CAPÍTULO 2. FUNDAÇÃO DA ORDEM E EFICÁCIA DA PREGAÇÃO DE FRANCISCO

1. Havendo terminado sua obra nas três igrejas, Francisco foi viver numa delas dedicada à Santíssima Virgem. Aí, pelos méritos e intercessão da Mãe de Deus que deu à luz o Preço de nossa redenção, foi julgado digno de aprender o caminho da perfeição mediante o Evangelho cujo espírito e verdade Deus lhe revelou. Certo dia, durante a mia, lia-se a passagem do Evangelho que relata como o Senhor enviou os discípulos a pregar e como estabeleceu a forma de vida segundo o Evangelho que deveriam observar: não ter nem ouro nem prata, nem dinheiro no cinto, nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem sapatos, nem bastão (cf. Mt 10,9). A essas palavras, o Espírito de Cristo desceu sobre ele e o possuiu de tal maneira, que seu modo de vida se transformou radicalmente: nas idéias e sentimentos, nas vestes e no comportamento. Sem tardar, ele tira os calçados, lança para longe o bastão, abandona sacola e dinheiro, e fica apenas com uma pobre túnica, desfaz-se do cinto e cinge-se com uma corda. Sua única preocupação agora era descobrir como praticar o que ouvira e conformar-se perfeitamente à regra que os apóstolos haviam recebido como guia de conduta.

2. Como um outro Elias, começou Francisco a anunciar a verdade, no pleno ardor do Espírito de Cristo. Convidou a outros a associar-se a ele na busca da perfeita santidade, insistindo para que levassem uma vida de penitência. Suas palavras exprimiam a plenitude da força do Espírito Santo, não eram vazias ou ridículas, e calavam profundamente nos corações, de modo que seus ouvintes ficavam extremamente admirados e os pecadores obstinados se convertiam pelo poder que elas exerciam sobre eles. O que havia de sublime e de santo na obra iniciada por ele, muitos o descobriam na verdade de sua pregação simples, despretensiosa, e de sua vida. A exemplo do santo começaram alguns a praticar a penitência e em seguida se associaram a ele, partilhando a mesma vida, usando vestes vis. O humilde Francisco decidiu que eles se chamariam Frades Menores.

3. O número dos Irmãos logo aumentou para seis, à medida que o Senhor os chamava. Como Pai cheio de amor, como pastor dedicado, Francisco procurava os lugares solitários para chorar os dias mal aproveitados de sua juventude, tempo de pecado, na amargura de seu coração. Implorava a misericórdia e a graça de Deus para si e seus Irmãos, de quem se fizera pai em Cristo. Um sentimento de alegria extática dominou-o totalmente e ele ficou sabendo que todos os seus pecados estavam perdoados completamente até ao último vintém. Foi arrebatado em êxtase e inteiramente absorvido numa espécie de luz vivificante e teve a clara visão de tudo o que lhe sucederia a ele e a seus Irmãos, como mais tarde contou confidencialmente a seu pequeno rebanho, para encorajá-lo, revelando o progresso e a extensão que a Ordem teria por providência de Deus. Pouco tempo depois, ingressaram na Ordem outros Irmãos, elevando-se o número deles a doze. Francisco decidiu apresentar-se, juntamente com o seu grupo de homens simples, diante da Santa Sé. Queria solicitar do Santo Padre, com insistência, que aprovasse com a plenitude de sua autoridade a Regra de vida que o Senhor lhe revelara e ele mesmo redigira com poucas palavras.

4. Estava Francisco a caminho com seus Irmãos, disposto a levar a termo seu plano e obter uma audiência com o Sumo Pontífice, Inocência III, quando Cristo, força e sabedoria de Deus, se antecipou e preparou-lhe a chegada. Em sua misericórdia, dignou-se , por meio de uma visão , informar a seu vigário na terra que acolhesse sem dificuldades o pobrezinho e lhe concedesse benignamente anuência a seu pedido humilde. Viu o Pontífice Romano em sonho a basílica do Latrão prestes a ruir, mas um pobrezinho, homem pequeno e de aspecto miserável, sustentava-a com seus ombros impedindo que ruísse. O Pontífice, que era dotado de uma sabedoria notável, ao perceber a limpidez dessa alma simples, seu desprezo pelo mundo, seu amor à pobreza, sua tenacidade em seu desejo de perfeição, seu zelo pelas almas e o ardente amor que caracterizava sua vontade de santidade, declarou: "Ò esse homem realmente que, por sua ação e pregação, sustentar a Igreja de Cristo!" E teve por Francisco uma amizade fervorosa e inabalável, anuiu sem reserva ao pedido dele, aprovou-lhe a Regra, deu-lhe missão de pregador da penitência, enfim, concedeu tudo o que ele solicitava e prometeu favorecer ainda mais no futuro.

5. Com a graça de Deus e a autoridade do Sumo Pontífice que lhe dava pleno apoio, Francisco regressou confiante pelo caminho do vale de Espoleto. Em seu coração concebera a verdadeira perfeição evangélica e a professou solenemente emitindo seus votos. Parecia ansioso de poder praticá-la em sua vida e ensiná-la aos outros pela pregação. Juntamente com seus companheiros, discutiu a questão se deveriam viver entre o povo ou viver na solidão. Rogou, pois, ao Senhor, em ardente oração, que lhe revelasse o que deveria fazer a respeito. Foi agraciado com uma revelação e se convenceu de que tinha sido enviado por Deus para salvar almas, almas que o demônio tentava arrebatar à perdição. Chegou a conclusão de que deveria viver para os outros e não exclusivamente para si. Foi então viver numa cabana abandonada perto de Assis, onde poderia levar em comum uma vida de pobreza e rigorosa disciplina religiosa com seus Irmãos e pregar a palavra de Deus ao povo, sempre que tivesse oportunidade, Tornou- se o arauto do Evangelho, pregando de cidade em cidade o reino de Deus "não com estudadas palavras de humana sabedoria, mas pela virtude do Espírito Santo" (1Cor 2,13). O Senhor inspirava a seu intérprete, revelando-lhe antes de falar o que deveria dizer, "corroborando em seguida pelos milagres o que tinha dito" (Mc 16,20).

6. Certa noite, estava vigiando em oração, como de costume, longe de seus filhos. De repente, pela meia-noite, enquanto alguns Irmãos dormiam e outros rezavam, um carro de fogo de um esplendor maravilhoso com um globo brilhante, parecido com o sol, entrou na cabana dos Irmãos pela pequena porta e deu três voltas no recinto. Diante desse espetáculo maravilhoso, os que estavam acordados ficaram atônitos; os que dormiam acordaram amedrontados. Seus corações ficaram iluminados assim como os olhos, de modo que diante dessa estupenda luz eles puderam ler às claras a consciência de cada um. Ao contemplar cada qual o coração de todos, foram de parecer unânime que o Senhor lhes queria mostrar, sob essa aparência simbólica, seu Pai Francisco que viera "no espírito e na força de Elias" (Lc 1,17), e o designava como chefe de seu exército espiritual, "carruagem de Israel e seu guia" (cf. 2Rs 2,12). Voltando o santo para junto dos Irmãos, reanimou-lhes a coragem ao lhes falar dessa visão que o céu lhes enviara. Desde então penetrava os segredos de seus corações, predizia o futuro e realizava milagres. Estava bem patente para todos que o espírito de Elias, duas vezes mais poderoso, viera habitar nele com tal plenitude que o mais seguro para todos era seguir sua vida e seus ensinamentos.

7. Por essa época, havia num hospital, perto de Assis, um religioso chamado Monco, da Ordem dos Cruzados, que jazia enfermo há muito tempo minado por uma doença grave. Todos pensavam que sua morte não estava longe. Enviou ele um mensageiro para suplicar insistentemente junto ao homem de Deus que se dignasse interceder por ele ao Senhor. O santo consentiu imediatamente, pôs-se a orar, fez um bolinho com migalhas de pão, amassou-o com um pouco de azeite tirado da lâmpada que ardia diante do altar da Santíssima Virgem e mandou levar seu preparado medicinal ao doente através dos Irmãos, dizendo: "Levai este remédio ao nosso Irmão Morico. O poder de Cristo não só lhe devolvera' a saúde, mas fará dele um soldado valoroso que se alistar em nossas fileiras para sempre". Realmente, mal o doente ingeriu o remédio preparado por ordem do Espírito Santo, levantou-se curado e encontrou de novo o vigor do corpo e da alma. Entrou na Ordem sem demora e por muito tempo trouxe um cilicio diretamente sobre o corpo, e contentava-se com alimentos crus. Jamais comeu, desde então, alimentos cozidos e experimentou vinho.

8. Foi por essa época igualmente que um sacerdote de Assis, chamado Frei Silvestre, simples como uma pomba e de grande virtude, viu toda a região invadida por um dragão enorme. O aparecimento desse horrível animal representava para todo o mundo o cataclismo universal dos últimos tempos. Uma cruz luminosa de ouro plantada na boca de Francisco apareceu logo a seguir. Sua extremidade chegava até o céu e seus braços iam até aos confins do mundo. Diante da cruz, o dragão sangüinário e medonho fugiu para sempre. Repetiu-se o sonho por três vezes, e o santo homem compreendeu a missão que o Senhor destinava a Francisco: levantar o glorioso estandarte da cruz, esmagar o poder e a maldade do dragão, iluminar os corações dos fiéis projetando sobre eles, tanto por sua vida como por seu ensinamento, as esplêndidas luzes da verdade. Frei Silvestre contou detalhadamente ao homem de Deus e aos Irmãos a sua visão . Pouco tempo depois, abandonou o mundo, empenhou-se com tanto ardor em seguir a Cristo, a exemplo do bem-aventurado Francisco, que sua vida na Ordem serviu para confirmar a visão que tivera enquanto vivia no mundo.

9. Um outro Irmão chamado Pacífico, quando simples leigo, encontrou São Francisco em São Severino, onde fazia um sermão aos religiosos do convento. O poder dê Deus desceu sobre ele e viu o santo marcado com o sinal-da-cruz na forma de duas espadas de fogo; uma delas ia da cabeça aos pés, enquanto a outra ia de lado a lado, de uma mão à outra. Não conhecia São Francisco, mas percebeu que não poderia ser outra a pessoa que assim lhe era revelada por esse milagre. Ficou sobremodo atônito; as palavras do santo o comoveram de tal forma, que ele chorou seus pecados e ficou aterrorizado como se houvesse sido traspassado por uma espada espiritual que sala da boca do santo. Abandonou as pompas deste mundo e ingressou na Ordem professando sua Regra de vida. Mais tarde, já bem adiantado em santidade, mereceu ver na fronte de São Francisco, antes de se tornar ministro da França, onde foi o primeiro provincial, um grande tau, cujas cores variadas emprestavam ... fisionomia do santo uma rara beleza. O tau era um sinal muito querido do santo. Recomendava-o muitas vezes, fazia-o sobre si mesmo antes de iniciar qualquer trabalho e o escrevia de próprio punho ao final das cartas que ele enviava, como se quisesse pôr todo seu empenho em imprimir esse tau, segundo a palavra do profeta (Ez 9,4), sobre a fronte daqueles que gemem e choram seus pecados, de todos os verdadeiros convertidos a Cristo Jesus.