compadecesse da desgraça daquele homem que trabalhava para honra dele. Animados e confiantes, removeram com tanta facilidade a pedra, que logo se percebeu que ali interviera a virtude milagrosa do santo. Logo se levantou aquele homem sem nenhum dano físico. Ali até mesmo recuperou uma das vistas, que antes estava quase cega. Manifestou-se assim claramente que a intercessão de São Francisco é eficaz ainda mesmo nos casos mais desesperadores.

7. Em São Severino, povoado da Marca de ocorreu prodígio semelhante. Levavam muitos homens uma grande pedra trazida de Constantinopla para a basílica de São Francisco, com grande esforço físico, quando ela caiu sobre um dos homens. Tão violento foi o golpe, que os companheiros pensaram que ele tivesse sido esmagado e morto. Mas, por favor do bem-aventurado Francisco, que o livrou daquele enorme peso, saiu São e sem a mínima lesão corporal.

8. Bartolomeu, cidadão de Gaeta, trabalhava com multo empenho na construção de uma igreja em honra de São Francisco, quando desgraçadamente lhe caiu no pescoço uma grande viga mal colocada; esmagando-o e deixando-o gravemente ferido. Sabendo estar iminente a morte e sendo homem fiel e de grande piedade, pediu a um Irmão que lhe administrasse o santo vi tico. Mas, parecendo ao Irmão que a urgência do caso não dava tempo para isso, pois pensava estar bem perto a morte, aproximou-se do enfermo e lhe sugeriu estas palavras de Santo Agostinho: "Crê e já comungaste". Ç noite, apareceu-lhe São Francisco com outros Irmãos, trazendo um cordeirinho nos braços. Colocou-o junto ao doente, chamou-o por seu nome dizendo: "Bartolomeu, não temas, porque não poder prevalecer contra ti o inimigo que pretendia inutilizar-te em meu serviço. Este é o Cordeiro que pedias e recebes pelo teu bom desejo e que por sua virtude te concede a saúde do corpo e a da alma". E tomando o ferido com suas mãos chagadas, o conduziu São e salvo ao trabalho onde antes estava ocupado. Bartolomeu levantou-se muito cedo e aparecendo alegre e São aos que pouco antes o haviam visto meio morto, encheu-os de espanto e admiração, inflamando seus corações em reverência e amor ao ser fico Pai, não só com seu exemplo, mas também com o milagre do santo que acabavam de presenciar.

9. Certo dia, um homem chamado Nicolau, de Ceprano, caiu nas mãos de seus inimigos. Estes o crivaram de ferimentos de tal forma que lhes parecia bem morto. Mas Nicolau, ao receber o primeiro golpe, exclamara em alta voz: "São Francisco, socorro! São Francisco, socorro!" Ouviram estas palavras muitos que estavam ... distancia, mas não puderam socorrê-lo. Levado por fim ... sua casa e todo ensangüentado, afirmava cheio de confiança que não morreria em conseqüência daquelas feridas e que no momento não sofria nada porque São Francisco lhe estava prestando socorro e havia conseguido de Deus a vida para fazer penitência. Confirmou-se tudo isso em breve, pois uma vez que lhe lavaram aquele sangue, levantou-se ele completamente curado, contra toda expectativa dos presentes.

10. Em São Geminiano, havia um nobre que tinha um filho tão gravemente enfermo que, perdida toda a esperança, parecia nos últimos momentos de vida. Saía de seus olhos um fio de sangue, como acontece quando se abre uma veia no braço, e em todo o corpo apareceram os sinais que prenunciam a morte. Ao vê-lo sem movimento, sem uso dos sentidos e mesmo da respiração, todos O consideravam morto. Os parentes e amigos Já se haviam reunido para prantear o morto e dar-lhe sepultura. Mas o pai do jovem, cheio de confiança no Senhor, foi apressadamente ... igreja de São Francisco, edificada no mesmo povoado, e com o cíngulo no pescoço, prostrou-se em terra com toda humildade. E nessa atitude longamente orou, multiplicando suas promessas e obtendo por suas lá grimas e suspiros ter a São Francisco como seu advogado diante de Deus. Voltou ao lugar onde se encontrava o filho e, encontrando inteiramente curado, trocou as lá grimas pela alegria.

11. Prodígio semelhante operou Deus pelos méritos de São Francisco numa menina natural de Tamarit, na Catalunha, e com outra dos arredores de Ancona, as quais encontravam-se tão gravemente enfermas, que quase já haviam entrado na fase da agonia. Mas tendo os pais invocado a proteção do bemaventurado Francisco, ficaram repentinamente curadas.

12. Em Alba, havia um clérigo, chamado Mateus, que tendo bebido um veneno mortífero, ficou tão doente, que, não podendo falar de modo algum, só lhe restava exalar o último suspiro. Um sacerdote aconselhou-o que se confessasse. Mas não conseguiu pronunciar uma só palavra. Contudo, orava o enfermo com todo fervor a Deus no íntimo de seu coração, pedindo-lhe se dignasse livrá-lo da morte por intermédio de seu servo Francisco. No mesmo instante, confortado pelo Senhor, pronunciou com grande devoção diante de todos os presentes o nome de Francisco, expeliu o veneno e deu graças a seu libertador.