Capítulo 23. Sobre os religiosos vencidos pela Acídia.

47. “Depois disso, começaram a suspirar por tudo que tinham deixado no Egito, suspirando miseravelmente e buscando vergonhosamente o que tinham desprezado com um coração tão grande. Andavam tristes pelo caminho dos mandamentos (cfr. Sl 118,32) de Deus, acorrendo de coração seco para tudo que era mandado. Desfaleciam sob o pêso e, pela deficiência da espiritualidade, mal podiam respirar. Era raro ficarem compungidos, não tinha contrição nenhuma, a obediência era cheia de murmurações, o pensamento animalesco, a alegria dissoluta, pusilânime a tristeza, incauta a palavra, fácil a risada; tinham hilaridade no rosto, vaidade no andar, roupas macias e delicadas, de corte engenhoso, costura ainda mais engenhosa, dormiam demais, comiam o supérfluo e não se dominavam na bebida. Jogavam ao vento gracejos, anedotas e palavras. Contavam fábulas, alteravam as leis, dispunham das províncias e tratavam diligentemente das realizações humanas. O cuidado com os exercícios espirituais era nenhum, nenhuma era a solicitude pela salvação das almas, raramente conversavam sobre as coisas celestes e morno era o desejo da eternidade.

48. Estavam tão endurecidos que começaram a invejar um ao outro, a provocar-se a dominar um ao outro; cada irmão acusava ao outro dos piores crimes (cfr. Gn 37,2). Evitavam os assuntos sérios, buscando com que se alegrassem porque, na verdade, não o conseguiam. Entretanto, mantendo uma aparência de santidade em tudo, para não ficarem completamente desmoralizados e, falando de coisas santas, escondiam aos simples o seu miserável comportamento. Mas era tão grande a dissolução de seu homem interior que, não conseguindo dominar-se, estouravam no exterior com indícios abertos”.

49. “No fim, começaram a adular os seculaes e a juntar-se com eles para esvaziar suas bolsas, para ampliar os edifícios e para multiplicar as coisas a que tinham renunciado absolutamente. Vendiam palavras aos ricos, saudações às nobres matronas; frequentavam as cortes dos reis e dos príncipes com toda diligência, para juntarem casa com casa e unirem campo ao campo (cfr. Is 5,8). E agora tornaram-se grandes e ricos, enraizados na terra, porque vão de mal a pior e não reconheceram o Senhor (cfr. Jr 9,3). Caíram quando se elevaram (cfr. Sl 72,18), deslizaram para o chão antes de nascer, mas ainda me dizem: “Somos teus amigos”.