CAPÍTULO IV. Náufragos socorridos

1. Certos marinheiros, surpreendidos por uma violenta tempestade a dez milhas do porto de Barletta, viram-se em grave perigo e, já sem esperança de sobreviver, lançaram âncoras. Os ventos, porém, enfureceram-se ainda mais levantando ondas enormes, que acabaram rompendo as amarras deixando a embarcação sem âncora e ao léu das correntes do mar revolto. Serenado enfim o mar por disposição divina, esforçaram-se os marinheiros por recuperar as âncoras, cujos cabos flutuavam sobre o mar. E como não podiam conseguir seu intento por próprias forças, invocaram a proteção de vá rios santos. Apesar de tudo e dos esforços ingentes, não conseguiram em todo um dia recolher nenhuma das âncoras. Entre os navegantes havia um chamado Perfeito, mas que estava muito distante ainda de o ser nas atitudes. Este, em tom chistoso, disse aos companheiros: "Vede, camaradas! Invocastes o auxílio de todos os santos e, como percebeis, nenhum deles nos socorre. Que tal invocarmos um certo Francisco, um santo bem novo. Quem sabe se ele não dá um mergulho nas águas e nos traz de volta as âncoras perdidas?" Concordaram os companheiros, não jocosamente, mas aceitando de verdade a proposta de Perfeito, e repreendendo-o por suas palavras desrespeitosas, fizeram todos uma promessa ao santo. No mesmo instante, sem que os marinheiros fizessem qualquer coisa, viram flutuar as âncoras, como se a natureza pesada do ferro se houvesse transformado na leveza da madeira.

2. Certo peregrino, extremamente debilitado por causa de uma febre muito forte, da qual apenas estava se recuperando, seguia viagem a bordo de um navio procedente de além-mar. Era muito devoto de São Francisco e o havia escolhido como advogado ante o Rei celeste. E como ainda não se livrara da enfermidade, sentia-se abrasado de uma sede ardente, quando, faltando água para se refrigerar, começou a exclamar: "Ide, marinheiros, tende confiança; trazei-me água a beber, porque o bem-aventurado Francisco encheu de água meu vaso". Foram os marinheiros e efetivamente encontraram cheio de água até as bordas o vaso que pouco antes haviam deixado inteiramente vazio. Outro dia, tendo-se levantado uma tempestade violenta, as ondas enfurecidas ameaçavam afundar o navio, e todos temiam o naufrágio. Mas aquele mesmo enfermo começou repentinamente a gritar: "Levantai-vos todos e ide ao encontro de Francisco. Eis que ele vem nos salvar!" E assim falando, caiu em terra, com grandes clamores e lá grimas, para venerá-lo. No mesmo instante, com a aparição do santo, o enfermo ficou São e o mar serenou.

3. Frei Tiago de Rieti, depois de atravessar um rio numa pequena barca, e deixando na margem os companheiros, dispunha-se a desembarcar. A barca, porém, virou, salvando-se a nado o que a dirigia, enquanto. Frei Tiago ia ao fundo. Entretanto, os Irmãos, postos de joelhos na margem, invocavam com grande fervor o ser fico Patriarca, pedindo-lhe entre lá grimas se dignasse socorrer aquele que era seu filho. Da mesma forma, Frei Tiago, submerso nas profundezas das água, implorava em seu coração, já que não podia com os lábios, ó auxilio de seu piedosíssimo Pai. Então, protegido pela presença de São Francisco, caminhava no fundo como se fora por um caminho real e, entrando na embarcação, chegou de novo ... margem. Seu hábito, por incrível que pareça, não estava molhado. Nem uma gota d' água atingira sua túnica.

4. Um Irmão chamado Boaventura estava atravessando com outros dois homens um lago, quando a pequena embarcação se partiu por causa da força da corrente, indo ao fundo a barca e seus tripulantes. Do fundo daquele lago de miséria, invocavam com grande confiança o misericordioso Pai São Francisco, e subitamente apareceu o santo conduzindo-a sobre a água, e felizmente chegou ao porto com seus tripulantes. Semelhantemente ficou livre por intercessão de São Francisco um Irmão de Ascoli que caíra no lugar mais fundo de um rio.

Aconteceu também no lago de Rieti que, encontrando-se vá rios homens e mulheres em semelhante perigo, invocaram o nome de Francisco e ficaram felizmente livres de um iminente naufrágio.

5. Alguns marinheiros de Ancona, surpreendidos por uma tremenda tempestade, encontravam-se em perigo de afundar-se. Desesperados, suplicaram humildemente a São Francisco. Apareceu então sobre a nau uma grande luz e com ela a bonança, como a indicar que o homem de Deus possuí o estupendo poder de ordenar aos ventos e ao mar.

Parece-me impossível narrar um a um os grandes prodígios que operou e ainda opera no mar nosso bem-aventurado Pai, como também as muitíssimas vezes que salvou milagrosamente aos que estavam para naufragar. E não admira que se tenha concedido poder sobre as águas àquele que reina no céu, quando sabemos que a ele mesmo, enquanto vivia neste mundo, lhe serviam as criaturas como faziam com o primeiro homem nos felizes dias da inocência.