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116. Num convento dos frades de Nápoles, havia um frade chamado
Roberto, cego havia muitos anos. Cresceu-lhe nos olhos uma carne
supérflua, que impedia mexer e usar as pálpebras. Uma vez
juntaram-se aí muitos frades de fora, que iam para diversas partes do
mundo e o bem-aventurado pai Francisco, exemplo e espelho de santa
obediência, para animá-los na viagem com a força de um novo
milagre, curou o referido frade na sua presença da seguinte maneira:
Uma noite Frei Roberto estava deitado, esperando a morte, e sua
alma fora encomendada, quando eis que apareceu o santo pai com três
frades de santidade perfeita, santo Antônio, Frei Agostinho e
Frei Tiago de Assis, que, como o haviam seguido perfeitamente
quando viviam, também o acompanhavam alegremente depois da morte.
São Francisco pegou uma faca e cortou a carne supérflua,
devolveu-lhe a visão perdida e o tirou da boca da morte. Também lhe
disse: "Roberto, meu filho, a graça que te fiz é um sinal para os
frades que estão partindo para nações longínquas, de que eu vou na
frente deles e vou acompanhar seus passos". "Que vão,
acrescentou, "cumprindo felizes e alegres a obediência que
receberam! Que os filhos saboreiem a obediência, principalmente os
que, deixando a própria terra, esquecem a pátria terrena porque têm
um precursor esperto e dedicado!".
117. Em Zancato, aldeia perto de Anagni, o cavaleiro Geraldo
tinha perdido totalmente o uso dos olhos. Aconteceu que dois frades
menores, voltando do estrangeiro, foram pedir hospedagem em sua casa.
Acolhidos com honra por toda a família e tratados com toda bondade,
nem perceberam a cegueira do anfitrião. Foram depois para a casa dos
frades, que ficava a seis milhas e lá estiveram oito dias. Uma
noite, São Francisco apareceu a um desses frades em sonhos,
dizendo: "Levanta-te, vai depressa com o teu companheiro para a
casa do teu anfitrião, que me honrou em vós, e por minha causa vos
deu hospitalidade. Retribui-lhe a graça da amável acolhida e
prestai honra a quem vos honrou! Pois ele é cego, não enxerga, e
isso foi merecido pelos seus pecados, que ainda não confessou. As
trevas da morte o esperam, estão preparados eternos e intermináveis
sofrimentos. Está preso a isso por culpas que ainda não
abandonou". Quando o pai desapareceu, o filho levantou-se atônito
e correu para cumprir a ordem com seu companheiro. Voltaram juntos ao
seu anfitrião, e o que vira contou tudo em ordem. O homem ficou
bastante espantado, confirmando que tudo que ouvira era verdade.
Arrependeu-se até as lágrimas, confessou-se espontaneamente,
prometeu corrigir-se. Renovado dessa maneira o homem interior,
recebeu na mesma hora a luz dos olhos. A grandeza desse milagre
espalhou-se por toda parte e encorajou todos os que o ouviram a darem
hospitalidade.
118. Em Tebas, na România, uma mulher cega que jejuava a pão e
água na vigília de São Francisco, foi levada pelo seu marido à
igreja dos frades na manhã da festa. Durante a missa, abriu os olhos
na elevação do Corpo de Cristo, enxergou com clareza e adorou com
muita devoção. Nessa mesma adoração proclamou alto: "Graças a
Deus e a seu santo, porque estou vendo o corpo de Cristo!". Tendo
sido todos os presentes transformados numa voz da exultação,
terminada a celebração, a mulher voltou para sua casa guiada por sua
própria visão. Cristo foi luz para Francisco enquanto viveu e,
como então, delegou-lhe todo seu poder maravilhoso, tanto que até
agora deseja dar toda glória a seu corpo.
119. Na Campânia, um menino de catorze anos da aldeia de Poffi,
por uma desgraça imprevista, perdeu totalmente o olho esquerdo. A
força da dor expeliu de tal forma o olho de sua órbita que, por oito
dias, quase secou, pendendo para fora por uma película de um dedo de
espessura. Quando só restava cortar fora, e estava praticamente
desenganado pelos médicos, o pai dele voltou-se de toda mente para
São Francisco. Ele, incansável protetor dos infelizes, não
desiludiu as preces do suplicante. Com sua admirável virtude
restituiu o olho seco ao seu lugar, devolvendo-lhe a luminosidade
desejada dos raios de luz.
120. Na mesma região, em Castro, caiu do alto uma grossa trave e
atingiu com gravidade a cabeça de um sacerdote, cegando o seu olho
esquerdo. Jogado no chão, ele começou a gritar tristemente por
São Francisco, dizendo: "Socorro, pai santíssimo, para que eu
possa ir a tua festa, como prometi aos teus frades!". Pois era a
vigília do santo. Levantou-se bem depressa, completamente curado,
e irrompeu em exclamações de louvor e de alegria, transformando em
júbilo o espanto de todos os circunstantes, que lamentavam o
acontecido. Foi à festa, contando a todos como provara a clemência
e o poder do santo. Por isso, aprendam todos a venerar com devoção
aquele que sabem que ajuda tão facilmente os que o veneram.
121. Quando o bem-aventurado Francisco ainda vivia, uma mulher de
Narni, atacada pela cegueira, recuperou milagrosamente a vista por um
sinal da cruz feito pelo santo.
122. Um homem de monte Gargano, chamado Pedro Romano, estava
cortando lenha com um machado em sua vinha quando se machucou em um
olho, dividindo-o pelo meio de tal forma que uma parte do globo pendia
para fora. Como ficou desesperado nessa situação de conseguir
auxílio de alguém, prometeu que não comeria nada na festa de São
Francisco se ele o ajudasse. O santo de Deus repôs o olho no lugar
na mesma hora, devolvendo-lhe a antiga luminosidade.
123. O filho de um nobre, cego de nascimento, conseguiu a desejada
visão pelos méritos de São Francisco. Por causa disso, recebeu o
nome de Iluminato. Quando teve idade, entrou na Ordem de São
Francisco e, no fim, concluiu com um fim mais santo uma vida que
iniciara santamente.
124. Bevagna é uma nobre aldeia que fica no vale de Espoleto.
Nela morava uma mulher santa com uma filha virgem ainda mais santa e
uma neta muito devota de Cristo. São Francisco as honrou muitas
vezes hospedando-se com elas. Pois a mulher também tivera um filho
na Ordem, homem de perfeição consumada. Mas uma delas, a neta,
estava sem a luz dos olhos exteriores, ainda que os interiores, com os
quais se vê Deus, fossem iluminados por uma maravilhosa clareza.
Uma vez pediram a São Francisco que tivesse compaixão da doença
dela e também considerasse o trabalho delas. Ele ungiu três vezes os
olhos da cega com a sua saliva, em nome da Trindade, e lhe devolveu a
desejada luz.
125. Em Città della Pieve vivia um jovem mendigo surdo e mudo de
nascença j. Tinha a língua tão curta e pequena que muitos a tinham
procurado sem conseguir enxergá-la. Um homem chamado Marcos
recebeu-o como hóspede, por amor de Deus. Vendo que lhe faziam o
bem, começou a morar normalmente com eles. Uma noite o referido
homem estava jantando com sua mulher e, diante do menino, disse à
esposa: "Acho que seria o maior milagre se São Francisco
devolvesse a ele a capacidade de ouvir e de falar". Et acrescentou:
"Faço voto a Deus de que, se São Francisco se dignar fazer
isso, por amor dele vou pagar todas as despesas deste menino enquanto
ele viver". Coisa admirável! De repente a língua cresceu e ele
falou, dizendo: "Viva São Francisco, que estou vendo aí no alto
e me deu fala e ouvido! Que é que vou dizer ao povo?". Seu
benfeitor respondeu: "Louvarás a Deus e salvarás muitas
pessoas". As pessoas daquela terra, que já o conheciam antes,
ficaram cheias da maior admiração.
126. Uma mulher da região da Apúlia tinha perdido a fala fazia
bastante tempo e respirava com dificuldade. Uma noite, quando estava
dormindo, apareceu-lhe a Virgem Maria, dizendo: "Se queres ficar
curada, vai à igreja de São Francisco em Venosa, que lá
receberás a desejada saúde!". A mulher se levantou e, como não
podia respirar nem falar, fez sinais aos pais de que desejava ir a
Venosa. Eles concordaram e foram com ela. Quando ela entrou na
igreja de São Francisco, pedindo a ajuda dele de todo coração,
vomitou na mesma hora uma massa de carne, na frente de todos, e ficou
admiravelmente livre.
127. Na diocese de Arezzo uma mulher que estava muda já havia sete
anos dirigia-se continuamente aos ouvidos de Deus, pedindo que ele
lhe devolvesse a fala. Quando estava dormindo, apareceram dois frades
vestidos de vermelho e a exortaram suavemente a consagrar-se a São
Francisco. Ela obedeceu de boa vontade, fez o voto no coração,
porque não podia falar, e logo, acordou do sono e recuperou a fala.
128. Um juiz, chamado Alexandre, tinha falado mal dos milagres de
São Francisco e, para admiração de todos, ficou por mais de seis
anos privado da fala. Castigado pelo pecado que cometera, ficou muito
arrependido e se condoía de ter falado contra os milagres do santo.
Então não perdurou a indignação do santo, mas restituiu a fala aos
que se arrependera e pedira perdão humildemente, e o recebeu em sua
graça. Desde então consagrou a língua blasfema aos louvores do
santo pai, ficando muito mais devoto por causa do castigo.
129. Já que falamos de um blasfemo, lembro outra coisa boa de
contar. Um cavaleiro chamado Gineldo, de Borgo, na província de
Massa, falava muito mal das obras e milagres de São Francisco.
Dirigia muitos opróbrios aos peregrinos que vinham recordá-lo e
gritava contra os frades. Um dia, estava jogando dados e, cheia de
doidice e incredulidade, disse aos que estavam com ele: "Se
Francisco é santo, quero fazer pontos nos dados!". Logo
apareceram três números seis nos dados, e o mesmo aconteceu nove
vezes que jogou os dados. O doido não se contentou, juntou mais um
pecado ao pecado e continuou a blasfemar: "Se é verdade que
Francisco é esse santo, que caia uma espada hoje no meu corpo: se
ele não for santo, vou sair incólume!". Não tardou a ira de
Deus, e pelo juízo divino sua oração se lhe imputada como pecado.
Acabado o jogo, como ofendeu um sobrinho, o rapaz pegou uma espada e
a cravou nas vísceras do tio. O celerado morreu naquele mesmo dia,
tornando-se escravo do inferno e filho das trevas. Os blasfemos devem
temer, e não pensem que as palavras voam com o vento ou que falta quem
castigue as injúrias feitas aos santos.
130. Uma mulher, chamada Sibila, depois de ter sofrido por muitos
anos de cegueira, foi levada ao sepulcro do santo, cega e triste.
Recuperando a visão, voltou alegre e exultante para casa.
131. Na aldeia de Vicalvi, da diocese de Sora, uma menina cega de
nascimento foi levada pela mãe a um oratório de São Francisco,
invocou o nome de Cristo e mereceu, pelo favor de São Francisco,
obter a visão que nunca tivera.
132. Na cidade de Arezzo, uma mulher que não enxergara durante
sete anos recuperou a visão em uma igreja de São Francisco
construída perto da cidade.
133. Na mesma cidade, o filho de uma mulher pobre foi iluminado por
São Francisco, a quem a mulher fizera um voto.
134. Um cego de Spello reencontrou a visão perdida havia muito
tempo junto do túmulo do sagrado corpo.
135. Em Poggibonsi, na diocese de Florença, uma mulher cega
começou a visitar um oratório de São Francisco, por causa de uma
revelação. Levada para lá, estava suplicantemente prostrada diante
do altar quando recebeu a visão e voltou sozinha para casa.
136. Uma outra mulher, de Camerino, tinha perdido toda a visão do
olho direito, mas seus pais puseram sobre ele um pano que São
Francisco tinha tocado, e assim, depois de fazer um voto,
agradeceram ao Senhor Deus e a São Francisco por ela ter recuperado
a visão.
137. Algo semelhante aconteceu com uma mulher de Gúbio que, feito
um voto, alegrou-se pela recuperação da vista.
138. Um cidadão de Assis, cego fazia cinco anos, que sempre fora
familiar de São Francisco durante sua vida, estava orando ao
bem-aventurado e recordando sua antiga amizade quando tocou o sepulcro
e foi libertado.
139. Albertino de Narni, perdendo a visão, tinha as pálpebras
caídas no rosto, fez um voto a São Francisco e mereceu ser
iluminado e curado.
140. Um moço, chamado Villa, não podia andar nem falar. A mãe
fez um voto por ele e fez uma imagem de cera, levando-o com todo
respeito ao lugar onde São Francisco repousa. Quando voltou para
casa, encontrou o filho andando e falando.
141. Um homem, no bispado de Perusa, totalmente privado da fala,
andava sempre com a boca aberta, bocejando horrorosamente. Tinha a
garganta inchada e túmida. Quando chegou ao lugar onde descansa o
santíssimo corpo, e quis chegar ao sepulcro subindo os degraus,
vomitou muito sangue e ficou completamente livre, começando a falar e
a fechar e abrir a boca como convém.
142. Uma mulher tinha uma pedra na garganta e, por causa de uma
grande inflamação, ficou com a língua seca. Não conseguia falar,
nem comer ou beber. Tendo tomado muitos remédios sem sentir nenhuma
melhora ou alívio, finalmente fez um voto a São Francisco no
coração e, de repente, abrindo a garganta, expeliu a pedra.
143. Bartolomeu da aldeia de Arpino, na diocese de Sora, privado
da audição durante sete anos, invocou São Francisco e a recebeu de
volta.
144. Na Sicília, uma mulher da aldeia de Piazza, privada da
fala, rezou com a lingua do coração a São Francisco e recuperou a
desejada graça de poder falar.
145. Na cidade de Nicosia, um sacerdote levantou-se de manhã como
costumava e, quando um leitor lhe pediu a costumeira bênção,
respondeu murmurando não sei que barbaridade. Assim endoidou, foi
levado para casa e perdeu de uma vez a fala por um mês. Por sugestão
de um homem de Deus, fez um voto a São Francisco, voltou a falar e
ficou livre da insânia.
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