Capítulo 14. Sobre os cegos, surdos e mudos

116. Num convento dos frades de Nápoles, havia um frade chamado Roberto, cego havia muitos anos. Cresceu-lhe nos olhos uma carne supérflua, que impedia mexer e usar as pálpebras. Uma vez juntaram-se aí muitos frades de fora, que iam para diversas partes do mundo e o bem-aventurado pai Francisco, exemplo e espelho de santa obediência, para animá-los na viagem com a força de um novo milagre, curou o referido frade na sua presença da seguinte maneira: Uma noite Frei Roberto estava deitado, esperando a morte, e sua alma fora encomendada, quando eis que apareceu o santo pai com três frades de santidade perfeita, santo Antônio, Frei Agostinho e Frei Tiago de Assis, que, como o haviam seguido perfeitamente quando viviam, também o acompanhavam alegremente depois da morte. São Francisco pegou uma faca e cortou a carne supérflua, devolveu-lhe a visão perdida e o tirou da boca da morte. Também lhe disse: "Roberto, meu filho, a graça que te fiz é um sinal para os frades que estão partindo para nações longínquas, de que eu vou na frente deles e vou acompanhar seus passos". "Que vão, acrescentou, "cumprindo felizes e alegres a obediência que receberam! Que os filhos saboreiem a obediência, principalmente os que, deixando a própria terra, esquecem a pátria terrena porque têm um precursor esperto e dedicado!".

117. Em Zancato, aldeia perto de Anagni, o cavaleiro Geraldo tinha perdido totalmente o uso dos olhos. Aconteceu que dois frades menores, voltando do estrangeiro, foram pedir hospedagem em sua casa. Acolhidos com honra por toda a família e tratados com toda bondade, nem perceberam a cegueira do anfitrião. Foram depois para a casa dos frades, que ficava a seis milhas e lá estiveram oito dias. Uma noite, São Francisco apareceu a um desses frades em sonhos, dizendo: "Levanta-te, vai depressa com o teu companheiro para a casa do teu anfitrião, que me honrou em vós, e por minha causa vos deu hospitalidade. Retribui-lhe a graça da amável acolhida e prestai honra a quem vos honrou! Pois ele é cego, não enxerga, e isso foi merecido pelos seus pecados, que ainda não confessou. As trevas da morte o esperam, estão preparados eternos e intermináveis sofrimentos. Está preso a isso por culpas que ainda não abandonou". Quando o pai desapareceu, o filho levantou-se atônito e correu para cumprir a ordem com seu companheiro. Voltaram juntos ao seu anfitrião, e o que vira contou tudo em ordem. O homem ficou bastante espantado, confirmando que tudo que ouvira era verdade. Arrependeu-se até as lágrimas, confessou-se espontaneamente, prometeu corrigir-se. Renovado dessa maneira o homem interior, recebeu na mesma hora a luz dos olhos. A grandeza desse milagre espalhou-se por toda parte e encorajou todos os que o ouviram a darem hospitalidade.

118. Em Tebas, na România, uma mulher cega que jejuava a pão e água na vigília de São Francisco, foi levada pelo seu marido à igreja dos frades na manhã da festa. Durante a missa, abriu os olhos na elevação do Corpo de Cristo, enxergou com clareza e adorou com muita devoção. Nessa mesma adoração proclamou alto: "Graças a Deus e a seu santo, porque estou vendo o corpo de Cristo!". Tendo sido todos os presentes transformados numa voz da exultação, terminada a celebração, a mulher voltou para sua casa guiada por sua própria visão. Cristo foi luz para Francisco enquanto viveu e, como então, delegou-lhe todo seu poder maravilhoso, tanto que até agora deseja dar toda glória a seu corpo.

119. Na Campânia, um menino de catorze anos da aldeia de Poffi, por uma desgraça imprevista, perdeu totalmente o olho esquerdo. A força da dor expeliu de tal forma o olho de sua órbita que, por oito dias, quase secou, pendendo para fora por uma película de um dedo de espessura. Quando só restava cortar fora, e estava praticamente desenganado pelos médicos, o pai dele voltou-se de toda mente para São Francisco. Ele, incansável protetor dos infelizes, não desiludiu as preces do suplicante. Com sua admirável virtude restituiu o olho seco ao seu lugar, devolvendo-lhe a luminosidade desejada dos raios de luz.

120. Na mesma região, em Castro, caiu do alto uma grossa trave e atingiu com gravidade a cabeça de um sacerdote, cegando o seu olho esquerdo. Jogado no chão, ele começou a gritar tristemente por São Francisco, dizendo: "Socorro, pai santíssimo, para que eu possa ir a tua festa, como prometi aos teus frades!". Pois era a vigília do santo. Levantou-se bem depressa, completamente curado, e irrompeu em exclamações de louvor e de alegria, transformando em júbilo o espanto de todos os circunstantes, que lamentavam o acontecido. Foi à festa, contando a todos como provara a clemência e o poder do santo. Por isso, aprendam todos a venerar com devoção aquele que sabem que ajuda tão facilmente os que o veneram.

121. Quando o bem-aventurado Francisco ainda vivia, uma mulher de Narni, atacada pela cegueira, recuperou milagrosamente a vista por um sinal da cruz feito pelo santo.

122. Um homem de monte Gargano, chamado Pedro Romano, estava cortando lenha com um machado em sua vinha quando se machucou em um olho, dividindo-o pelo meio de tal forma que uma parte do globo pendia para fora. Como ficou desesperado nessa situação de conseguir auxílio de alguém, prometeu que não comeria nada na festa de São Francisco se ele o ajudasse. O santo de Deus repôs o olho no lugar na mesma hora, devolvendo-lhe a antiga luminosidade.

123. O filho de um nobre, cego de nascimento, conseguiu a desejada visão pelos méritos de São Francisco. Por causa disso, recebeu o nome de Iluminato. Quando teve idade, entrou na Ordem de São Francisco e, no fim, concluiu com um fim mais santo uma vida que iniciara santamente.

124. Bevagna é uma nobre aldeia que fica no vale de Espoleto. Nela morava uma mulher santa com uma filha virgem ainda mais santa e uma neta muito devota de Cristo. São Francisco as honrou muitas vezes hospedando-se com elas. Pois a mulher também tivera um filho na Ordem, homem de perfeição consumada. Mas uma delas, a neta, estava sem a luz dos olhos exteriores, ainda que os interiores, com os quais se vê Deus, fossem iluminados por uma maravilhosa clareza. Uma vez pediram a São Francisco que tivesse compaixão da doença dela e também considerasse o trabalho delas. Ele ungiu três vezes os olhos da cega com a sua saliva, em nome da Trindade, e lhe devolveu a desejada luz.

125. Em Città della Pieve vivia um jovem mendigo surdo e mudo de nascença j. Tinha a língua tão curta e pequena que muitos a tinham procurado sem conseguir enxergá-la. Um homem chamado Marcos recebeu-o como hóspede, por amor de Deus. Vendo que lhe faziam o bem, começou a morar normalmente com eles. Uma noite o referido homem estava jantando com sua mulher e, diante do menino, disse à esposa: "Acho que seria o maior milagre se São Francisco devolvesse a ele a capacidade de ouvir e de falar". Et acrescentou: "Faço voto a Deus de que, se São Francisco se dignar fazer isso, por amor dele vou pagar todas as despesas deste menino enquanto ele viver". Coisa admirável! De repente a língua cresceu e ele falou, dizendo: "Viva São Francisco, que estou vendo aí no alto e me deu fala e ouvido! Que é que vou dizer ao povo?". Seu benfeitor respondeu: "Louvarás a Deus e salvarás muitas pessoas". As pessoas daquela terra, que já o conheciam antes, ficaram cheias da maior admiração.

126. Uma mulher da região da Apúlia tinha perdido a fala fazia bastante tempo e respirava com dificuldade. Uma noite, quando estava dormindo, apareceu-lhe a Virgem Maria, dizendo: "Se queres ficar curada, vai à igreja de São Francisco em Venosa, que lá receberás a desejada saúde!". A mulher se levantou e, como não podia respirar nem falar, fez sinais aos pais de que desejava ir a Venosa. Eles concordaram e foram com ela. Quando ela entrou na igreja de São Francisco, pedindo a ajuda dele de todo coração, vomitou na mesma hora uma massa de carne, na frente de todos, e ficou admiravelmente livre.

127. Na diocese de Arezzo uma mulher que estava muda já havia sete anos dirigia-se continuamente aos ouvidos de Deus, pedindo que ele lhe devolvesse a fala. Quando estava dormindo, apareceram dois frades vestidos de vermelho e a exortaram suavemente a consagrar-se a São Francisco. Ela obedeceu de boa vontade, fez o voto no coração, porque não podia falar, e logo, acordou do sono e recuperou a fala.

128. Um juiz, chamado Alexandre, tinha falado mal dos milagres de São Francisco e, para admiração de todos, ficou por mais de seis anos privado da fala. Castigado pelo pecado que cometera, ficou muito arrependido e se condoía de ter falado contra os milagres do santo. Então não perdurou a indignação do santo, mas restituiu a fala aos que se arrependera e pedira perdão humildemente, e o recebeu em sua graça. Desde então consagrou a língua blasfema aos louvores do santo pai, ficando muito mais devoto por causa do castigo.

129. Já que falamos de um blasfemo, lembro outra coisa boa de contar. Um cavaleiro chamado Gineldo, de Borgo, na província de Massa, falava muito mal das obras e milagres de São Francisco. Dirigia muitos opróbrios aos peregrinos que vinham recordá-lo e gritava contra os frades. Um dia, estava jogando dados e, cheia de doidice e incredulidade, disse aos que estavam com ele: "Se Francisco é santo, quero fazer pontos nos dados!". Logo apareceram três números seis nos dados, e o mesmo aconteceu nove vezes que jogou os dados. O doido não se contentou, juntou mais um pecado ao pecado e continuou a blasfemar: "Se é verdade que Francisco é esse santo, que caia uma espada hoje no meu corpo: se ele não for santo, vou sair incólume!". Não tardou a ira de Deus, e pelo juízo divino sua oração se lhe imputada como pecado. Acabado o jogo, como ofendeu um sobrinho, o rapaz pegou uma espada e a cravou nas vísceras do tio. O celerado morreu naquele mesmo dia, tornando-se escravo do inferno e filho das trevas. Os blasfemos devem temer, e não pensem que as palavras voam com o vento ou que falta quem castigue as injúrias feitas aos santos.

130. Uma mulher, chamada Sibila, depois de ter sofrido por muitos anos de cegueira, foi levada ao sepulcro do santo, cega e triste. Recuperando a visão, voltou alegre e exultante para casa.

131. Na aldeia de Vicalvi, da diocese de Sora, uma menina cega de nascimento foi levada pela mãe a um oratório de São Francisco, invocou o nome de Cristo e mereceu, pelo favor de São Francisco, obter a visão que nunca tivera.

132. Na cidade de Arezzo, uma mulher que não enxergara durante sete anos recuperou a visão em uma igreja de São Francisco construída perto da cidade.

133. Na mesma cidade, o filho de uma mulher pobre foi iluminado por São Francisco, a quem a mulher fizera um voto.

134. Um cego de Spello reencontrou a visão perdida havia muito tempo junto do túmulo do sagrado corpo.

135. Em Poggibonsi, na diocese de Florença, uma mulher cega começou a visitar um oratório de São Francisco, por causa de uma revelação. Levada para lá, estava suplicantemente prostrada diante do altar quando recebeu a visão e voltou sozinha para casa.

136. Uma outra mulher, de Camerino, tinha perdido toda a visão do olho direito, mas seus pais puseram sobre ele um pano que São Francisco tinha tocado, e assim, depois de fazer um voto, agradeceram ao Senhor Deus e a São Francisco por ela ter recuperado a visão.

137. Algo semelhante aconteceu com uma mulher de Gúbio que, feito um voto, alegrou-se pela recuperação da vista.

138. Um cidadão de Assis, cego fazia cinco anos, que sempre fora familiar de São Francisco durante sua vida, estava orando ao bem-aventurado e recordando sua antiga amizade quando tocou o sepulcro e foi libertado.

139. Albertino de Narni, perdendo a visão, tinha as pálpebras caídas no rosto, fez um voto a São Francisco e mereceu ser iluminado e curado.

140. Um moço, chamado Villa, não podia andar nem falar. A mãe fez um voto por ele e fez uma imagem de cera, levando-o com todo respeito ao lugar onde São Francisco repousa. Quando voltou para casa, encontrou o filho andando e falando.

141. Um homem, no bispado de Perusa, totalmente privado da fala, andava sempre com a boca aberta, bocejando horrorosamente. Tinha a garganta inchada e túmida. Quando chegou ao lugar onde descansa o santíssimo corpo, e quis chegar ao sepulcro subindo os degraus, vomitou muito sangue e ficou completamente livre, começando a falar e a fechar e abrir a boca como convém.

142. Uma mulher tinha uma pedra na garganta e, por causa de uma grande inflamação, ficou com a língua seca. Não conseguia falar, nem comer ou beber. Tendo tomado muitos remédios sem sentir nenhuma melhora ou alívio, finalmente fez um voto a São Francisco no coração e, de repente, abrindo a garganta, expeliu a pedra.

143. Bartolomeu da aldeia de Arpino, na diocese de Sora, privado da audição durante sete anos, invocou São Francisco e a recebeu de volta.

144. Na Sicília, uma mulher da aldeia de Piazza, privada da fala, rezou com a lingua do coração a São Francisco e recuperou a desejada graça de poder falar.

145. Na cidade de Nicosia, um sacerdote levantou-se de manhã como costumava e, quando um leitor lhe pediu a costumeira bênção, respondeu murmurando não sei que barbaridade. Assim endoidou, foi levado para casa e perdeu de uma vez a fala por um mês. Por sugestão de um homem de Deus, fez um voto a São Francisco, voltou a falar e ficou livre da insânia.