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1. Francisco sentia-se como um peregrino, enquanto viveu nesta vida
mortal separado de Deus, e, ao mesmo tempo, seu amor a Cristo o
deixara completamente insensível aos desejos da terra. Por isso,
buscava manter seu espírito na presença de Deus, orando a ele sem
interrupção, de modo que sempre era confortado pelo seu bem-amado.
Quer andasse ou parasse, em viagem ou no convento, no trabalho e no
repouso, entregava-se à oração com todas as veras de sua alma, de
modo que parecia ter consagrado a ela corpo e alma, toda a sua
atividade e todo o seu tempo. Seu fervor extático levava-o às vezes
a tais alturas que, arrebatado e fora de si, sentia o que homem algum
pode sentir e ficava alheio a tudo o que se passava à sua volta.
2. Procurava os lugares desertos e igrejas abandonadas para aí
passar a noite em oração e poder assim acolher na maior paz as visitas
do Espírito Santo e suas consolações. Não lhe faltaram então os
terríveis assaltos dos demônios que, lutando contra ele corpo a
corpo, procuravam desviá-lo de sua dedicação à oração. Mas o
poder infatigável de suas orações fervorosas os afugentava. Só e
na perfeita tranqüilidade o homem de Deus fazia os bosques repetir o
eco de seus gemidos, regava a terra com a abundância de suas
lágrimas, batia no peito e como quem se sente bem abrigado na câmara
mais secreta do palácio, falava Francisco ao Senhor, respondia ao
Juiz, suplicava ao Pai, gozava da companhia de seu divino Esposo e
conversava com o Amigo. Aí também o encontraram certa noite rezando
com os braços em cruz, elevado da terra e cercado de uma nuvem
luminosa. Essa claridade radiante e essa levitação de seu corpo
atestavam a admirável luz que iluminava sua alma e as alturas em que
pairava seu espírito.
3. Francisco encontrava acesso aos mistérios e aos segredos da
Sabedoria de Deus pela força sobrenatural desses êxtases. Temos
testemunhos indiscutíveis de tais arrebatamentos, embora ele mesmo
não falasse deles nunca, a não ser quando seu desejo de salvar as
almas de seus Irmãos a isso o obrigava ou se para tanto recebia ordem
por revelação do alto. Por sua aplicação constante à oração e
por sua prática das virtudes, chegara o homem de Deus a um grau tão
elevado de pureza d'alma que, sem ter adquirido erudição alguma pelo
processo comum de aprendizagem das Escrituras, penetrava-lhes no
entanto até o mais profundo significado. O espírito dos profetas
desceu sobre ele em todas as suas vá rias formas, com superabundância
de graças. O homem de Deus podia fazer sentir sua presença à
distância. Estava a par do que ocorria longe dele; penetrava os
segredos dos corações e predizia o futuro. Temos disso testemunhos
iniludíveis. Seguem aqui alguns deles.
4. Certa vez, durante o capítulo provincial de Arles, o famoso e
santo pregador Antônio, agora associado à glória dos santos
confessores de Cristo, pregava aos Irmãos, com sua eloquência tão
suave e agradável, sobre o título que encimava a cruz: Jesus de
Nazaré, Rei dos Judeus. Eis que, de repente, Francisco, que
se encontrava a mais de cem léguas de distancia, apareceu à porta do
capítulo, elevado da terra, os braços em cruz e dando aos Irmãos
sua bênção. Essa aparição encheu os Irmãos de grande
consolação. Eles estavam plenamente certos de que essa visão
maravilhosa era obra do poder de Deus. O milagre não ocorreu sem o
conhecimento de nosso bem-aventurado Pai, o que mostra claramente
como seu espírito estava inteiramente penetrado da luz dessa Sabedoria
eterna: "mais ágil que todo movimento, ela atravessa e penetra
tudo, graças à sua pureza. Ela se derrama nas almas santas e forma
os amigos e intérpretes de Deus" (Sb 7,24 e 27).
5. Estando os Irmãos reunidos em capítulo, como de costume, em
Santa Maria da Porciúncula, um deles, por algum pretexto,
recusava-se a obedecer. Estava Francisco rezando em sua cela neste
momento, rogando a Deus pelos Irmãos, quando lhe foi revelado o que
sucedia. Mandou chamar um dos Irmãos e lhe disse: "Irmão, eu vi
o demônio montado nas costas desse Irmão desobediente e
apertando-lhe fortemente o pescoço. Cavalgado por um tal cavaleiro,
rejeita o freio da obediência e segue apenas as rédeas de seu
Instinto. Diga, pois, que se submeta imediatamente ao jugo da santa
obediência, pois quem lhe pede que assim o faça orou ao Senhor, e
à sua prece o demônio fugiu envergonhado!" Diante dessas palavras
do mensageiro, o Irmão reconheceu seu erro e ficou arrependido.
Lançou-se aos pés do vigário do santo, reconheceu-se culpado,
pediu-lhe perdão, aceitou e cumpriu a penitência. Dai em diante
foi sempre humilde e obediente.
6. Ao tempo que Francisco vivia no monte Alverne, um dos
companheiros nutria o grande desejo de ter algumas frases breves da
Bíblia escritas de próprio punho do santo- De fato, estava sendo
tentado não na carne mas no espírito, e esperava ficar livre da
tentação ou suportá-la mais facilmente- Triste, angustiado e
envergonhado, pois era um homem simples e tímido, não tinha coragem
de se abrir ao Pai, a quem muito venerava. Mas o que o homem não
ousou dizer, o Espírito de Deus o revelou: o santo pediulhe que
trouxesse tinta e papel, escreveu de próprio punho os Louvores ao
Senhor, como o desejara o Irmão, e terminou por uma bênção para
ele; em seguida, lhe entregou o papel escrito e a tentação cessou.
Ainda se conserva o documento, que a muitos doentes tem devolvido a
saúde. Brilha assim aos olhos de todos o mérito que teve diante de
Deus o copista cuja escrita conservou um tal poder.
7. Em outra ocasião, uma senhora nobre e piedosa foi procurar o
santo e pedir-lhe que intercedesse junto ao Senhor em favor de seu
marido a fim de levá-lo a melhores sentimentos: era um homem muito
ríspido que a impedia de servir a Cristo. Francisco, compadecido,
a ouviu e começou a encorajá-la a perseverar no bem; em seguida,
garantiu-lhe que ela conheceria em breve a consolação desejada e
ordenou-lhe: "Dirás a teu marido, em nome de Deus e em meu nome,
que agora é o tempo da demência, mas que logo vir o tempo da
justiça". Ela confiou nas palavras do servo de Deus, e tendo
recebido sua bênção, voltou para casa às pressas. O marido
saiu-lhe ao encontro e ela lhe transmitiu a mensagem, ansiosa por ver
realizada a promessa, certa, porém, de seu êxito. Mal disse ela
aquela frase e o Espírito de graça se apoderou dele e transformou
aquele coração de pedra. A partir de então, permitiu a sua piedosa
mulher servir a Deus com plena liberdade, e ele mesmo juntamente com
ela colocou-se ao serviço de Deus. De comum acordo, praticaram
ambos, por sugestão da esposa, a castidade durante v rios anos, e
ambos morreram no mesmo dia, ela de manhã, como um "sacrifício
matutino", e ele à tarde, como um sacrifício vespertino" (cf.
Nm 28,8 e 23).
8. Estando o santo doente em Rieti, um clérigo sensual e mundano
chamado Gedeão ficou gravemente enfermo. Levaram-no a Francisco
num leito e juntamente com os que estavam presentes pediu-lhe entre lá
grimas que o abençoasse com o sinal-da-cruz. O santo, porém,
replicou-lhe: "Viveste até aqui uma vida cheia de pecado, sem
pensar no juízo de Deus. Farei o sinal-da-cruz sobre ti, não por
causa de ti, mas pelas preces fervorosas daqueles que intercedem em teu
favor. Mas garanto-te que, se voltares ao vômito de teu. passado
pecaminoso depois de curado, coisas bem piores te sucederão!" Fez
então o sinal-da-cruz sobre ele da cabeça aos pés e todos ouviram
como seus ossos estalaram como lenha seca que alguém partisse. O
enfermo pôs-se de pé completamente curado, agradeceu a Deus
exclamando: "Estou curado!" Pouco depois, porém, esqueceu-se
de Deus de novo e entregou o próprio corpo à impureza. Certa
noite, depois de cear na casa de um dos cônegos, passou a noite como
seu hóspede. Nessa noite o telhado da casa ruiu, caindo sobre todos
inesperadamente; todos escaparam à morte, menos ele. O fato por si
só revela a severidade da justiça de Deus para com os ingratos e a
veracidade do espírito de profecia que animava Francisco.
9. Tendo chegado de viagem de além-mar, por esse mesmo tempo,
dirigiu-se o santo a Celano para pregar. Certo cavaleiro pediu-lhe
com insistência que fosse cear em sua casa. Francisco relutava em
aceitar, mas ele quase o forçou a ir, tão devoto era do santo.
Antes de sentarem à mesa, o santo fez as preces usuais, como homem
de oração que era. Foi-lhe então revelado em espírito que o
cavaleiro que o hospedava haveria de morrer muito em breve. Francisco
estava de pé com a mente fixa em Deus, enquanto seus olhos se
voltavam para o céu. Ao terminar a oração, chamou o homem à parte
e contou-lhe que ele haveria de falecer em breve, aconselhando-o que
se confessasse e encorajando-o do melhor modo que podia. Ele obedeceu
imediatamente, confessou todos os seus pecados ao companheiro do
santo, pôs em dia suas coisas, e se preparou da melhor forma para
receber a morte. Enquanto seus convivas comiam, o cavaleiro, que
parecia forte e disposto, subitamente passou desta vida, assim como o
santo previra. Mas pelo espirito de profecia de Francisco tivera a
possibilidade de munir-se com as armas da penitência e escapar da
condenação eterna, sendo introduzido, como promete o Evangelho,
nos tabernáculos eternos.
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