Capítulo 21. A Avareza dá-se o nome de Providência.

45. “No entanto, aquela minha bárbara inimiga, vendo isso, começou a se irritar veementemente e a ranger seus dentes (cfr. Sl 34,16), e, tocada por profunda dor do coração (cfr. Gen 6,6), disse: “Que farei? todo o mundo foi atrás dela (cfr. Lc 16,3; Jo 12,19). Vou assumir o nome de Providência, e falarei ao coração deles; pode ser que ouçam e fiquem quietos (cfr. Ez 2,5)”.

Assim fez, falando-lhes com palavras humildes: Por que estais aqui, ociosos, o dia inteiro? (cfr. Mt 20,6), sem tomar nenhuma providência para o futuro? Que mal há em terdes o necessário para a vida, se vos abstiverdes do supérfluo? Pois poderíes cuidar da vossa salvação e das dos outros com maior paz e tranquilidade se tivésseis à mão tudo que vos é absolutamente necessário. Enquanto tendes tempo (cfr. Gl 6,10), providenciai para vós e para os que virão, porque os homens vão fechar as mãos que deram no começo e fazem os dons costumeiros. Seria bom se fosse sempre assim, mas não conseguireis mantê-lo absolutamente, porque o Senhor vos aumenta cada dia (cfr. At 2,47). Por acaso Deus não aceitaria que tivésseis o que pudesses dar aos necessitados e que fôsseis lembrados dos pobres (Gl 2,10), se ele mesmo diz: Há mais felicidade em dar que em receber (At 20,35)? Por que não recebeis os dons que vos oferecem para não defraudar os doadores do prêmio eterno? Já não há mais motivo para temer a intimidade com as riquezas, pois as tendes como nada. O mal não está nas coisas mas no ânimo, porque viu Deus tudo que tinha feito, e era muito bom (Gn 1,31). Pois, para os bons, todas as coisas são boas, todas servem, todas foram feitas (cfr. Jo 1,3) para eles. Oh! Quantos que têm bens gastam-nos mal. Se vós os tivésseis, mudaríeis para um bom uso, porque o vosso propósito é santo, o vosso desejo é santo! Não tendes vontade de enriquecer os vossos parentes, porque eles são bastante ricos mas, se tivésseis o necessário, poderíeis viver mais honesta e ordenadamente”.

Quando aquela malvada disse essas e outras coisas, alguns deles, que tinham a consciência corrompida, concordaram bem depressa. Mas outros não deram ouvidos aos argumentos apresentados e os refutaram com respostas agudas. E tanto uns como outros apresentaram testemunhos das escrituras.