CAPÍTULO 4. SEU AMOR À ORAÇÃO E SEU ESPÍRITO DE PROFECIA

1. Francisco sentia-se como um peregrino, enquanto viveu nesta vida mortal separado de Deus, e, ao mesmo tempo, seu amor a Cristo o deixara completamente insensível aos desejos da terra. Por isso, buscava manter seu espírito na presença de Deus, orando a ele sem interrupção, de modo que sempre era confortado pelo seu bem-amado. Quer andasse ou parasse, em viagem ou no convento, no trabalho e no repouso, entregava-se à oração com todas as veras de sua alma, de modo que parecia ter consagrado a ela corpo e alma, toda a sua atividade e todo o seu tempo. Seu fervor extático levava-o às vezes a tais alturas que, arrebatado e fora de si, sentia o que homem algum pode sentir e ficava alheio a tudo o que se passava à sua volta.

2. Procurava os lugares desertos e igrejas abandonadas para aí passar a noite em oração e poder assim acolher na maior paz as visitas do Espírito Santo e suas consolações. Não lhe faltaram então os terríveis assaltos dos demônios que, lutando contra ele corpo a corpo, procuravam desviá-lo de sua dedicação à oração. Mas o poder infatigável de suas orações fervorosas os afugentava. Só e na perfeita tranqüilidade o homem de Deus fazia os bosques repetir o eco de seus gemidos, regava a terra com a abundância de suas lágrimas, batia no peito e como quem se sente bem abrigado na câmara mais secreta do palácio, falava Francisco ao Senhor, respondia ao Juiz, suplicava ao Pai, gozava da companhia de seu divino Esposo e conversava com o Amigo. Aí também o encontraram certa noite rezando com os braços em cruz, elevado da terra e cercado de uma nuvem luminosa. Essa claridade radiante e essa levitação de seu corpo atestavam a admirável luz que iluminava sua alma e as alturas em que pairava seu espírito.

3. Francisco encontrava acesso aos mistérios e aos segredos da Sabedoria de Deus pela força sobrenatural desses êxtases. Temos testemunhos indiscutíveis de tais arrebatamentos, embora ele mesmo não falasse deles nunca, a não ser quando seu desejo de salvar as almas de seus Irmãos a isso o obrigava ou se para tanto recebia ordem por revelação do alto. Por sua aplicação constante à oração e por sua prática das virtudes, chegara o homem de Deus a um grau tão elevado de pureza d'alma que, sem ter adquirido erudição alguma pelo processo comum de aprendizagem das Escrituras, penetrava-lhes no entanto até o mais profundo significado. O espírito dos profetas desceu sobre ele em todas as suas vá rias formas, com superabundância de graças. O homem de Deus podia fazer sentir sua presença à distância. Estava a par do que ocorria longe dele; penetrava os segredos dos corações e predizia o futuro. Temos disso testemunhos iniludíveis. Seguem aqui alguns deles.

4. Certa vez, durante o capítulo provincial de Arles, o famoso e santo pregador Antônio, agora associado à glória dos santos confessores de Cristo, pregava aos Irmãos, com sua eloquência tão suave e agradável, sobre o título que encimava a cruz: Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus. Eis que, de repente, Francisco, que se encontrava a mais de cem léguas de distancia, apareceu à porta do capítulo, elevado da terra, os braços em cruz e dando aos Irmãos sua bênção. Essa aparição encheu os Irmãos de grande consolação. Eles estavam plenamente certos de que essa visão maravilhosa era obra do poder de Deus. O milagre não ocorreu sem o conhecimento de nosso bem-aventurado Pai, o que mostra claramente como seu espírito estava inteiramente penetrado da luz dessa Sabedoria eterna: "mais ágil que todo movimento, ela atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza. Ela se derrama nas almas santas e forma os amigos e intérpretes de Deus" (Sb 7,24 e 27).

5. Estando os Irmãos reunidos em capítulo, como de costume, em Santa Maria da Porciúncula, um deles, por algum pretexto, recusava-se a obedecer. Estava Francisco rezando em sua cela neste momento, rogando a Deus pelos Irmãos, quando lhe foi revelado o que sucedia. Mandou chamar um dos Irmãos e lhe disse: "Irmão, eu vi o demônio montado nas costas desse Irmão desobediente e apertando-lhe fortemente o pescoço. Cavalgado por um tal cavaleiro, rejeita o freio da obediência e segue apenas as rédeas de seu Instinto. Diga, pois, que se submeta imediatamente ao jugo da santa obediência, pois quem lhe pede que assim o faça orou ao Senhor, e à sua prece o demônio fugiu envergonhado!" Diante dessas palavras do mensageiro, o Irmão reconheceu seu erro e ficou arrependido. Lançou-se aos pés do vigário do santo, reconheceu-se culpado, pediu-lhe perdão, aceitou e cumpriu a penitência. Dai em diante foi sempre humilde e obediente.

6. Ao tempo que Francisco vivia no monte Alverne, um dos companheiros nutria o grande desejo de ter algumas frases breves da Bíblia escritas de próprio punho do santo- De fato, estava sendo tentado não na carne mas no espírito, e esperava ficar livre da tentação ou suportá-la mais facilmente- Triste, angustiado e envergonhado, pois era um homem simples e tímido, não tinha coragem de se abrir ao Pai, a quem muito venerava. Mas o que o homem não ousou dizer, o Espírito de Deus o revelou: o santo pediulhe que trouxesse tinta e papel, escreveu de próprio punho os Louvores ao Senhor, como o desejara o Irmão, e terminou por uma bênção para ele; em seguida, lhe entregou o papel escrito e a tentação cessou. Ainda se conserva o documento, que a muitos doentes tem devolvido a saúde. Brilha assim aos olhos de todos o mérito que teve diante de Deus o copista cuja escrita conservou um tal poder.

7. Em outra ocasião, uma senhora nobre e piedosa foi procurar o santo e pedir-lhe que intercedesse junto ao Senhor em favor de seu marido a fim de levá-lo a melhores sentimentos: era um homem muito ríspido que a impedia de servir a Cristo. Francisco, compadecido, a ouviu e começou a encorajá-la a perseverar no bem; em seguida, garantiu-lhe que ela conheceria em breve a consolação desejada e ordenou-lhe: "Dirás a teu marido, em nome de Deus e em meu nome, que agora é o tempo da demência, mas que logo vir o tempo da justiça". Ela confiou nas palavras do servo de Deus, e tendo recebido sua bênção, voltou para casa às pressas. O marido saiu-lhe ao encontro e ela lhe transmitiu a mensagem, ansiosa por ver realizada a promessa, certa, porém, de seu êxito. Mal disse ela aquela frase e o Espírito de graça se apoderou dele e transformou aquele coração de pedra. A partir de então, permitiu a sua piedosa mulher servir a Deus com plena liberdade, e ele mesmo juntamente com ela colocou-se ao serviço de Deus. De comum acordo, praticaram ambos, por sugestão da esposa, a castidade durante v rios anos, e ambos morreram no mesmo dia, ela de manhã, como um "sacrifício matutino", e ele à tarde, como um sacrifício vespertino" (cf. Nm 28,8 e 23).

8. Estando o santo doente em Rieti, um clérigo sensual e mundano chamado Gedeão ficou gravemente enfermo. Levaram-no a Francisco num leito e juntamente com os que estavam presentes pediu-lhe entre lá grimas que o abençoasse com o sinal-da-cruz. O santo, porém, replicou-lhe: "Viveste até aqui uma vida cheia de pecado, sem pensar no juízo de Deus. Farei o sinal-da-cruz sobre ti, não por causa de ti, mas pelas preces fervorosas daqueles que intercedem em teu favor. Mas garanto-te que, se voltares ao vômito de teu. passado pecaminoso depois de curado, coisas bem piores te sucederão!" Fez então o sinal-da-cruz sobre ele da cabeça aos pés e todos ouviram como seus ossos estalaram como lenha seca que alguém partisse. O enfermo pôs-se de pé completamente curado, agradeceu a Deus exclamando: "Estou curado!" Pouco depois, porém, esqueceu-se de Deus de novo e entregou o próprio corpo à impureza. Certa noite, depois de cear na casa de um dos cônegos, passou a noite como seu hóspede. Nessa noite o telhado da casa ruiu, caindo sobre todos inesperadamente; todos escaparam à morte, menos ele. O fato por si só revela a severidade da justiça de Deus para com os ingratos e a veracidade do espírito de profecia que animava Francisco.

9. Tendo chegado de viagem de além-mar, por esse mesmo tempo, dirigiu-se o santo a Celano para pregar. Certo cavaleiro pediu-lhe com insistência que fosse cear em sua casa. Francisco relutava em aceitar, mas ele quase o forçou a ir, tão devoto era do santo. Antes de sentarem à mesa, o santo fez as preces usuais, como homem de oração que era. Foi-lhe então revelado em espírito que o cavaleiro que o hospedava haveria de morrer muito em breve. Francisco estava de pé com a mente fixa em Deus, enquanto seus olhos se voltavam para o céu. Ao terminar a oração, chamou o homem à parte e contou-lhe que ele haveria de falecer em breve, aconselhando-o que se confessasse e encorajando-o do melhor modo que podia. Ele obedeceu imediatamente, confessou todos os seus pecados ao companheiro do santo, pôs em dia suas coisas, e se preparou da melhor forma para receber a morte. Enquanto seus convivas comiam, o cavaleiro, que parecia forte e disposto, subitamente passou desta vida, assim como o santo previra. Mas pelo espirito de profecia de Francisco tivera a possibilidade de munir-se com as armas da penitência e escapar da condenação eterna, sendo introduzido, como promete o Evangelho, nos tabernáculos eternos.