Tomás de Celano

TRATADO DOS MILAGRES DO BEM-AVENTURADO FRANCISCO

Começam os milagres de São Francisco


Capítulo 1. A maravilhosa origem de sua Ordem.

1. No começo desta narração, em que vamos contar os milagres de nosso santíssimo pai Francisco, decidimos destacar acima de tudo o milagre solene que foi para o mundo uma advertência, um despertar e um estremecimento. Refiro-me ao nascimento da religião, fecundidade da estéril, geração de grupos tão variados. Via o velho mundo decompondo-se na podridão do vício; as ordens desviadas das trilhas apostólicas, e a noite do pecado já no meio, impondo-se o silêncio às disciplinas sagradas quando, de repente, surgiu na terra um homem novo e ao súbito aparecimento de um novo exército, os povos se maravilharam diante dos sinais de renovação apostólica. Desponta logo na luz a perfeição da Igreja primitiva, já sepultada, pois o mundo lia suas grandezas mas não via seus exemplos. Como não lembrar que os últimos serão os primeiros (Mt 19,30), se vemos que, maravilhosamente, transformaram-se os corações dos pais nos filhos, e os dos filhos nos pais (Ml 4,6)? Será que podemos desconsiderar a célebre e famosa missão das duas Ordens e deixar de perceber o presságio de alguma coisa de grande que virá em breve? Desde os tempos dos apóstolos, não foi proposto ao mundo ensinamento tão autorizado, tão admirável. Admirável fecundidade de uma estéril! Pois era mesmo estéril e seca esta religião, afastada de toda terra úmida dos bens terrenos. Estéril porque não colhe nem guarda em celeiros (Mt 6,26), como não leva pelo caminho do Senhor sacola (Lc 9,3; At 18,25) cheia. Mas, esperando contra toda esperança (Rm 4,18), o santo acreditou que iria herdar o mundo (cfr. Jó 4,13) e não considerou sem virilidade seu corpo nem estéril o seio de Sara (cfr. Rm 4,19), certo de que o poder de Deus podia fazer brotar dela o povo hebreu. Mas não era um povo com as adegas cheias, com despensas transbordantes, com amplas propriedades, mas alimentado neste mundo por aquela mesma pobreza que o torna digno no céu. Ó fraco em Deus, mais forte para os homens, pois glorifica a nossa cruz e sustenta a pobreza! E pudemos ver que essa vinha cresceu rapidamente, estendendo de mar a mar seus ramos multiplicadores (cfr. Sl 79,12). De toda parte acorreram povos, multiplicaram-se os grupos e se ajuntaram quase de repente para a egrégia construção do templo como pedras vivas (cfr. 1Pd 2,5). E não a vimos apenas multiplicada rapidamente no número de filhos: tornou-se famosa porque sabemos que muitos dos que gerou já conseguiram a palma do martírio e veneramos não poucos que foram incluídos no catálogo dos santos pela prática perfeita de toda santidade. Mas passe já a narração para o cabeça de todos eles, pois essa é nossa intenção.