CAPÍTULO 3. AS VIRTUDES COM QUE DEUS O DISTINGUIU

1. Como leal seguidor de Jesus crucificado, Francisco crucificou sua carne com suas paixões e concupiscências, desde o inicio de sua conversão, impondo-se uma disciplina rigorosa, dominando seus instintos sensuais por uma mortificação e uma temperança tão rigorosas, que apenas concedia à natureza o que lhe era absolutamente necessário à sobrevivência. Não estando doente, só aceitava a contragosto e raramente alimentos cozidos; chegava mesmo às vezes a misturar-lhes cinza para torná-los amargos ou os mergulhava na água para torná-los insípidos. Quanto à bebida, era extremamente sóbrio, recusando o vinho ao corpo a fim de elevar a alma à luz da sabedoria; embora atormentado pela sede, bebia apenas o necessário para mitigá-la. A terra nua servia quase sempre de leito a seu enfraquecido corpo, enquanto uma pedra ou um tronco fazia de travesseiro e como cobertor usava a túnica de tecido comum, áspera e grosseira. A experiência lhe ensinara que a austeridade afugenta nossos inimigos perversos, os demônios, que apreciam tentar os sensuais e voluptuosos.

2. Mantinha uma vigilância continua sobre si mesmo com rígida disciplina e tinha o máximo cuidado em proteger o tesouro inestimável da castidade, que carregamos em vasos de argila. Esmerava-se em conservá-la com toda honra que devemos a uma virtude tão santa, pela pureza absoluta da alma e do corpo. No inicio de sua conversão, com a coragem e o fervor do Espírito, chegou, em pleno inverno, a se lançar num fosso d'água gelada ou de neve para sufocar inteiramente o inimigo que cada qual traz em si e preservar dos ataques da volúpia a veste branca da inocência. Foi por essas práticas que começou a brilhar nele a bela pureza, o inteiro domínio que ele obteve sobre a carne. Parecia que tinha feito contrato com os olhos (cf. Jó 31,1): não só fugia a qualquer espetáculo que pudesse deleitar a carne, mas se recusava mesmo a olhar tudo o que apresentasse caráter de curiosidade ou de futilidade.

3. Conquistara a pureza do coração e do corpo e quase atingira as culminâncias da santidade. No entanto, não cessava de purificar os olhos da alma por freqüentes lágrimas, pois o que ele desejava contemplar eram as límpidas luzes do céu e pouco se incomodava com o prejuízo causado pelas lágrimas aos olhos do corpo. De tanto chorar, contraíra uma doença grave nos olhos. Jamais quis obedecer ao médico, que lhe prescrevia parar de chorar senão quisesse ficar cego. Preferia, dizia ele, perder a vista a proibir-se, à custa da perda de toda devoção, as lá- grimas que permitem ver a Deus, pois tornam mais pura a visão da alma. Entre esses acessos de lágrimas, que eram uma graça do céu, conservava o santo em seu coração como nos traços de seu semblante a alegria e a serenidade. Sua consciência límpida permitia-lhe tanta alegria, que seu espírito continuamente jubilava em Deus e não deixava de exultar à vista ou ao pensamento de todas as obras de suas mãos.

4. Francisco vivia em espírito de profunda humildade, guarda e ornamento de todas as virtudes. Superava a todos imensamente pelas virtudes que brilhavam em sua vida; a humildade, porém, parecia a virtude que mais o distinguia e se considerava o último de todos os homens. Em seu parecer, ele era o maior dos pecadores e se considerava apenas uma criatura fraca e sem valor; na verdade era um exemplo de santidade, escolhido por Deus, brilhando por seus dons múltiplos de graça e de virtude e consagrado pela santidade de sua vida. Tudo fazia por parecer coisa inútil aos próprios olhos e diante dos outros; confessava publicamente suas faltas ocultas e escondia os dons de Deus no intimo do coração; recusava expor-se ao louvor dos homens, temendo que fosse uma ocasião de queda. Em sua busca por praticar a humildade com toda perfeição, não só obedecia a seus superiores, mas até se mostrava submissão aos inferiores; tinha o hábito de prometer obediência ao Irmão que o acompanhava em viagem, ainda que fosse pessoa das mais simples. Não usava de sua autoridade como um superior; em sua humildade, preferia obedecer aos que lhe eram sujeitos, como seu ministro e servo.

5. A altíssima pobreza é companheira da humildade. Como perfeito imitador de Cristo, Francisco tomou-a por esposa e prometeu-lhe amor eterno. Por amor à pobreza abandonou pai e Mãe e tudo o que possuía. Ninguém era tão vido de ouro quanto ele da pobreza; ninguém jamais guardou um tesouro com tanto cuidado como ele guardou essa pérola do Evangelho. Desde o primeiro instante de sua vida religiosa até à morte, sua única riqueza consistia num hábito, numa corda e calças. O despojamento total parecia ser o único motivo de sua glória e a penúria a única fonte de sua alegria. Se encontrasse alguém mais pobremente vestido do que ele, imediatamente começava a se censurar para se estimular a imitá-lo, temia levar desvantagem nessa porfia de quem seria o mais pobre materialmente e quem seria espiritualmente mais nobre. A pobreza para ele era a garantia de que entraria um dia na posse da herança eterna. Colocava-a muito mais alto do que todos os bens terrestres, que existem apenas para um breve tempo. Tinha como um nada a soberania de um instante sobre tais riquezas decepcionantes. Demonstrava mais amor à pobreza do que em geral se tem pelas maiores fortunas. Almejava superar a todos na prática da pobreza, ele que aprendera a se julgar o último dos homens.

6. Seu amor pela altíssima pobreza fez com que o homem de Deus aumentasse seu tesouro de santa simplicidade. Ele mesmo nada possuía de próprio desse mundo, mas parecia proprietário de todas as coisas e de todos os bens em Deus, Criador do mundo. Tinha uma visão , uma atitude de espírito, semelhante à simplicidade da pomba; tudo o que via, sua contemplação o colocava em relação ao soberano Artífice. Em cada objeto descobria o Criador, amando-o e louvando-o. Desse modo, por um favor da bondade do céu, chegou a possuir tudo em Deus e Deus em tudo. Pelo hábito de retornar sempre à origem de todas as coisas, dava o nome de Irmão e Irmã às criaturas, mesmo às mais humildes, uma vez que elas e ele haviam nascido do mesmo princípio. No entanto, tinha mais simpatia e amor por aquelas que, por sua natureza ou pelo simplismo bíblico, lembram o amor e a brandura de Cristo. Por isso os animais sentiam-se atraídos a ele, e mesmo as coisas inanimadas obedeciam à sua vontade, como se a simplicidade e a justiça do santo o tivessem já feito voltar ao estado de inocência original.

7. Francisco estava tão repleto desse espírito de amável compaixão , nascido da fonte da misericórdia, que parecia ter carinho de Mãe diante dos sofrimentos dos que se encontravam na miséria. Era brando por natureza e o amor de Cristo apenas intensificava essa disposição natural. Toda sua alma se desfazia de tanta piedade à vista dos pobres e doentes. Quando não podia socorrê-los materialmente, procurava ao menos testemunhar-lhes seu amor. Para tanto descarregava com toda afeição em Cristo os fardos de miséria e sofrimento que encontrava nos corações. E como em todos os pobres ele via a semelhança com Cristo, não só dava generosamente ao primeiro que aparecia todas as esmolas recebidas, com o risco de passar necessidade, mas a isso chamava restituir, como se os pobres fossem os proprietários de tais esmolas. Nada retinha para si do que recebia: mantos, túnicas, livros, as toalhas do altar, enquanto houvesse quem lhe pedisse esmola; e para chegar à perfeita realização de seu amor, ele mesmo, além disso, se doava e se distribuía aos outros.

8. O zelo pela salvação de nossos Irmãos procede do fogo do amor e como uma espada afiada, uma espada de fogo, traspassou o coração de Francisco a tal ponto, que parecia consumido pelo zelo das almas, inflamado de ardor por conquistá-las, mas também coberto dos ferimentos causados pelo pesar e pela piedade. De fato, ao contemplar as almas resgatadas pelo sangue precioso de Cristo Jesus e ao notar a mancha de algum pecado, sentia isso como uma lançada terrível e dolorosa. Chorava-lhes a desgraça com uma ternura patética, gerando-as todos os dias, como uma Mãe em Cristo. Isso explica a veemência com que ele rezava, a atividade extraordinária de suas viagens de pregação e seus excessos quando se tratava de dar o exemplo: não se considerava como amigo de Cristo a não ser cuidando das almas resgatadas por ele. Por essa razão ele era tão dedicado à oração, tão ativo na pregação, e por isso também ele se excedeu em dar o bom exemplo. Não se consideraria amante de Cristo, se não se compadecesse das almas por ele redimidas. Seu corpo inocente, que voluntariamente se tornara submisso ao espírito, não necessitava de punição pelo pecado; no entanto, para dar o bom exemplo, muitas vezes o submetia a penas e sofrimentos. Por amor aos outros “não se apartou das veredas árduas" (Sl 16,4). Cristo se entregou à morte pela salvação dos outros, e Francisco desejava seguir suas pegadas até o fim.

9. Francisco nada mais desejava senão oferecer-se ao Senhor como hóstia viva. Daí o seu desejo do martírio, o melhor testemunho do fervor e perfeito amor que tinha a Deus o amigo do Esposo. Três vezes tentou ir aos infiéis; por duas vezes a divina Providência o impediu, mas na terceira tentativa, depois de toda espécie de afrontas, prisão, açoites, sofrimentos e dificuldades de toda ordem, ele foi conduzido pelo Senhor, que era seu guia, à presença do Sultão da Babilônia. Francisco lhe anunciou o Evangelho de Cristo; o Espírito Santo e o poder de Deus lhe comunicavam tal força de persuasão, que o Sultão ficou maravilhado. Deus abrandou-lhe o coração e ele ouviu o santo com benevolência. Ao encontrar em Francisco um coração ardente, força de ânimo, desprezo da vida, eloquência tão persuasiva, o Sultão teve por ele uma grande afeição e devoção. Tratou-o com muita deferência, ofereceu-lhe ricos presentes e insistiu que permanecesse com ele. Mas o santo, em seu perfeito desprezo pelo mundo e por si mesmo, recusou como se fosse lama tudo o que lhe ofereciam. Depois, convencido de que não conseguiria o que era sua intenção, depois de empenhar lealmente todos os seus esforços para conseguir seu objetivo, voltou ...s terras cristãs, avisado por Deus numa revelação. Desse modo o amigo de Cristo procurara por todos os meios morrer por ele, mas não o conseguiu; adquirira, porém, o mérito do martírio de desejo e, se estava com vida, é que deveria receber mais tarde, por um privilégio único, o selo e o símbolo desse martírio.