Capítulo 1. O bem-aventurado Francisco indaga sobre a Pobreza.

5. Aplicadamente, como um explorador curioso, ele começou a rondar pelos becos e praças da cidade, procurando diligentemente a que era a amada de sua alma. Interrogava os que estavam parados, perguntava aos que chegavam, dizendo: “Será que não vistes aquela que minha alma ama?” (cfr. Ct 3,3). Mas essa palavra era como um enigma para eles (Lc 18,34), parecia estrangeiro. Como não o entendiam, diziam: “Ó homem, não sabemos do que estás falando. Fala-nos em nossa lingua e te responderemos”. Naquele dia, os filhos de Adão não tinham voz nem sensibilidade para querer conversar sobre a pobreza, ou mesmo mencioná-la. Odiavam-na veementemente, como fazem até hoje, e sobre ela não podiam falar nada de pacífico ao que perguntava; por isso responderam como a um estranho, afirmando que não sabiam nada do que se estava perguntando.

6. O bem-aventurado Francisco disse: “Vou falar com os importantes e os sábios. Pois eles conhecem o caminho do Senhor e o juízo do seu Deus (Jr 5,5); estes talvez sejam pobres e ignorantes. Desconhecendo o caminho do Senhor e o juízo do seu Deus (Jr 5,4)”. Quando o fez, eles lhe responderam ainda mais duramente, dizendo: “Que doutrina nova é essa que apresentas aos nossos ouvidos? Pois que essa pobreza, que buscas, pertença sempre a ti, aos teus filhos e à tua descendência depois de ti! Para nós o que conta é gozar as delícias e ter muitas riquezas, porque o tempo de nossa vida é curto e tedioso, e não há refrigério para o fim do homem (cfr. Sb 2,1). Não conhecemos nada de melhor do que alegrar-se, comer e beber enquando vivemos”.

7. O bem-aventurado Francisco, ouvindo essas coisas, ficava admirado em seu íntimo e, dando graças a Deus, dizia: “Bendito sejas tu, Senhor Deus (cfr. Lc 1,68), que escondeste estas coisas dos sábios e prudentes e as revelaste aos pequeninos! Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado (Mt 11,25-26). Senhor, Pai e dominador de minha vida, não me abandones ao conselho deles, nem me deixes cair nessa reprovação, mas dá-me, por tua graça, encontrar o que busco, porque sou teu servo e filho de tua serva (cfr. Sl 115,16)”.

8. Então, saindo da cidade, o bem-aventurado Francisco foi com passo rápido para um campo, em que, olhando de longe, viu dois velhos sentados tomados se grande tristeza. Um deles dizia: “Para quem vou olhar senão para o pobrezinho e contrito de coração, e para o que teme as minhas palavras (Is 66,2)?”.

* E o outro dizia: “Nada trouxemos para este mundo; sem dúvida também não podemos levar nada; tendo comida e com que nos cobrir, ficamos contentes com isso (1Tm 6,7-8)”.