|
1. No começo desta narração, em que vamos contar os milagres de
nosso santíssimo pai Francisco, decidimos destacar acima de tudo o
milagre solene que foi para o mundo uma advertência, um despertar e um
estremecimento. Refiro-me ao nascimento da religião, fecundidade da
estéril, geração de grupos tão variados. Via o velho mundo
decompondo-se na podridão do vício; as ordens desviadas das trilhas
apostólicas, e a noite do pecado já no meio, impondo-se o silêncio
às disciplinas sagradas quando, de repente, surgiu na terra um homem
novo e ao súbito aparecimento de um novo exército, os povos se
maravilharam diante dos sinais de renovação apostólica. Desponta
logo na luz a perfeição da Igreja primitiva, já sepultada, pois o
mundo lia suas grandezas mas não via seus exemplos. Como não lembrar
que os últimos serão os primeiros (Mt 19,30), se vemos que,
maravilhosamente, transformaram-se os corações dos pais nos filhos,
e os dos filhos nos pais (Ml 4,6)? Será que podemos
desconsiderar a célebre e famosa missão das duas Ordens e deixar de
perceber o presságio de alguma coisa de grande que virá em breve?
Desde os tempos dos apóstolos, não foi proposto ao mundo ensinamento
tão autorizado, tão admirável. Admirável fecundidade de uma
estéril! Pois era mesmo estéril e seca esta religião, afastada de
toda terra úmida dos bens terrenos. Estéril porque não colhe nem
guarda em celeiros (Mt 6,26), como não leva pelo caminho do
Senhor sacola (Lc 9,3; At 18,25) cheia. Mas, esperando
contra toda esperança (Rm 4,18), o santo acreditou que iria
herdar o mundo (cfr. Jó 4,13) e não considerou sem virilidade
seu corpo nem estéril o seio de Sara (cfr. Rm 4,19), certo de
que o poder de Deus podia fazer brotar dela o povo hebreu. Mas não
era um povo com as adegas cheias, com despensas transbordantes, com
amplas propriedades, mas alimentado neste mundo por aquela mesma
pobreza que o torna digno no céu. Ó fraco em Deus, mais forte para
os homens, pois glorifica a nossa cruz e sustenta a pobreza! E
pudemos ver que essa vinha cresceu rapidamente, estendendo de mar a mar
seus ramos multiplicadores (cfr. Sl 79,12). De toda parte
acorreram povos, multiplicaram-se os grupos e se ajuntaram quase de
repente para a egrégia construção do templo como pedras vivas (cfr.
1Pd 2,5). E não a vimos apenas multiplicada rapidamente no
número de filhos: tornou-se famosa porque sabemos que muitos dos que
gerou já conseguiram a palma do martírio e veneramos não poucos que
foram incluídos no catálogo dos santos pela prática perfeita de toda
santidade. Mas passe já a narração para o cabeça de todos eles,
pois essa é nossa intenção.
|
|