Capítulo 27. A senhora Pobreza previne o bem-aventurado Francisco sobre o progresso e a decadência do comportamento.

53. “Eis, irmãos, contei-vos essa comprida parábola para que vejais por onde vai o vosso caminho (cfr. Pr 4,25) e vejais o que tendes que fazer. É perigoso olhar muito para trás e iludir a Deus. Lembrai-vos da mulher de Ló (cfr. Lc 17,32; Gn 19,26) e não acrediteis em qualquer espírito (1Jo 4,1). Mas, caríssimos, eu confio em vós (cfr. Hb 6,9), porque vejo em vós, mais do que nos outros, coisas melhores e mais próximas da salvação, porque parece que desprezastes tudo, que vos libertastes de todas as coisas. E a melhor prova que tenho de tudo isso, para mim, é vossa subida ao monte, ao qual poucos tiveram jamais acesso. Mas eu vos digo, meus amigos (cfr. Lc 12,4), que a malícia de muitos me faz desconfiar da virtude dos bons, e muitas vezes descobri lobos arrebatadores sob a roupa das ovelhas (cfr. Mat 7,15).

54. É certo que eu desejo que cada um de vós seja um imitador dos santos, que me herdaram por sua fé e paciência. Mas, como temo que aconteça convosco o que aconteceu com os outros, dou-vos um salutar conselho, isto é, que não queirais alcançar logo no começo os pontos mais altos e secretos, mas, caminhando devagar, sob a orientação de Cristo, chegueis finalmente ao mais alto. Cuidai para que, depois de ter colocado o adubo da humildade nas vossas raízes, não vos reveleis estéreis, porque então a única coisa que vos sera dada é o machado. Não acrediteis de todo coração no que tendes agora, porque os sentidos do homem são mais inclinados para fazer o mal (cfr. Gn 8,21) do que para fazer o bem, e o ânimo volta com facilidade ao que estava acostumado, mesmo que alguma vez se tenha afastado bastante disso. Sei que, por causa do vosso grande fervor, tudo vos parece muito fácil; mas lembrai-vos do que está dito: porque Eis que os que servem a Deus não têm estabilidade, e Ele descobre defeitos mesmo em seus anjos (cfr. Jó 4,18).

55. “No começo, tudo vos parece agradável de suportar, mas, pouco depois, quando pensardes estar seguros, admitireis que houve falta de cuidado com os benefícios recebidos. Achareis que será possível, na hora em que quiserdes, voltar à consolação do início, mas não é fácil acabar com a negligência, depois que foi aceita uma vez. Então vosso coração vai se inclinar para outras coisas, mas a razão vai reclamar que volteis às do começo. Assim, levados para o torpor e a acídia espiritual, alegareis desculpas inconsistentes, dizendo: “Não podemos ser fortes como fomos no começo, agora os tempos são outros”; ignorando que se diz que: Quando o homem tiver acabado, aí é que vai começar (cfr. Eclo 18,6).

E em vosso ânimo haverá uma voz dizendo sempre: Amanhã, amanhã voltaremos ao primeiro marido, porque para nós era melhor antes do que agora (cfr. Os 2,7). Irmãos, eu vos predisse (cfr. Mt 24,25) muitas coisas, e ainda tenho muito que vos dizer, que agora não podereis suportar (cfr. Jo 16,12). Chegará a hora (cfr. Jo 16,25) em que vos direi claramente todas as coisas de que falei”.