Capítulo 8. Lembrança da pobreza no paraíso.

25. “Estive, uma vez, no paraíso de Deus (cfr. Ap 2,7), onde estava o homem nu e até passeando no homem e com o homem nu naquele belíssimo jardim (cfr. Gn 2,25; 3,8), sem temer nada, sem duvidar de nada, e sem suspeitar de nenhuma coisa adversa. Eu achava que ia ficar com ele para sempre, porque foi criado pelo Altíssimo justo, sábio, e colocado num lugar ameníssimo e muito bonito. Estava muito alegre e brincando diante dele todo o tempo (cfr. Pr 8,30), porque, não tendo nenhuma propriedade, era todo de Deus.

26. Mas ai! Sofreu um mal inesperado, jamais ouvido desde o começo da criação, quando aquele infeliz, que outrora tinha perdido a sabedoria, e não pôde ficar no céu, entrou numa serpente, (cfr. Ez 28,17; Gn 3,1) e o agrediu, para que o homem, como ele mesmo, se tornasse um prevaricador do mandamento divino. O infeliz deu ouvidos e consentiu com quem lhe dava mau conselho e, esquecido de seu Criador, Deus, imitou o primeiro transgressor. Antes, ele estava nu, mas não se envergonhava como disse a Escritura sobre ele (cfr. Gn 2,25), porque, nele, a inocência era completa. Mas, quando pecou, percebeu que estava nu e, por causa da vergonha, correndo às folhas de figueira, fez uma tanga para si (cfr. Gn 3,7).

27. Vendo que meu companheiro se tornara transgressor e estava coberto de folhas, pois não tinha outra coisa, afastei-me dele e, ficando de longe, comecei a olhá-lo com lágrimas no rosto. esperava quem me salvasse da pusilanimidade do espírito e de tamanha tempestade (cfr. Sl 54,9). De repente, veio do céu um rumor (cfr. At 2,2) sacudindo todo o paraíso e, com ele, foi enviada do céu uma luz esplendisíssima.

Quando olhei, vi o Senhor da majestade passeando no paraíso na brisa depois do meio dia (cfr. Gn 3,8), refulgindo de glória inenarrável e indizível. Acompanhavam-no multidões de anjos, clamando com voz forte e dizendo: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos, cheia está a terra inteira de tua glória (Is 6,3). Mil milhares serviam-no, e dez centenas de milhares assistiam-no (Dn 7,10).

28. Comecei, eu confesso, a me apavorar e a tremer muito, a desmaiar toda de estupor e de horror, com o corpo fraquejando mas o coração palpitando, clamei das profundezas (Sl 129,1), dizendo: “Senhor, misericórdia! Senhor, misericórdia! Não leves teu servo a julgamento, porque nenhum vivente poderá justificar-se diante de ti (Sl 142,2)”. E Ele me disse: “Vai esconderte um pouco, por um momento, até que passe a minha indignação”.

E chamou logo em seguida o meu companheiro, dizendo: “Adão, onde estás?”E ele: “Ouvi tua voz, Senhor, e fiquei com medo, porque estava nu, e me escondi (Gn 3,9-10)”. Na verdade estava nu, porque, descendo de Jerusalém a Jericó, caiu na mão dos ladrões, que antes de tudo despojaram-no (cfr. Lc 10,30) da bondade da natureza, pois perdera a semelhança com o Criador. Mas o próprio Rei altíssimo, e não menos bondosíssimo, esperou sua conversão, dando-lhe oportunidade de voltar a Ele.

29. Mas o miserável deixou seu coração fraquejar, rompendo em palavras de malícia para se desculpar dos pecados cometidos (cfr. Sl 140,4). E assim aumentou a culpa e acumulou mais penas, entesourando para si a ira para o dia da ira e da indignação do justo juízo de Deus (cfr. Rm 2,5). Não poupou a si mesmo nem à sua descendência, que veio depois dele, juntando para todos a terrível maldição da morte. E quando todos os presentes o julgaram, o Senhor expulsou-o do paraíso do prazer, (cfr. Gn 3,23) por um julgamento justo mas não menos misericordioso. E, para que voltasse à terra, da qual tinha sido tomado (cfr. Gn 3,19), ditou-lhe a sentença da maldição, bem temperada; fez para ele túnicas de pele (cfr. Gn 3,21), designando nelas a sua mortalidade, despojado que foi a das vestes da inocência.

30. Quando vi meu companheiro vestido com as peles dos mortos, afastei-me de uma vez dele, porque tinha sido expulso para trabalhar bastante para ficar rico. Por isso andei errante e fugitiva pela terra (cfr. Gn 4,12), chorando e gemendo demais. Desde esse tempo não encontrei onde descansar meu pé (cfr. Gn 8,9), enquanto Abraão, Isaac, Jacó e os outros justos recebiam como promessa as riquezas e a terra onde corria leite e mel (cfr. Ex 3,17). Em todos eles procurei repouso e não encontrei (cfr. Eclo 24,11; Jr 45,3), pois diante da porta do paraíso estava um querubim com uma espada de fogo vibrante (cfr. Gn 3,24), até que o Altíssimo viesse do seio do Pai (cfr. Jo 1,18) para o mundo, e Ele me procurou com a maior dignidade.