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1. Havendo terminado sua obra nas três igrejas, Francisco foi
viver numa delas dedicada à Santíssima Virgem. Aí, pelos
méritos e intercessão da Mãe de Deus que deu à luz o Preço de
nossa redenção, foi julgado digno de aprender o caminho da
perfeição mediante o Evangelho cujo espírito e verdade Deus lhe
revelou. Certo dia, durante a mia, lia-se a passagem do Evangelho
que relata como o Senhor enviou os discípulos a pregar e como
estabeleceu a forma de vida segundo o Evangelho que deveriam observar:
não ter nem ouro nem prata, nem dinheiro no cinto, nem sacola para o
caminho, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastão (cf. Mt
10,9). A essas palavras, o Espírito de Cristo desceu sobre
ele e o possuiu de tal maneira, que seu modo de vida se transformou
radicalmente: nas idéias e sentimentos, nas vestes e no
comportamento. Sem tardar, ele tira os calçados, lança para longe
o bastão, abandona sacola e dinheiro, e fica apenas com uma pobre
túnica, desfaz-se do cinto e cinge-se com uma corda. Sua única
preocupação agora era descobrir como praticar o que ouvira e
conformar-se perfeitamente à regra que os apóstolos haviam recebido
como guia de conduta.
2. Como um outro Elias, começou Francisco a anunciar a verdade,
no pleno ardor do Espírito de Cristo. Convidou a outros a
associar-se a ele na busca da perfeita santidade, insistindo para que
levassem uma vida de penitência. Suas palavras exprimiam a plenitude
da força do Espírito Santo, não eram vazias ou ridículas, e
calavam profundamente nos corações, de modo que seus ouvintes ficavam
extremamente admirados e os pecadores obstinados se convertiam pelo
poder que elas exerciam sobre eles. O que havia de sublime e de santo
na obra iniciada por ele, muitos o descobriam na verdade de sua
pregação simples, despretensiosa, e de sua vida. A exemplo do
santo começaram alguns a praticar a penitência e em seguida se
associaram a ele, partilhando a mesma vida, usando vestes vis. O
humilde Francisco decidiu que eles se chamariam Frades Menores.
3. O número dos Irmãos logo aumentou para seis, à medida que o
Senhor os chamava. Como Pai cheio de amor, como pastor dedicado,
Francisco procurava os lugares solitários para chorar os dias mal
aproveitados de sua juventude, tempo de pecado, na amargura de seu
coração. Implorava a misericórdia e a graça de Deus para si e
seus Irmãos, de quem se fizera pai em Cristo. Um sentimento de
alegria extática dominou-o totalmente e ele ficou sabendo que todos os
seus pecados estavam perdoados completamente até ao último vintém.
Foi arrebatado em êxtase e inteiramente absorvido numa espécie de luz
vivificante e teve a clara visão de tudo o que lhe sucederia a ele e a
seus Irmãos, como mais tarde contou confidencialmente a seu pequeno
rebanho, para encorajá-lo, revelando o progresso e a extensão que a
Ordem teria por providência de Deus. Pouco tempo depois,
ingressaram na Ordem outros Irmãos, elevando-se o número deles a
doze. Francisco decidiu apresentar-se, juntamente com o seu grupo de
homens simples, diante da Santa Sé. Queria solicitar do Santo
Padre, com insistência, que aprovasse com a plenitude de sua
autoridade a Regra de vida que o Senhor lhe revelara e ele mesmo
redigira com poucas palavras.
4. Estava Francisco a caminho com seus Irmãos, disposto a levar a
termo seu plano e obter uma audiência com o Sumo Pontífice,
Inocência III, quando Cristo, força e sabedoria de Deus, se
antecipou e preparou-lhe a chegada. Em sua misericórdia, dignou-se
, por meio de uma visão , informar a seu vigário na terra que
acolhesse sem dificuldades o pobrezinho e lhe concedesse benignamente
anuência a seu pedido humilde. Viu o Pontífice Romano em sonho a
basílica do Latrão prestes a ruir, mas um pobrezinho, homem pequeno
e de aspecto miserável, sustentava-a com seus ombros impedindo que
ruísse. O Pontífice, que era dotado de uma sabedoria notável, ao
perceber a limpidez dessa alma simples, seu desprezo pelo mundo, seu
amor à pobreza, sua tenacidade em seu desejo de perfeição, seu zelo
pelas almas e o ardente amor que caracterizava sua vontade de
santidade, declarou: "Ò esse homem realmente que, por sua ação e
pregação, sustentar a Igreja de Cristo!" E teve por Francisco
uma amizade fervorosa e inabalável, anuiu sem reserva ao pedido dele,
aprovou-lhe a Regra, deu-lhe missão de pregador da penitência,
enfim, concedeu tudo o que ele solicitava e prometeu favorecer ainda
mais no futuro.
5. Com a graça de Deus e a autoridade do Sumo Pontífice que lhe
dava pleno apoio, Francisco regressou confiante pelo caminho do vale
de Espoleto. Em seu coração concebera a verdadeira perfeição
evangélica e a professou solenemente emitindo seus votos. Parecia
ansioso de poder praticá-la em sua vida e ensiná-la aos outros pela
pregação. Juntamente com seus companheiros, discutiu a questão se
deveriam viver entre o povo ou viver na solidão. Rogou, pois, ao
Senhor, em ardente oração, que lhe revelasse o que deveria fazer a
respeito. Foi agraciado com uma revelação e se convenceu de que
tinha sido enviado por Deus para salvar almas, almas que o demônio
tentava arrebatar à perdição. Chegou a conclusão de que deveria
viver para os outros e não exclusivamente para si. Foi então viver
numa cabana abandonada perto de Assis, onde poderia levar em comum uma
vida de pobreza e rigorosa disciplina religiosa com seus Irmãos e
pregar a palavra de Deus ao povo, sempre que tivesse oportunidade,
Tornou- se o arauto do Evangelho, pregando de cidade em cidade o
reino de Deus "não com estudadas palavras de humana sabedoria, mas
pela virtude do Espírito Santo" (1Cor 2,13). O Senhor
inspirava a seu intérprete, revelando-lhe antes de falar o que
deveria dizer, "corroborando em seguida pelos milagres o que tinha
dito" (Mc 16,20).
6. Certa noite, estava vigiando em oração, como de costume,
longe de seus filhos. De repente, pela meia-noite, enquanto alguns
Irmãos dormiam e outros rezavam, um carro de fogo de um esplendor
maravilhoso com um globo brilhante, parecido com o sol, entrou na
cabana dos Irmãos pela pequena porta e deu três voltas no recinto.
Diante desse espetáculo maravilhoso, os que estavam acordados ficaram
atônitos; os que dormiam acordaram amedrontados. Seus corações
ficaram iluminados assim como os olhos, de modo que diante dessa
estupenda luz eles puderam ler às claras a consciência de cada um.
Ao contemplar cada qual o coração de todos, foram de parecer
unânime que o Senhor lhes queria mostrar, sob essa aparência
simbólica, seu Pai Francisco que viera "no espírito e na força de
Elias" (Lc 1,17), e o designava como chefe de seu exército
espiritual, "carruagem de Israel e seu guia" (cf. 2Rs
2,12). Voltando o santo para junto dos Irmãos, reanimou-lhes
a coragem ao lhes falar dessa visão que o céu lhes enviara. Desde
então penetrava os segredos de seus corações, predizia o futuro e
realizava milagres. Estava bem patente para todos que o espírito de
Elias, duas vezes mais poderoso, viera habitar nele com tal plenitude
que o mais seguro para todos era seguir sua vida e seus ensinamentos.
7. Por essa época, havia num hospital, perto de Assis, um
religioso chamado Monco, da Ordem dos Cruzados, que jazia enfermo
há muito tempo minado por uma doença grave. Todos pensavam que sua
morte não estava longe. Enviou ele um mensageiro para suplicar
insistentemente junto ao homem de Deus que se dignasse interceder por
ele ao Senhor. O santo consentiu imediatamente, pôs-se a orar,
fez um bolinho com migalhas de pão, amassou-o com um pouco de azeite
tirado da lâmpada que ardia diante do altar da Santíssima Virgem e
mandou levar seu preparado medicinal ao doente através dos Irmãos,
dizendo: "Levai este remédio ao nosso Irmão Morico. O poder de
Cristo não só lhe devolvera' a saúde, mas fará dele um soldado
valoroso que se alistar em nossas fileiras para sempre". Realmente,
mal o doente ingeriu o remédio preparado por ordem do Espírito
Santo, levantou-se curado e encontrou de novo o vigor do corpo e da
alma. Entrou na Ordem sem demora e por muito tempo trouxe um cilicio
diretamente sobre o corpo, e contentava-se com alimentos crus.
Jamais comeu, desde então, alimentos cozidos e experimentou vinho.
8. Foi por essa época igualmente que um sacerdote de Assis,
chamado Frei Silvestre, simples como uma pomba e de grande virtude,
viu toda a região invadida por um dragão enorme. O aparecimento
desse horrível animal representava para todo o mundo o cataclismo
universal dos últimos tempos. Uma cruz luminosa de ouro plantada na
boca de Francisco apareceu logo a seguir. Sua extremidade chegava
até o céu e seus braços iam até aos confins do mundo. Diante da
cruz, o dragão sangüinário e medonho fugiu para sempre.
Repetiu-se o sonho por três vezes, e o santo homem compreendeu a
missão que o Senhor destinava a Francisco: levantar o glorioso
estandarte da cruz, esmagar o poder e a maldade do dragão, iluminar
os corações dos fiéis projetando sobre eles, tanto por sua vida como
por seu ensinamento, as esplêndidas luzes da verdade. Frei
Silvestre contou detalhadamente ao homem de Deus e aos Irmãos a sua
visão . Pouco tempo depois, abandonou o mundo, empenhou-se com
tanto ardor em seguir a Cristo, a exemplo do bem-aventurado
Francisco, que sua vida na Ordem serviu para confirmar a visão que
tivera enquanto vivia no mundo.
9. Um outro Irmão chamado Pacífico, quando simples leigo,
encontrou São Francisco em São Severino, onde fazia um sermão
aos religiosos do convento. O poder dê Deus desceu sobre ele e viu o
santo marcado com o sinal-da-cruz na forma de duas espadas de fogo;
uma delas ia da cabeça aos pés, enquanto a outra ia de lado a lado,
de uma mão à outra. Não conhecia São Francisco, mas percebeu
que não poderia ser outra a pessoa que assim lhe era revelada por esse
milagre. Ficou sobremodo atônito; as palavras do santo o comoveram
de tal forma, que ele chorou seus pecados e ficou aterrorizado como se
houvesse sido traspassado por uma espada espiritual que sala da boca do
santo. Abandonou as pompas deste mundo e ingressou na Ordem
professando sua Regra de vida. Mais tarde, já bem adiantado em
santidade, mereceu ver na fronte de São Francisco, antes de se
tornar ministro da França, onde foi o primeiro provincial, um grande
tau, cujas cores variadas emprestavam ... fisionomia do santo uma
rara beleza. O tau era um sinal muito querido do santo.
Recomendava-o muitas vezes, fazia-o sobre si mesmo antes de iniciar
qualquer trabalho e o escrevia de próprio punho ao final das cartas que
ele enviava, como se quisesse pôr todo seu empenho em imprimir esse
tau, segundo a palavra do profeta (Ez 9,4), sobre a fronte
daqueles que gemem e choram seus pecados, de todos os verdadeiros
convertidos a Cristo Jesus.
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