CAPÍTULO 7. MORTE DE FRANCISCO

1. O homem de Deus, crucificado com Cristo, tanto em sua carne quanto em sua alma, era transportado em Deus com toda a chama de seu amor ser fico. Parecia consumido de zelo pelas almas e participava da mesma sede que tinha o Senhor de salvá-las. Por isso fazia transportar seu corpo já quase morto, não podendo andar por causa dos cravos que lhe saíam dos pés. Ia então por cidades e aldeias. Como "o segundo anjo subindo do Oriente" (Ap 7,2), ele queria acender a chama do amor de Deus no coração dos servos do Altíssimo, guiar-lhes os passos no caminho da paz e marcar-lhes a fronte com o sinal do Deus vivo. Gostava igualmente de voltar aos seus primeiros exercícios de humildade, o serviço dos leprosos por exemplo, como no início de sua conversão, e tratar como escravo, como antes, seu corpo enfraquecido por tantas fadigas.

2. Para imitar a Cristo, propunha-se novos feitos. O esgotamento físico não tirava a seu espírito corajoso e disposto a esperança de vencer o inimigo em novos combates. Mas Deus queria aumentar os méritos de seu pobrezinho, e os méritos só encontram sua perfeição na perfeição da paciência: Francisco foi acometido de toda espécie de doenças tão dolorosas que nenhum de seus membros escapou de sofrer atrozmente. Não tinha mais carne, estava reduzido a pele e osso. Mas ao ser atormentado pelas enfermidades, não lhes dava o nome de inimigas, mas de Irmãs; suportava-as com paciência e alegria, e agradecia a Deus por elas. Os Irmãos que o assistiam julgavam ver um outro Paulo a se gloriar, a se alegrar e a se humilhar de suas fraquezas, e lembravam-se de Jó, ao admirarem sua força de alma e serenidade.

3. Muito tempo antes ficou sabendo a hora de sua morte, e quando ela estava próxima, comunicou aos Irmãos que deixaria em breve seu corpo, essa tenda em que sua alma havia feito acampamento (cf. 2Pd 1,14), como lhe revelara o Senhor. Dois anos depois de receber os estigmas, vinte anos após sua conversão, pediu para ser transportado a Santa Maria da Porciúncula a fim de pagar seu tributo à morte e receber em troca e em recompensa a eternidade, no mesmo local em que, pela Mãe de Deus, ele mesmo conhecera o espírito de graça e de perfeição. Chegado a esse locai e querendo mostrar pelo exemplo que nada tinha de comum com o mundo, nesta doença que deveria ser a última, mandou que o colocassem nu sobre a terra, a fim de nesta última hora, em que o inimigo desfecharia talvez contra ele o último assalto, ele pudesse lutar nu contra um adversário nu. La estava ele deitado, atleta nu, sobre a terra e na poeira, a mão levada à chaga do lado direito para ocultá-la aos olhares dos presentes, fixando o céu, como gostava de fazer, fisionomia tranqüila e aspirando com todas as veras de sua alma à glória eterna. Começou então a louvar o Altíssimo por tanta glória: a de ir para ele inteiramente livre, desembaraçado de tudo.

4. Aproximava-se a hora. Mandou vir todos os Irmãos presentes então na Porciúncula e com algumas palavras de consolo para amenizar-lhes o pesar, exortou-os de todo seu coração de pai a amar a Deus. Em herança legou-lhes como propriedade a pobreza e a paz; recomendou-lhes que orientassem sempre seus desejos para os bens eternos e se premunissem contra os perigos deste mundo. Encorajou-os, com toda a força persuasiva de sua palavra, a seguirem perfeitamente as pegadas de Jesus crucificado. Todos os seus filhos formavam por assim dizer uma coroa em volta do patriarca dos pobres; o santo, quase cego, não de velhice, mas por causa das lá grimas, e já às portas da morte, estendeu as mãos, entrecruzou os braços, como lhe aprazia muitas vezes, e abençoou todos os Irmãos, os ausentes como os presentes, pelo poder e no nome do Crucificado.

5. Em seguida, pediu que fosse lido o texto de São João que começa assim: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, havendo amado os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou..." (Jo 13,1). Queria ouvir nessa passagem do Evangelho o chamado do Bem-Amado que bate à porta, esse Bem-Amado de quem estava separado apenas pela simples parede da carne. Por fim, tendo-se realizado nele todos os planos de Deus, o bem-aventurado adormeceu no Senhor, rezando e cantando um salmo. Sua santíssima alma se desprendeu da carne para ser absorvida no abismo da claridade de Deus. Na mesma hora precisamente, um de seus Irmãos e companheiros, conhecido por sua santidade, viu a alma do santo subindo diretamente para o céu sob a forma de uma estrela esplêndida levada por branca nuvem que pairava sobre imensa extensão de água; alma rutilante de pureza, a reluzir os méritos acumulados, subia com toda a riqueza das graças recebidas e das virtudes que o tinham conformado à imagem de Deus, para gozar sem demora da visão da luz e da glória eternas.

6. Na Terra di Lavoro, Frei Agostinho, profundo amigo de Deus, que então era ministro dos Irmãos, também chegava ao termo da vida e já não falava mais havia bastante tempo. Para admiração de todos os que estavam à sua volta, começou de repente a gritar: "Espera-me, Pai, espera-me! Estou chegando, vou contigo!" Estupefatos, os Irmãos lhe perguntam a quem dirigia aquelas palavras. E ele respondeu que via partir para o céu o bem-aventurado Francisco. E dizendo essas palavras, naquele mesmo instante, também ele entrou para sua felicidade no repouso. Pela mesma época, o bispo de Assis ia em peregrinação ao santuário de São Miguel no monte Gargano. Apareceu-lhe o bem-aventurado Francisco, cheio de júbilo, na hora de seu passamento, e lhe anunciou que deixava este mundo para ir ao céu com grande alegria. No dia seguinte, ao acordar, o bispo contou a visão que tivera, voltou a Assis, informou-se a respeito do ocorrido e se convenceu de que o bem-aventurado Pai havia deixado este mundo no momento em que ele viera anunciar-lhe a noticia.

7. A santidade de Francisco quis Deus manifestá-la ainda por outros prodígios depois de sua morte. Os devotos o invocavam, e em consideração dos méritos do santo o poder de Deus restituía a vista aos cegos, ouvido aos surdos, palavra aos mudos, movimento e sensibilidade aos coxos e paralíticos; escleroses, contraturas e fraturas eram curadas; libertava prisioneiros, reconduzia os náufragos ao porto da salvação; ás mulheres em perigo de morte por ocasião do parto concedia uma hora feliz e fácil de dar à luz; expulsava demônios, restituía a saúde aos que sofriam de hemorragia, aos leprosos, aos feridos de morte; e o que é mais estupendo: ressuscitava os mortos.

8. Todos os países do mundo atestam o continuo fluxo de abundantes graças concedidas por seu intermédio. Eu mesmo, que redigi o que se acaba de ler, fiz tal experiência, e fui agraciado por sua intercessão. Ainda bem menino, estava eu muito doente. Minha Mãe fez uma promessa a nosso bemaventurado Pai Francisco e bastou isso para me livrar da morte e me tornar novamente São, forte e disposto para viver. Tenho esse fato bem vivo na memória e me cumpre proclamá-lo publicamente para que meu silêncio não me coloque no numero dos ingratos. Apesar de nossa indigência e indignidade, sem comparação com teus méritos, recebe, pois, ó Pai santo, todas as nossas ações de graças; acolhendo nossas preces, perdoa nossas faltas e intercede para que os teus fiéis e devotos sejam livres dos males presentes e conduze-os à felicidade eterna.

9. Devemos concluir aqui. Consideramos a conversão do bem-aventurado Francisco, a eficácia de sua pregação, a excelência de suas sublimes virtudes, seu espírito de profecia e sua inteligência das Escrituras, a docilidade das criaturas irracionais, os sagrados estigmas recebidos e sua feliz passagem deste mundo para o céu. Considere o leitor esses sete testemunhos e verifique como Francisco se apresenta ao mundo inteiro como o grande arauto de Cristo, levando em sua pessoa o sinal do Deus vivo (Ap 7,2); esse papel que lhe foi reservado lhe vale nossa veneração, seus ensinamentos nossa adesão confiante, sua santidade nossa admiração. Nós, os que saímos do Egito, andemos, pois, em suas pegadas com toda segurança: ostentando ele diante de nós a cruz de Cristo, há de dividir o mar, nos fará atravessar os desertos e transpor o Jordão da morte, para que enfim, por sua intercessão, nos introduza na terra dos vivos, a Terra Prometida, Jesus nosso Salvador e nosso guia, a quem se dêem todo louvor, toda honra e toda glória, com o Pai e o Espírito Santo, na Trindade perfeita, pelos séculos dos séculos. Amém.