Capítulo 6. A dignidade da Pobreza.

19. “Assim o Filho do sumo Pai enamorou-se de tua formosura (cfr. Sb 8,2): prendendo-se só a ti no mundo, comprovando que tu és fidelíssima em tudo. Pois ainda antes que viesse da pátria luminosa para a terra, preparaste-lhe um lugar adequado, um trono para sentar e um tálamo para descansar, isto é, a Virgem paupérrima, de quem nasceu e brilhou para o mundo. É certo que acorreste quando ele nasceu, para que encontrasse em ti e não nas delícias um lugar de que gostasse. Diz o evangelista que ele foi posto num presépio, porque não havia lugar para ele na estalagem (Luc 2,7). E assim o acompanhaste sempre, para que em toda a sua vida, quando foi visto na terra e conviveu com os homens (cfr. Br 3,38), pois as raposas tinham tocas e as aves os seus ninhos, mas ele não tinha onde reclinar a cabeça (cfr. Mt 8,20). Depois, quando abriu a boca para ensinar, Ele, que outrora abrira a boca dos profetas, entre muitas coisas que disse, louvou-te em primeiro lugar, exaltou-te primeiramente dizendo: Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5,3)”.

20. Mas, quando escolheu algumas testemunhas necessárias para a santa pregação e para sua gloriosa convivência para a salvação do gênero humano, certamente não escolheu ricos comerciantes mas pobres pescadores, para mostrar com quanta estima tu devias ser amada por todos. Finalmente, para que se manifeste a todos a tua bondade, a tua magnificência e a tua fortaleza, e como precedes a todas as virtudes, como sem ti não pode haver virtude nenhuma, como o teu reino não é deste mundo (cfr. Jo 18,36), mas do céu, e como, quando todos os escolhidos e amados o abandonaram medrosamente foste a única que, então, aderiste ao rei da glória. Mas tu, esposa fidelíssima, amiga dulcíssima, nem por um momento dele te afastaste; antes, até aderias mais a Ele quanto mais o vias ser desprezado por todos.

21. Pois, se não estivesses com Ele, nunca poderia ter sido desprezado dessa maneira por todos. Estavas com Ele nas zombarias dos judeus, nos insultos dos fariseus, nas exprobrações dos príncipes dos sacerdotes; com Ele estavas nos tapas, nas cusparadas, nos açoites. O que devia ser mais reverenciado por todos foi vilipendiado por todos, e foste a única que o consolou. Não o abandonaste até a morte, morte de cruz (cfr. Fl 2,8). E na própria cruz, com o corpo já despido, os braços estendidos, as mãos e os pés pregados, padecias com Ele, de modo que nada nele parecia mais glorioso do que tu. Finalmente, quando foi embora para o céu, deixou contigo o sinal do reino dos céus para marcar os eleitos, para que todo aquele que suspira pelo reino eterno venha a ti, peça a ti, entre por ti, porque, se não for marcado com o teu sinal (cfr. Ct 8,6; Ap 7,3) ninguém poderá entrar no reino.

22. Por isso, Senhora, tem compaixão de nós e marca-nos com o sinal da tua graça. Quem seria tão tapado, tão sem gosto para não te amar com todo o coração a ti que foste escolhida pelo Altísismo e preparada desde a eternidade? Quem não te reverenciará e honrará, quando te distinguiu com tanta honra Aquele a quem adoram todas as virtudes do céu? Quem não adorará os vestígios de teus pés de boa vontade, se a ti o Senhor da majestade se inclinou tão humildemente, se uniu tão amigavelmente, aderiu com tanto amor? Por Ele e por causa dele, nós te rogamos, Senhora, não desprezes nossos pedidos nas necessidades, mas livra-nos sempre dos perigos, ó gloriosa e bendita pela eternidade”.