|
1. Francisco era um fiel servidor de Cristo. Dois anos antes de
sua morte, havendo iniciado um retiro de Quaresma em honra de São
Miguel num monte muito alto chamado Alverne, sentiu com maior
abundância do que nunca a suavidade da contemplação celeste, o ardor
dos desejos sobrenaturais e a profusão das graças divinas.
Transportado até Deus num fogo de amor ser fico, e transformado
pelos arroubos de uma profunda compaixão naquele que, em seus extremos
de amor, quis ser crucificado, orava certa manhã numa das partes do
monte. Aproximava-se a festa da Exaltação da Santa Cruz, quando
ele viu descer do alto do céu, dir-se-ia, um serafim de seis asas
flamejantes, o qual, num rápido vôo, chegou perto do lugar onde
estava o homem de Deus. O personagem apareceu-lhe não apenas munido
de asas, mas também crucificado, mãos e pés estendidos e. atado a
uma cruz. Duas asas elevavam-se por cima de sua cabeça, duas outras
estavam abertas para o vôo, e as duas últimas cobriam-lhe o corpo.
2. Tal aparição deixou Francisco mergulhado num profundo êxtase,
enquanto em sua alma se mesclavam a tristeza e a alegria: uma alegria
transbordante ao contemplar a Cristo que se lhe manifestava de uma
maneira tão milagrosa e familiar, mas ao mesmo tempo uma dor imensa,
pois a visão da cruz traspassava sua alma com uma espada de dor e de
compaixão . Aquele que assim externamente aparecia o iluminava
também internamente. Francisco compreendeu então que os sofrimentos
da paixão de modo algum podem atingir um serafim que é um espírito
imortal. Mas essa visão lhe fora concedida para lhe ensinar que não
era o martírio do corpo, mas o amor a incendiar sua alma que deveria
transformá-lo, tornando-o semelhante a Jesus crucificado. Após
uma conversação familiar, que nunca foi revelada aos outros,
desapareceu aquela visão , deixando-lhe o coração inflamado de um
ardor ser fico e imprimindolhe na carne a semelhança externa com o
Crucificado, como a marca de um sinete deixado na cera que o calor do
fogo fez derreter.
3. Logo começaram, com efeito, a aparecer em suas mãos e pés as
marcas dos cravos. Via-se a cabeça desses cravos na palma da mão e
no dorso dos pés; a ponta saía do outro lado. A cabeça era redonda
e escura; a ponta, bastante longa, achatada e recurva, surgia no
meio de um inchaço de carne por cima da pele. Por baixo dos pés, a
ponta torcida dos cravos era tão saliente que o impedia de apoiar a
planta dos pés no chão e facilmente se poderia fazer entrar um dedo da
mão no arco de circulo que ela formava ao se curvar. Fui informado
disso por pessoas que viram os estigmas com os próprios olhos. O lado
direito estava marcado com uma chaga vermelha, feita, dir-se-ia,
por uma lança; da ferida corria abundante sangue, freqüentemente,
molhando as roupas internas e a túnica. Os Irmãos encarregados de
lavar suas roupas constataram com toda segurança que o servo de Deus
trazia, em seu lado, bem como nas mãos e nos pés, a marca real de
sua semelhança com o Crucificado.
4. Aos Irmãos que conviviam com ele era praticamente impossível
passar despercebida a realidade dos estigmas impressos de modo tão
visível. Esse homem cheio de Deus compreendia perfeitamente isso, e
sua alma entrou numa grande dúvida e ansiedade: deveria ou não tornar
pública a visão que tivera? Atormentado pela consciência, acabou
consultando alguns de seus Irmãos mais achegados. Com grande temor
contou-lhes tudo o que acontecera durante a visão . Aquele que lhe
aparecera, disse Francisco, lhe revelara certos segredos que ele não
deveria comunicar a ninguém enquanto vivesse. Quando o verdadeiro
amor transformou o amigo de Cristo na semelhança perfeita daquele que
ele amava, e terminados os quarenta dias previstos no monte e na
solidão, chegou a festa de São Miguel; e Francisco, homem
evangélico, desceu do monte, trazendo a imagem do Crucificado, não
esculpida em tábuas de pedra ou de madeira pela mão de algum
artífice, mas reproduzida em sua própria carne pelo dedo do Deus
vivo.
5. O humilde santo tudo fazia para esconder os estigmas sagrados: o
próprio Senhor, para sua glória, decidira realizar através deles
milagres à luz do dia, a fim de tornar público por prodígios
incontestes o poder que neles se ocultava e devia irradiar no meio das
densas trevas do mundo como um astro fulgurante. Nas proximidades do
Alverne, por exemplo, antes que o santo ai chegasse para morar,
formavam-se periodicamente nuvens escuras sobre o monte,
acumulavam-se aí e caíam em forma de violentas tempestades de granizo
que destruíam as colheitas. Mas, depois da estupenda e santa
aparição, o flagelo comum do granizo terminou, para grande espanto e
alegria dos moradores: o próprio céu assumia agora uma feição
serena incomum, para proclamar ao mesmo tempo a excelência da visão e
o poder dos estigmas recebidos nesse local.
6. Pela mesma época, uma peste mortal assolava a província de
Rieti matando bois e ovelhas que definhavam sem esperança
aparentemente de cura. Foi quando um homem temente a Deus teve uma
visão durante a noite: avisaram-lhe que se dirigisse rapidamente ao
eremitério dos Irmãos onde o bemaventurado Pai estava, e pedisse
aos companheiros do santo a água em que Francisco lavara as mãos e os
pés e aspergisse com ela todos os animais doentes: desse modo a peste
seria erradicada totalmente. O homem não perdeu tempo em executar
aquela ordem. E Deus conferiu à água que havia corrido sobre as
sagradas chagas uma tal virtude, que, mal os tocava uma gotinha, os
animais enfermos se restabeleciam e, como se jamais tivessem sofrido
nada, corriam ao pasto; o flagelo da peste tinha desaparecido.
7. Suas mãos eram dotadas de um tal poder, que o contato salvífico
delas restituía a saúde aos doentes, a sensibilidade e o movimento
aos membros secos e paralíticos, bem como a vida aos moribundos. De
todos esses milagres, lembrarei apenas dois, para ser breve e
antecipando já alguma coisa. Em Ilerda, um certo João, muito
devoto do bem-aventurado Francisco, recebera certa noite pancadas e
ferimentos tão atrozes, que todos pensavam que ele hão chegaria ao
dia seguinte. Nosso Pai santíssimo apareceu-lhe milagrosamente e
tocou com suas mãos as feridas do enfermo: no mesmo instante o homem
ficou perfeitamente são e toda a região proclamou que Francisco, o
porta-estandarte da cruz, merecia toda a sua veneração. Quem
poderia efetivamente deixar de admirar-se do fato de que esse homem bem
conhecido sentiu no mesmo instante, por assim dizer, a tortura das
chagas abertas e imediatamente a alegria da saúde? Quem poderia
recordar esse milagre sem prorromper em ação de graças? Que
coração fiel poderia enfim meditar sem devoção essa maravilha do
poder e do amor?
8. Em Potenza, na Apúlia, um clérigo chamado Rogério
escarnecia internamente dos estigmas de São Francisco com frivolidade
e ceticismo. De repente, sentiu que sua mão, calçada de luva,
fora atingida por um golpe semelhante ao de uma flecha disparada por
alguém. A luva estava perfeitamente intata. Durante três dias uma
dor violenta o atormentou. Cheio de remorsos, invocava o santo e lhe
suplicava que o socorresse por seus gloriosos estigmas. Recobrou
plenamente a saúde e desapareceu completamente a dor. Daí se conclui
claramente que essas marcas venerandas foram impressas e dotadas de
virtudes milagrosas pelo poder daquele a quem unicamente compete ferir e
cuidar, castigar os obstinados e curar os corações contritos (Lc
4,18).
9. Se Francisco foi agraciado com o privilégio particular e com a
insigne honra dos estigmas, não o' foi sem justo mérito, pois todo
seu ardor, em público como em particular, tinha um único objetivo:
a cruz do Senhor. Sua mansidão, sua austeridade e humildade; sua
obediência, pobreza e castidade; seu arrependimento, lágrimas,
compaixão , zelo apostólico, seu desejo do martírio, seus excessos
de amor, enfim toda a série de virtudes que distinguem a Cristo como
exemplo, que poderiam ter elas em vista senão assemelhá-lo a Cristo
cujos estigmas elas o haviam preparado para receber? Desde sua
conversão, toda a sua vida foi apenas uma representação dos
mistérios da cruz de Cristo, e finalmente, à vista do
Crucificado, Serafim sublime e humilde, ele mesmo foi, pelo poder e
amor divinos, transformado na imagem e objeto de sua contemplação.
Atestam esses fatos os que viram, tocaram e abraçaram os estigmas e
que com a mão sobre os Evangelhos, confirmaram seu testemunho com a
segurança ainda maior do juramento de que tal era a realidade e o que
eles haviam visto.
|
|