|
1. O Espírito de Deus que o ungira, juntamente com "Cristo,
poder e sabedoria de Deus" (1Cor 1,24), estava sempre com
Francisco. Por sua graça e poder, revelavam-se segredos ocultos ao
santo e os elementos lhe obedeciam. Certa ocasião, os médicos
prescreveram como tratamento uma cauterização. Os Irmãos insistiam
que ele consentisse na dita intervenção para obter a cura dos olhos.
O homem de Deus humildemente se submeteu à operação, pois via nela
não apenas uma ocasião de curar a doença, mas também um ato de
coragem e de força. Diante do ferro em brasa, sua carne
sobressaltou-se horrorizada, como é natural. Mas ele se dirigiu ao
fogo como a um Irmão. Em nome e pelo poder do Criador, ordenoulhe
que moderasse seu ardor, "para que eu possa, disse ele, suportar tua
carícia ardente". O médico passou-lhe na carne delicada o ferro
ainda em brasa, estendendo-se a cauterização desde a orelha até,
às sobrancelha... Então, cheio de Deus e com o espírito
transbordando de alegria, disse aos Irmãos: "Louvai o
Altíssimo, pois, na verdade, não senti a queimadura e minha carne
não precisou sofrer".
2. Estando muito doente no eremitério de Santo Urbano, sentia as
forças abandoná-lo e pediu que lhe oferecessem um pouco de vinho.
Disseram-lhe que não havia sequer uma gota. Ordenou então que lhe
trouxessem água; ele a benzeu com o sinal-da-cruz e imediatamente
aquilo que tinha sido até então apenas água pura se transformou em
excelente vinho. O que a pobreza do eremitério tornava impossível
conseguiu-o a pureza do santo. Mal experimenta ele do vinho e as
forças lhe voltaram: prova manifesta de que a bebida desejada lhe foi
concedida por Aquele que da tão generosamente, não tanto para afagar
o apetite como para beneficiar a saúde do corpo.
3. Em outra ocasião, desejando o homem de Deus retirar-se num
eremitério para se entregar mais livremente à oração, aceitou ir
montado num burrinho, pois estava sem forças. Era verão, e o guia
que subia a pé a montanha atrás do santo, não agüentando mais de
cansaço e de sede por aquele caminho longo e acidentado, começou a
gritar que ia morrer ali se não houvesse água para beber. Sem perder
um momento, o homem de Deus desce do burrinho e se ajoelha, levanta
as mãos para o céu e não cessa de rezar enquanto não é ouvido.
Dirige-se ao homem e lhe diz: "Corre até aquele rochedo e
encontraras uma fonte que Cristo em sua bondade acaba de fazer jorrar
da pedra para que possas beber". O homem correu ao lugar indicado e
bebeu daquela água nascida da rocha pela força de um santo em
oração, e Deus fez manar água de um rochedo duríssimo para
refrescá-lo.
4. Pregava o servo de Deus certo dia na praia de Gaeta, e a
multidão, por devoção, se apinhava à sua volta para tocá-lo.
Querendo fugir dessas manifestações de entusiasmo, saltou sozinho
para dentro de uma barca, que por lá se encontrava atracada. E de
repente, esta, diante do povo maravilhado, afastou-se da margem e
dirigiu-se até a uma curta distância sobre as água, sem auxilio de
nenhum remador, como se houvesse sido impelida e dirigida por sua
própria força. Em seguida, ficou imóvel sobre as ondas todo o
tempo que o santo decidiu pregar às multidões reunidas na praia.
Depois do sermão, o povo que testemunhara o milagre recebeu a
bênção e foi despedido pelo santo. Só então a barca atracou à
praia de novo impelida unicamente com o impulso e vontade do céu. As
criaturas obedecem Aquele que as fez e também se submetem sem
resistência aos perfeitos amigos do Criador, obedecendolhes sem
demora.
5. Durante uma estadia do santo no eremitério de Greccio, sofriam
os moradores daquela região sucessivos prejuízos em suas colheitas.
O granizo arrasava todos os anos as colheitas e as vinhas; bandos de
lobos ferozes atacavam não apenas os rebanhos mas também os homens.
O servo do Deus onipotente, cheio de piedade para com o povo, estava
muito aflito. Num sermão prometeu e garantiu que acabaria a
calamidade se todos se confessassem e produzissem dignos frutos de
penitência. Fizeram penitência, de acordo com as exortações de
Francisco, e desde então desapareceram os flagelos, cessaram os
perigos, os lobos e o granizo não mais incomodaram a ninguém. E
mais ainda: quando o granizo chegava nas proximidades daquela região,
parava à distância ou mudava de rumo.
6. Certa ocasião, durante uma viagem de pregações pelo vale de
Espoleto, chegou Francisco a um lugar chamado Bevagna. Viu um
bosque onde passarinhos de toda espécie se ajuntavam em grandes
revoadas. O Espírito de Deus desceu sobre o santo que correu até
eles e os saudou com alegria, ordenando-lhes que se calassem e
escutassem com atenção a palavra de Deus. E começou a fazer-lhes
um longo sermão sobre os benefícios que Deus concede generosamente
...s criaturas e sobre os louvores que lhe devem dar até mesmo os
passarinhos. Essas palavras suscitavam entre as aves manifestações
de alegria: elas esticavam o pescoço, abriam as asas e o bico,
olhavam com atenção para Francisco, para melhor se compenetrarem,
por assim dizer, da força admirável de suas palavras. Com muita
razão, este homem cheio de Deus, diante de criaturas irracionais,
se sentia inclinado a profundos sentimentos de humanidade, pois elas
mesmas, por sua vez, revelavam para com ele uma inclinação
prodigiosa, chegando mesmo a ouvir suas instruções, a obedecer às
suas ordens, a refugiar-se com toda segurança em seus braços e a
permanecer de bom grado com ele todo o tempo que lhe aprouvesse
trazê-las suspensas de sua palavra.
7. Ao tentar atravessar o mar a fim de conquistar a palma do
martírio, desejo esse infelizmente frustrado pela tempestade, a
bondade previdente do Piloto universal saiu-lhe ao encontro para
arrancá-lo da morte, a ele e toda a tripulação, e manifestar em
alto mar suas maravilhas em favor de Francisco. Desejando este voltar
da Eslavônia para a Itália, subira sem nada num navio. Na hora do
embarque, um desconhecido enviado por Deus em seu socorro se
apresentou trazendo os viveres necessários, chamou um dos marujos e
entregou-os a ele com a recomendação de os distribuir oportunamente
àqueles que nada tinham. Os ventos sopravam com tal violência que os
dias passavam sem que o navio pudesse atracar a alguma parte. Os
marinheiros estavam quase sem provisões. Restava apenas a mísera
ração de esmolas oferecidas pelo céu ao santo. E graças às
orações e aos méritos deste, o poder de Deus as multiplicou de tal
maneira que, apesar do atraso ocasionado pela tempestade que continuava
violenta, bastaram perfeitamente para as necessidades de todos até à
chegada ao porto de Ancona, término da viagem.
8. Em outra ocasião, estava Francisco numa viagem de pregações
com um companheiro, e foram surpreendidos pela noite ao irem da
Lombardia para a Marca de Treviso. Era uma viagem perigosa no
escuro por causa do rio Pó e suas terras alagadas. Seu companheiro
lhe implorou que rogasse a Deus que os salvasse daquele aperto.
Francisco respondeu com toda confiança: "Deus tem poder de banir as
trevas e nos conceder o dom da sua luz, se for de seu agrado". Mal
pronunciara tais palavras, envolveu-os uma luz tão forte, que eles,
pelo poder de Deus, podiam ver claramente o caminho que trilhavam;
enxergavam grande parte da região do outro lado do rio, embora nas
outras partes fosse escuro.
9. A claridade do céu ia assim adiante deles no meio da noite para
mostrar que as trevas da morte não conseguem sepultar aqueles que
seguem a Luz e a Vida sem se desviar do caminho que ela lhes indica.
O admirável esplendor dessa luz fora guia para o corpo e conforto para
a alma de ambos. Depois de uma longa caminhada, Francisco e seu
companheiro chegaram sem dificuldade, cantando hinos e cânticos de
louvor, à hospedaria onde deviam ficar. Homem maravilhoso e
admirável! Para ele o fogo modera seu ardor, a água muda de sabor,
a rocha fornece água em profusão; os seres inanimados põem-se a seu
serviço, os animais ferozes ficam mansos, as criaturas irracionais o
ouvem com atenção. E o próprio Senhor atende a seus desejos: sua
generosidade lhe fornece alimentos e sua luz lhe serve de guia...
Este homem que chegara à mais alta santidade, via toda criatura
pôr-se a seu serviço e o próprio Criador atender a seus desejos.
|
|