|
1. O homem de Deus, crucificado com Cristo, tanto em sua carne
quanto em sua alma, era transportado em Deus com toda a chama de seu
amor ser fico. Parecia consumido de zelo pelas almas e participava da
mesma sede que tinha o Senhor de salvá-las. Por isso fazia
transportar seu corpo já quase morto, não podendo andar por causa dos
cravos que lhe saíam dos pés. Ia então por cidades e aldeias.
Como "o segundo anjo subindo do Oriente" (Ap 7,2), ele queria
acender a chama do amor de Deus no coração dos servos do
Altíssimo, guiar-lhes os passos no caminho da paz e marcar-lhes a
fronte com o sinal do Deus vivo. Gostava igualmente de voltar aos
seus primeiros exercícios de humildade, o serviço dos leprosos por
exemplo, como no início de sua conversão, e tratar como escravo,
como antes, seu corpo enfraquecido por tantas fadigas.
2. Para imitar a Cristo, propunha-se novos feitos. O esgotamento
físico não tirava a seu espírito corajoso e disposto a esperança de
vencer o inimigo em novos combates. Mas Deus queria aumentar os
méritos de seu pobrezinho, e os méritos só encontram sua perfeição
na perfeição da paciência: Francisco foi acometido de toda espécie
de doenças tão dolorosas que nenhum de seus membros escapou de sofrer
atrozmente. Não tinha mais carne, estava reduzido a pele e osso.
Mas ao ser atormentado pelas enfermidades, não lhes dava o nome de
inimigas, mas de Irmãs; suportava-as com paciência e alegria, e
agradecia a Deus por elas. Os Irmãos que o assistiam julgavam ver
um outro Paulo a se gloriar, a se alegrar e a se humilhar de suas
fraquezas, e lembravam-se de Jó, ao admirarem sua força de alma e
serenidade.
3. Muito tempo antes ficou sabendo a hora de sua morte, e quando ela
estava próxima, comunicou aos Irmãos que deixaria em breve seu
corpo, essa tenda em que sua alma havia feito acampamento (cf. 2Pd
1,14), como lhe revelara o Senhor. Dois anos depois de receber
os estigmas, vinte anos após sua conversão, pediu para ser
transportado a Santa Maria da Porciúncula a fim de pagar seu tributo
à morte e receber em troca e em recompensa a eternidade, no mesmo
local em que, pela Mãe de Deus, ele mesmo conhecera o espírito de
graça e de perfeição. Chegado a esse locai e querendo mostrar pelo
exemplo que nada tinha de comum com o mundo, nesta doença que deveria
ser a última, mandou que o colocassem nu sobre a terra, a fim de
nesta última hora, em que o inimigo desfecharia talvez contra ele o
último assalto, ele pudesse lutar nu contra um adversário nu. La
estava ele deitado, atleta nu, sobre a terra e na poeira, a mão
levada à chaga do lado direito para ocultá-la aos olhares dos
presentes, fixando o céu, como gostava de fazer, fisionomia
tranqüila e aspirando com todas as veras de sua alma à glória
eterna. Começou então a louvar o Altíssimo por tanta glória: a
de ir para ele inteiramente livre, desembaraçado de tudo.
4. Aproximava-se a hora. Mandou vir todos os Irmãos presentes
então na Porciúncula e com algumas palavras de consolo para
amenizar-lhes o pesar, exortou-os de todo seu coração de pai a amar
a Deus. Em herança legou-lhes como propriedade a pobreza e a paz;
recomendou-lhes que orientassem sempre seus desejos para os bens
eternos e se premunissem contra os perigos deste mundo.
Encorajou-os, com toda a força persuasiva de sua palavra, a
seguirem perfeitamente as pegadas de Jesus crucificado. Todos os seus
filhos formavam por assim dizer uma coroa em volta do patriarca dos
pobres; o santo, quase cego, não de velhice, mas por causa das lá
grimas, e já às portas da morte, estendeu as mãos, entrecruzou os
braços, como lhe aprazia muitas vezes, e abençoou todos os
Irmãos, os ausentes como os presentes, pelo poder e no nome do
Crucificado.
5. Em seguida, pediu que fosse lido o texto de São João que
começa assim: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que
chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, havendo amado os seus
que estavam no mundo, até o extremo os amou..." (Jo 13,1).
Queria ouvir nessa passagem do Evangelho o chamado do Bem-Amado que
bate à porta, esse Bem-Amado de quem estava separado apenas pela
simples parede da carne. Por fim, tendo-se realizado nele todos os
planos de Deus, o bem-aventurado adormeceu no Senhor, rezando e
cantando um salmo. Sua santíssima alma se desprendeu da carne para
ser absorvida no abismo da claridade de Deus. Na mesma hora
precisamente, um de seus Irmãos e companheiros, conhecido por sua
santidade, viu a alma do santo subindo diretamente para o céu sob a
forma de uma estrela esplêndida levada por branca nuvem que pairava
sobre imensa extensão de água; alma rutilante de pureza, a reluzir
os méritos acumulados, subia com toda a riqueza das graças recebidas
e das virtudes que o tinham conformado à imagem de Deus, para gozar
sem demora da visão da luz e da glória eternas.
6. Na Terra di Lavoro, Frei Agostinho, profundo amigo de
Deus, que então era ministro dos Irmãos, também chegava ao termo
da vida e já não falava mais havia bastante tempo. Para admiração
de todos os que estavam à sua volta, começou de repente a gritar:
"Espera-me, Pai, espera-me! Estou chegando, vou contigo!"
Estupefatos, os Irmãos lhe perguntam a quem dirigia aquelas
palavras. E ele respondeu que via partir para o céu o bem-aventurado
Francisco. E dizendo essas palavras, naquele mesmo instante,
também ele entrou para sua felicidade no repouso. Pela mesma época,
o bispo de Assis ia em peregrinação ao santuário de São Miguel no
monte Gargano. Apareceu-lhe o bem-aventurado Francisco, cheio de
júbilo, na hora de seu passamento, e lhe anunciou que deixava este
mundo para ir ao céu com grande alegria. No dia seguinte, ao
acordar, o bispo contou a visão que tivera, voltou a Assis,
informou-se a respeito do ocorrido e se convenceu de que o
bem-aventurado Pai havia deixado este mundo no momento em que ele
viera anunciar-lhe a noticia.
7. A santidade de Francisco quis Deus manifestá-la ainda por
outros prodígios depois de sua morte. Os devotos o invocavam, e em
consideração dos méritos do santo o poder de Deus restituía a vista
aos cegos, ouvido aos surdos, palavra aos mudos, movimento e
sensibilidade aos coxos e paralíticos; escleroses, contraturas e
fraturas eram curadas; libertava prisioneiros, reconduzia os
náufragos ao porto da salvação; ás mulheres em perigo de morte por
ocasião do parto concedia uma hora feliz e fácil de dar à luz;
expulsava demônios, restituía a saúde aos que sofriam de
hemorragia, aos leprosos, aos feridos de morte; e o que é mais
estupendo: ressuscitava os mortos.
8. Todos os países do mundo atestam o continuo fluxo de abundantes
graças concedidas por seu intermédio. Eu mesmo, que redigi o que se
acaba de ler, fiz tal experiência, e fui agraciado por sua
intercessão. Ainda bem menino, estava eu muito doente. Minha Mãe
fez uma promessa a nosso bemaventurado Pai Francisco e bastou isso
para me livrar da morte e me tornar novamente São, forte e disposto
para viver. Tenho esse fato bem vivo na memória e me cumpre
proclamá-lo publicamente para que meu silêncio não me coloque no
numero dos ingratos. Apesar de nossa indigência e indignidade, sem
comparação com teus méritos, recebe, pois, ó Pai santo, todas
as nossas ações de graças; acolhendo nossas preces, perdoa nossas
faltas e intercede para que os teus fiéis e devotos sejam livres dos
males presentes e conduze-os à felicidade eterna.
9. Devemos concluir aqui. Consideramos a conversão do
bem-aventurado Francisco, a eficácia de sua pregação, a
excelência de suas sublimes virtudes, seu espírito de profecia e sua
inteligência das Escrituras, a docilidade das criaturas irracionais,
os sagrados estigmas recebidos e sua feliz passagem deste mundo para o
céu. Considere o leitor esses sete testemunhos e verifique como
Francisco se apresenta ao mundo inteiro como o grande arauto de
Cristo, levando em sua pessoa o sinal do Deus vivo (Ap 7,2);
esse papel que lhe foi reservado lhe vale nossa veneração, seus
ensinamentos nossa adesão confiante, sua santidade nossa admiração.
Nós, os que saímos do Egito, andemos, pois, em suas pegadas com
toda segurança: ostentando ele diante de nós a cruz de Cristo, há
de dividir o mar, nos fará atravessar os desertos e transpor o
Jordão da morte, para que enfim, por sua intercessão, nos
introduza na terra dos vivos, a Terra Prometida, Jesus nosso
Salvador e nosso guia, a quem se dêem todo louvor, toda honra e toda
glória, com o Pai e o Espírito Santo, na Trindade perfeita,
pelos séculos dos séculos. Amém.
|
|