Capítulo 31. A senhora Pobreza abençoa os frades e os exorta a perseverarem na graça recebida.

64. Ela mandou que todos se sentassem juntos e lhes comunicou palavras de vida (cfr. Jo 6,69), dizendo:

“Filhos, vós sois benditos pelo Senhor Deus, que fez o céu e a terra (cfr. Jdt 13,23.24), que com tão grande plenitude de caridade me recebestes em vossa casa, que hoje me pareceu estar convosco como no paraíso de Deus (cfr. Ez 31,8.9; Ap 2,7). Por isso, fiquei cheia de alegria, transbordo de consolação (cfr. 2Cor 7,4), e peço desculpas porque demorei tanto para vir. Na verdade, o Senhor está convosco e eu não sabia (cfr. Gn 28,16). Eis que já vejo o que almejei, já tenho o que desejei, porque me uni na terra aos que representam para mim a imagem daquele com quem estou desposada nos céus. Que o Senhor abençoe a vossa fortaleza e receba as obras de vossas mãos (cfr. Dt 33,11).

65. Eu vos peço e rogo com insistência, como a meus filhos muito queridos (cfr. 1Cor 4,14), que persvereis naquilo que começastes por inspiração do Espírito Santo, sem abandonar vossa perfeição, como alguns costumam fazer, mas, escapando de todas as ciladas das trevas, esforçai-vos sempre pelo que é mais perfeito. Altíssima é a vossa perfeição; brilha comn luz mais clara, mais do que o homem, mais do que a virtude e a perfeição dos antigos. Não tenhais nenhuma dúvida de que possuireis o reino dos céus, não hesiteis, porque já tendes a garantia da herança futura e já recebestes o penhor do Espírito, fostes marcados com o sinal da glória de Cristo e, por graça dele, correspondeis em tudo àquela sua primeira escola, que reuniu quando veio ao mundo. Pois o que eles fizeram em sua presença foi o que vós começastes a fazer por completo em sua ausência, e não tendes por que envergonhar-vos de dizer: “Eis que deixamos tudo e te seguimos” (Mt 19,27)”.

66. Não vos espante a grandeza da luta e a imensidade do trabalho, porque tereis uma grande recompensa. E, olhando para o autor e consumador de todos os bens, o Senhor Jesus Cristo, quando lhe ofereceram gozo enfrentou a cruz, desprezando a confusão, (Hb 12,2), mantende a confissão indeclinável da vossa esperança (cfr. Hb 10,23). Correi ao certame que vos é proposto (Hb 12,1) na caridade. Correi com paciência, que vos é principalmente necessária, para que, cumprindo a vontade de Deus, alcanceis a promessa (Hb 10,36). Porque Deus é poderoso (cfr. Rm 11,23) para poder consumar felizmente, por sua santa graça, o que começastes e está acima de vossas forças, porque é fiel em suas promessas.

67. “Não encontre em vós nada do que lhe agrada o espírito que age nos filhos da rebeldia (cfr. Ef 2,2), que não encontre nada duvidoso, nada desconfiado, para não ter motivos para desencadear sobre vós a sua maldade. Porque é muito soberbo, e sua soberba e arrogância são maiores do que o seu poder (cfr. Is 16,6). Tem muita raiva (cfr. Ap 12,12) contra vós e vai voltar contra vós as armas de toda a sua astúcia, tentando derramar o veneno de sua malícia, pois já venceu e derrubou outros, e sofre por que vos vê acima dele.

68. Por causa de vossa conversão, queridos, os cidadãos do céu festejaram grandes gozos e cantaram cânticos novos diante do Rei eterno (cfr. Sl 95,1; 97,1; Ap 5,9). Alegram-se os anjos em vós e por vós, porque, enquanto por vós muitos vão guardar a virgindade e brilhar pela castidade, vão encher-se as ruínas da cidade superna, onde os virgens deverão ser colocados num lugar mais destacado, porque os que não se casam nem se dão em casamento serão como os anjos de Deus no céu (cfr. Mt 22.30). Exultam os Apóstolos ao verem que é renovada sua forma de vida, que sua doutrina é pregada, e que por vós são demonstrados exemplos da santidade especial. Alegram-se os mártires vendo que, pela efusão do sangue sagrado, sua constância está sendo apresentada de novo. Saltam de alegria os confessores, porque sabem que em vós rememora-se freqüentemente a sua vitória sobre o inimigo. Regozijam-se os virgens que seguem o Cordeiro onde quer que Ele vá (cfr. Ap 14,4), vendo que, por vós aumenta todos os dias o seu número. Por fim, toda a corte celestial enche-se de exultação, celebrando as solenidades dos novos concidadãos todos os dias, aspergida pelo odor das santas orações que sobem continuamente deste vale.

69. Então eu vos suplico, irmãos, pela misericórdia de Deus, (Rm 12,1), pela qual vos fizestes tão miseráveis, fazei de fato aquilo que vos trouxe, aquilo para que subistes dos rios da Babilônia. Recebei humildemente a graça que vos é oferecida, usando-a sempre dignamente em tudo para o louvor, a glória e a honra (cfr. Ap 4,9.11) daquele que morreu por vós, Jesus Cristo, Senhor nosso, que com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina, vence e impera, Deus eternamente glorioso, por todos os séculos dos séculos. Amém”.