CAPÍTULO 6. OS ESTIGMAS

1. Francisco era um fiel servidor de Cristo. Dois anos antes de sua morte, havendo iniciado um retiro de Quaresma em honra de São Miguel num monte muito alto chamado Alverne, sentiu com maior abundância do que nunca a suavidade da contemplação celeste, o ardor dos desejos sobrenaturais e a profusão das graças divinas. Transportado até Deus num fogo de amor ser fico, e transformado pelos arroubos de uma profunda compaixão naquele que, em seus extremos de amor, quis ser crucificado, orava certa manhã numa das partes do monte. Aproximava-se a festa da Exaltação da Santa Cruz, quando ele viu descer do alto do céu, dir-se-ia, um serafim de seis asas flamejantes, o qual, num rápido vôo, chegou perto do lugar onde estava o homem de Deus. O personagem apareceu-lhe não apenas munido de asas, mas também crucificado, mãos e pés estendidos e. atado a uma cruz. Duas asas elevavam-se por cima de sua cabeça, duas outras estavam abertas para o vôo, e as duas últimas cobriam-lhe o corpo.

2. Tal aparição deixou Francisco mergulhado num profundo êxtase, enquanto em sua alma se mesclavam a tristeza e a alegria: uma alegria transbordante ao contemplar a Cristo que se lhe manifestava de uma maneira tão milagrosa e familiar, mas ao mesmo tempo uma dor imensa, pois a visão da cruz traspassava sua alma com uma espada de dor e de compaixão . Aquele que assim externamente aparecia o iluminava também internamente. Francisco compreendeu então que os sofrimentos da paixão de modo algum podem atingir um serafim que é um espírito imortal. Mas essa visão lhe fora concedida para lhe ensinar que não era o martírio do corpo, mas o amor a incendiar sua alma que deveria transformá-lo, tornando-o semelhante a Jesus crucificado. Após uma conversação familiar, que nunca foi revelada aos outros, desapareceu aquela visão , deixando-lhe o coração inflamado de um ardor ser fico e imprimindolhe na carne a semelhança externa com o Crucificado, como a marca de um sinete deixado na cera que o calor do fogo fez derreter.

3. Logo começaram, com efeito, a aparecer em suas mãos e pés as marcas dos cravos. Via-se a cabeça desses cravos na palma da mão e no dorso dos pés; a ponta saía do outro lado. A cabeça era redonda e escura; a ponta, bastante longa, achatada e recurva, surgia no meio de um inchaço de carne por cima da pele. Por baixo dos pés, a ponta torcida dos cravos era tão saliente que o impedia de apoiar a planta dos pés no chão e facilmente se poderia fazer entrar um dedo da mão no arco de circulo que ela formava ao se curvar. Fui informado disso por pessoas que viram os estigmas com os próprios olhos. O lado direito estava marcado com uma chaga vermelha, feita, dir-se-ia, por uma lança; da ferida corria abundante sangue, freqüentemente, molhando as roupas internas e a túnica. Os Irmãos encarregados de lavar suas roupas constataram com toda segurança que o servo de Deus trazia, em seu lado, bem como nas mãos e nos pés, a marca real de sua semelhança com o Crucificado.

4. Aos Irmãos que conviviam com ele era praticamente impossível passar despercebida a realidade dos estigmas impressos de modo tão visível. Esse homem cheio de Deus compreendia perfeitamente isso, e sua alma entrou numa grande dúvida e ansiedade: deveria ou não tornar pública a visão que tivera? Atormentado pela consciência, acabou consultando alguns de seus Irmãos mais achegados. Com grande temor contou-lhes tudo o que acontecera durante a visão . Aquele que lhe aparecera, disse Francisco, lhe revelara certos segredos que ele não deveria comunicar a ninguém enquanto vivesse. Quando o verdadeiro amor transformou o amigo de Cristo na semelhança perfeita daquele que ele amava, e terminados os quarenta dias previstos no monte e na solidão, chegou a festa de São Miguel; e Francisco, homem evangélico, desceu do monte, trazendo a imagem do Crucificado, não esculpida em tábuas de pedra ou de madeira pela mão de algum artífice, mas reproduzida em sua própria carne pelo dedo do Deus vivo.

5. O humilde santo tudo fazia para esconder os estigmas sagrados: o próprio Senhor, para sua glória, decidira realizar através deles milagres à luz do dia, a fim de tornar público por prodígios incontestes o poder que neles se ocultava e devia irradiar no meio das densas trevas do mundo como um astro fulgurante. Nas proximidades do Alverne, por exemplo, antes que o santo ai chegasse para morar, formavam-se periodicamente nuvens escuras sobre o monte, acumulavam-se aí e caíam em forma de violentas tempestades de granizo que destruíam as colheitas. Mas, depois da estupenda e santa aparição, o flagelo comum do granizo terminou, para grande espanto e alegria dos moradores: o próprio céu assumia agora uma feição serena incomum, para proclamar ao mesmo tempo a excelência da visão e o poder dos estigmas recebidos nesse local.

6. Pela mesma época, uma peste mortal assolava a província de Rieti matando bois e ovelhas que definhavam sem esperança aparentemente de cura. Foi quando um homem temente a Deus teve uma visão durante a noite: avisaram-lhe que se dirigisse rapidamente ao eremitério dos Irmãos onde o bemaventurado Pai estava, e pedisse aos companheiros do santo a água em que Francisco lavara as mãos e os pés e aspergisse com ela todos os animais doentes: desse modo a peste seria erradicada totalmente. O homem não perdeu tempo em executar aquela ordem. E Deus conferiu à água que havia corrido sobre as sagradas chagas uma tal virtude, que, mal os tocava uma gotinha, os animais enfermos se restabeleciam e, como se jamais tivessem sofrido nada, corriam ao pasto; o flagelo da peste tinha desaparecido.

7. Suas mãos eram dotadas de um tal poder, que o contato salvífico delas restituía a saúde aos doentes, a sensibilidade e o movimento aos membros secos e paralíticos, bem como a vida aos moribundos. De todos esses milagres, lembrarei apenas dois, para ser breve e antecipando já alguma coisa. Em Ilerda, um certo João, muito devoto do bem-aventurado Francisco, recebera certa noite pancadas e ferimentos tão atrozes, que todos pensavam que ele hão chegaria ao dia seguinte. Nosso Pai santíssimo apareceu-lhe milagrosamente e tocou com suas mãos as feridas do enfermo: no mesmo instante o homem ficou perfeitamente são e toda a região proclamou que Francisco, o porta-estandarte da cruz, merecia toda a sua veneração. Quem poderia efetivamente deixar de admirar-se do fato de que esse homem bem conhecido sentiu no mesmo instante, por assim dizer, a tortura das chagas abertas e imediatamente a alegria da saúde? Quem poderia recordar esse milagre sem prorromper em ação de graças? Que coração fiel poderia enfim meditar sem devoção essa maravilha do poder e do amor?

8. Em Potenza, na Apúlia, um clérigo chamado Rogério escarnecia internamente dos estigmas de São Francisco com frivolidade e ceticismo. De repente, sentiu que sua mão, calçada de luva, fora atingida por um golpe semelhante ao de uma flecha disparada por alguém. A luva estava perfeitamente intata. Durante três dias uma dor violenta o atormentou. Cheio de remorsos, invocava o santo e lhe suplicava que o socorresse por seus gloriosos estigmas. Recobrou plenamente a saúde e desapareceu completamente a dor. Daí se conclui claramente que essas marcas venerandas foram impressas e dotadas de virtudes milagrosas pelo poder daquele a quem unicamente compete ferir e cuidar, castigar os obstinados e curar os corações contritos (Lc 4,18).

9. Se Francisco foi agraciado com o privilégio particular e com a insigne honra dos estigmas, não o' foi sem justo mérito, pois todo seu ardor, em público como em particular, tinha um único objetivo: a cruz do Senhor. Sua mansidão, sua austeridade e humildade; sua obediência, pobreza e castidade; seu arrependimento, lágrimas, compaixão , zelo apostólico, seu desejo do martírio, seus excessos de amor, enfim toda a série de virtudes que distinguem a Cristo como exemplo, que poderiam ter elas em vista senão assemelhá-lo a Cristo cujos estigmas elas o haviam preparado para receber? Desde sua conversão, toda a sua vida foi apenas uma representação dos mistérios da cruz de Cristo, e finalmente, à vista do Crucificado, Serafim sublime e humilde, ele mesmo foi, pelo poder e amor divinos, transformado na imagem e objeto de sua contemplação. Atestam esses fatos os que viram, tocaram e abraçaram os estigmas e que com a mão sobre os Evangelhos, confirmaram seu testemunho com a segurança ainda maior do juramento de que tal era a realidade e o que eles haviam visto.