CAPÍTULO 5. OBEDIÊNCIA DAS CRIATURAS E CONDESCENDÊNCIA DE DEUS PARA COM ELE

1. O Espírito de Deus que o ungira, juntamente com "Cristo, poder e sabedoria de Deus" (1Cor 1,24), estava sempre com Francisco. Por sua graça e poder, revelavam-se segredos ocultos ao santo e os elementos lhe obedeciam. Certa ocasião, os médicos prescreveram como tratamento uma cauterização. Os Irmãos insistiam que ele consentisse na dita intervenção para obter a cura dos olhos. O homem de Deus humildemente se submeteu à operação, pois via nela não apenas uma ocasião de curar a doença, mas também um ato de coragem e de força. Diante do ferro em brasa, sua carne sobressaltou-se horrorizada, como é natural. Mas ele se dirigiu ao fogo como a um Irmão. Em nome e pelo poder do Criador, ordenoulhe que moderasse seu ardor, "para que eu possa, disse ele, suportar tua carícia ardente". O médico passou-lhe na carne delicada o ferro ainda em brasa, estendendo-se a cauterização desde a orelha até, às sobrancelha... Então, cheio de Deus e com o espírito transbordando de alegria, disse aos Irmãos: "Louvai o Altíssimo, pois, na verdade, não senti a queimadura e minha carne não precisou sofrer".

2. Estando muito doente no eremitério de Santo Urbano, sentia as forças abandoná-lo e pediu que lhe oferecessem um pouco de vinho. Disseram-lhe que não havia sequer uma gota. Ordenou então que lhe trouxessem água; ele a benzeu com o sinal-da-cruz e imediatamente aquilo que tinha sido até então apenas água pura se transformou em excelente vinho. O que a pobreza do eremitério tornava impossível conseguiu-o a pureza do santo. Mal experimenta ele do vinho e as forças lhe voltaram: prova manifesta de que a bebida desejada lhe foi concedida por Aquele que da tão generosamente, não tanto para afagar o apetite como para beneficiar a saúde do corpo.

3. Em outra ocasião, desejando o homem de Deus retirar-se num eremitério para se entregar mais livremente à oração, aceitou ir montado num burrinho, pois estava sem forças. Era verão, e o guia que subia a pé a montanha atrás do santo, não agüentando mais de cansaço e de sede por aquele caminho longo e acidentado, começou a gritar que ia morrer ali se não houvesse água para beber. Sem perder um momento, o homem de Deus desce do burrinho e se ajoelha, levanta as mãos para o céu e não cessa de rezar enquanto não é ouvido. Dirige-se ao homem e lhe diz: "Corre até aquele rochedo e encontraras uma fonte que Cristo em sua bondade acaba de fazer jorrar da pedra para que possas beber". O homem correu ao lugar indicado e bebeu daquela água nascida da rocha pela força de um santo em oração, e Deus fez manar água de um rochedo duríssimo para refrescá-lo.

4. Pregava o servo de Deus certo dia na praia de Gaeta, e a multidão, por devoção, se apinhava à sua volta para tocá-lo. Querendo fugir dessas manifestações de entusiasmo, saltou sozinho para dentro de uma barca, que por lá se encontrava atracada. E de repente, esta, diante do povo maravilhado, afastou-se da margem e dirigiu-se até a uma curta distância sobre as água, sem auxilio de nenhum remador, como se houvesse sido impelida e dirigida por sua própria força. Em seguida, ficou imóvel sobre as ondas todo o tempo que o santo decidiu pregar às multidões reunidas na praia. Depois do sermão, o povo que testemunhara o milagre recebeu a bênção e foi despedido pelo santo. Só então a barca atracou à praia de novo impelida unicamente com o impulso e vontade do céu. As criaturas obedecem Aquele que as fez e também se submetem sem resistência aos perfeitos amigos do Criador, obedecendolhes sem demora.

5. Durante uma estadia do santo no eremitério de Greccio, sofriam os moradores daquela região sucessivos prejuízos em suas colheitas. O granizo arrasava todos os anos as colheitas e as vinhas; bandos de lobos ferozes atacavam não apenas os rebanhos mas também os homens. O servo do Deus onipotente, cheio de piedade para com o povo, estava muito aflito. Num sermão prometeu e garantiu que acabaria a calamidade se todos se confessassem e produzissem dignos frutos de penitência. Fizeram penitência, de acordo com as exortações de Francisco, e desde então desapareceram os flagelos, cessaram os perigos, os lobos e o granizo não mais incomodaram a ninguém. E mais ainda: quando o granizo chegava nas proximidades daquela região, parava à distância ou mudava de rumo.

6. Certa ocasião, durante uma viagem de pregações pelo vale de Espoleto, chegou Francisco a um lugar chamado Bevagna. Viu um bosque onde passarinhos de toda espécie se ajuntavam em grandes revoadas. O Espírito de Deus desceu sobre o santo que correu até eles e os saudou com alegria, ordenando-lhes que se calassem e escutassem com atenção a palavra de Deus. E começou a fazer-lhes um longo sermão sobre os benefícios que Deus concede generosamente ...s criaturas e sobre os louvores que lhe devem dar até mesmo os passarinhos. Essas palavras suscitavam entre as aves manifestações de alegria: elas esticavam o pescoço, abriam as asas e o bico, olhavam com atenção para Francisco, para melhor se compenetrarem, por assim dizer, da força admirável de suas palavras. Com muita razão, este homem cheio de Deus, diante de criaturas irracionais, se sentia inclinado a profundos sentimentos de humanidade, pois elas mesmas, por sua vez, revelavam para com ele uma inclinação prodigiosa, chegando mesmo a ouvir suas instruções, a obedecer às suas ordens, a refugiar-se com toda segurança em seus braços e a permanecer de bom grado com ele todo o tempo que lhe aprouvesse trazê-las suspensas de sua palavra.

7. Ao tentar atravessar o mar a fim de conquistar a palma do martírio, desejo esse infelizmente frustrado pela tempestade, a bondade previdente do Piloto universal saiu-lhe ao encontro para arrancá-lo da morte, a ele e toda a tripulação, e manifestar em alto mar suas maravilhas em favor de Francisco. Desejando este voltar da Eslavônia para a Itália, subira sem nada num navio. Na hora do embarque, um desconhecido enviado por Deus em seu socorro se apresentou trazendo os viveres necessários, chamou um dos marujos e entregou-os a ele com a recomendação de os distribuir oportunamente àqueles que nada tinham. Os ventos sopravam com tal violência que os dias passavam sem que o navio pudesse atracar a alguma parte. Os marinheiros estavam quase sem provisões. Restava apenas a mísera ração de esmolas oferecidas pelo céu ao santo. E graças às orações e aos méritos deste, o poder de Deus as multiplicou de tal maneira que, apesar do atraso ocasionado pela tempestade que continuava violenta, bastaram perfeitamente para as necessidades de todos até à chegada ao porto de Ancona, término da viagem.

8. Em outra ocasião, estava Francisco numa viagem de pregações com um companheiro, e foram surpreendidos pela noite ao irem da Lombardia para a Marca de Treviso. Era uma viagem perigosa no escuro por causa do rio Pó e suas terras alagadas. Seu companheiro lhe implorou que rogasse a Deus que os salvasse daquele aperto. Francisco respondeu com toda confiança: "Deus tem poder de banir as trevas e nos conceder o dom da sua luz, se for de seu agrado". Mal pronunciara tais palavras, envolveu-os uma luz tão forte, que eles, pelo poder de Deus, podiam ver claramente o caminho que trilhavam; enxergavam grande parte da região do outro lado do rio, embora nas outras partes fosse escuro.

9. A claridade do céu ia assim adiante deles no meio da noite para mostrar que as trevas da morte não conseguem sepultar aqueles que seguem a Luz e a Vida sem se desviar do caminho que ela lhes indica. O admirável esplendor dessa luz fora guia para o corpo e conforto para a alma de ambos. Depois de uma longa caminhada, Francisco e seu companheiro chegaram sem dificuldade, cantando hinos e cânticos de louvor, à hospedaria onde deviam ficar. Homem maravilhoso e admirável! Para ele o fogo modera seu ardor, a água muda de sabor, a rocha fornece água em profusão; os seres inanimados põem-se a seu serviço, os animais ferozes ficam mansos, as criaturas irracionais o ouvem com atenção. E o próprio Senhor atende a seus desejos: sua generosidade lhe fornece alimentos e sua luz lhe serve de guia... Este homem que chegara à mais alta santidade, via toda criatura pôr-se a seu serviço e o próprio Criador atender a seus desejos.