Capítulo 16. Sobre insanos e endemoninhados.

150. Pedro de Foligno, que tinha ido visitar certa vez o santuário de São Miguel, provando da água de uma fonte, pareceu que tinha bebido demônios. Ficou obsesso por três anos, machucado no corpo, dizendo coisas péssimas e querendo fazer coisas horrorosas. Finalmente, mal tocou com a mão o sepulcro do bem-aventurado pai e invocou sua ajuda humildemente, e já ficou maravilhosamente livre dos demônios que o haviam atormentado tão cruelmente.

151. A uma mulher da cidade de Narni que tinha um demônio, mandou que fizesse o sinal da cruz. Como ela, perdida de mente, não soubesse absolutamente como fazer, o bem-aventurado pai fez-lhe o sinal da cruz e espantou todo o seu sofrimento diabólico.

152. Na Marítima, uma mulher sofria de loucura fazia cinco anos, e ficou sem enxergar e sem escutar. Estraçalhava a roupa com os dentes, não tinha medo nenhum nem do fogo nem da água, e sofria ataques horríveis de epilepsia. Uma noite, dispondo a divina misericórdia que ela fosse poupada, teve um sono salutar. Pois viu o bem-aventurado Francisco sentado em um trono muito bonito, diante do qual estava prostrada pedindo suplicantemente a saúde. Como o santo não correspondia aos pedidos, a mulher fez um voto, prometendo que por seu amor, quanto pudesse, nunca iria negar uma esmola. O santo logo aceitou o voto, semelhante ao que ele fizera em seu tempo com Deus, e marcando-a com o sinal da cruz, restituiu-lhe toda a saúde.

153. Em Nórcia, uma jovem sofria havia muito tempo um mal estar: no fim, revelou-se que estava possessa do demônio. Pois muitas vezes rangia os dentes e feria a si mesma, não evitava os precipícios nem tinha medo de perigos. Perdeu a fala e o uso dos membros, não parecendo mais um ser racional. Seus pais, angustiados por sua descendência, levaram-na a Assis amarrada em uma maca em cima de um jumento. No dia da Circumcisão do Senhor, enquanto se celebrava a Missa solene e a moça estava prostrada no chão junto ao altar de São Francisco, de repente vomitou alguma coisa maldita. Logo depois ficou em pé, beijou o altar de São Francisco e plenamente libertada de toda doença, exclamou em voz alta: "Louvai a Deus e ao seu santo (cfr. At 10,1.2)!".

154. O filho de um nobre sofria do tormento doloroso da epilepsia. Espumava pela boca, olhava para tudo com um olhar estranho, e com o abuso dos membros cuspia algo de diabólico. Os pais imploravam o santo de Deus, pedindo remédio e oferecendo seu pobre filho à sua compaixão e piedade. Uma noite o amigo piedoso apareceu à mãe, que estava dormindo, e lhe disse: "Eu vim salvar o teu filho!". Ouvindo isso, a mulher acordou e se levantou tremendo, mas encontrou o filho perfeitamente curado.

155. Acho que não posso calar-me sobre o maravilhoso poder que teve durante sua vida sobre os demônios. Na aldeia de San Gimignano, o homem de Deus, quando estava pregando o Reino dos céus, hospedou-se na casa de um homem temente a Deus, cuja mulher, como todos sabiam, era possessa do demônio. Rogaram por ela ao bem-aventurado Francisco, que, temendo o aplauso das pessoas, recusou-se terminantemente a fazer isso. No fim, movido pelos numerosos pedidos, colocou nos três ângulos três frades que estavam com ele para rezarem, retirando-se para orar no quarto ângulo. Quando acabou de rezar, chegou-se confiantemente à mulher, que era terrivelmente atormentada, e ordenou ao demônio, em nome de Jesus Cristo, que saísse. À sua ordem, ele saiu com tanta rapidez e furor que o homem de Deus julgou que tinha sido iludido. Por isso, saiu envergonhado daquele lugar. Quando passou outra vez por aquela aldeia, aquela mulher ia pela praça clamando atrás dele, beijando os rastos de seus pés, para que se dignasse falar com ela. O santo, recebendo a garantia de muitos de que ela tinha sido libertada, só então, concordou em falar com ela, porque muitos estavam pedindo.

156. Numa outra ocasião, estando o santo em Città di Castello, uma mulher que tinha o demônio foi levada à casa em que ele estava. Estava lá fora, rangia os dentes e perturbava todo mundo com seus gritos. Mas muitos rogaram ao santo de Deus por sua libertação, lamentando que já estavam atormentados havia muito tempo por aquela loucura. O bem-aventurado Francisco enviou-lhe um frade que estava com ele, querendo experimentar se era o demônio ou algum engano da mulher. Mas ela, sabendo que não era São Francisco, caçoou e fez pouco dele. O pai santo estava dentro da casa rezando. Quando acabou a oração, saiu ao encontro da mulher. Não agüentando sua presença, ela se revirava violentamente no chão. O santo de Deus impôs ao demônio que saísse por obediência. Saiu na mesma hora, e deixou a mulher incólume.