Capítulo 2. Sobre o milagre dos estigmas e o modo da aparição do Serafim que lhe apareceu

2. O homem novo (cfr. Ef 4,24), Francisco, ficou famoso por um novo e estupendo milagre: por um singular privilégio, jamais concedido nos séculos anteriores, foi marcado e ornado pelos sagrados estigmas tornando-se semelhante em seu corpo mortal ao corpo do Crucificado (cfr. Fl 3,10; Rm 7,24). Tudo o que se possa humanamente dizer dele sempre estará aquém do louvor que ele merece. Não temos que buscar razões nem quem foi seu exemplo, porque ele é único. Todo esforço do homem de Deus, tanto em público como em particular, era para com a cruz do Senhor; e, desde que começou a batalhar pelo Crucificado, brilharam nele diversos mistérios da cruz. Quando, no começo de sua conversão, resolveu despedir-se de todos os enganos deste mundo, do lenho da cruz Cristo dirigiu-se ele, enquanto orava, soltando pela boca da imagem estas palavras: "Francisco, vá reparar minha casa que, como vês, está sendo toda destruída". Desde então ficou profundamente gravada em seu coração a lembrança da paixão do Senhor e, realizada uma enorme conversão interior, sua alma começou a derreter-se, quando o amado lhe falou (cfr. Ct 5,6). Será que não foi na mesma cruz que ele se fechou quando assumiu o hábito da penitência, que expressava a imagem da cruz? Essa roupa, embora lhe conviesse mais ao seu propósito porque era um desejoso da pobreza, comprovou mais do que tudo como vivia nele o mistério da cruz, pois, na medida em que sua mente vestira por dentro o Senhor crucificado, assim o seu corpo vestiu por fora a cruz de Cristo (cfr. Gl 6,14), para que seu exército lutasse por Deus usando a insígnia com que Deus debelara as potências do mal.

3. Não é verdade que Frei Silvestre, um de seus primeiros irmãos, homem de virtude consumada em tudo, viu sair de sua boca uma cruz de ouro, cujos braços abarcavam o mundo inteiro de forma admirável? Está escrito e comprovado por um relatório fiel que Frei Monaldo, famoso por sua vida, costumes e austeridade, viu uma vez com seus olhos corporais São Francisco crucificado, durante uma pregação de Santo Antônio sobre a cruz. Não é verdade que ele tinha o costume, e prescreveu a seus primeiros filhos que, quando vissem algo parecido com a cruz, prestassem a devida honra e a reverência? O sinal de que mais gostava era o Tau, único com que assinava os papéis de suas cartas e pintava as parades das celas. Frei Pacífico, homem de Deus, agraciado por visões do céu, viu com os olhos da carne um grande Tau na testa do santo pai, pintado com diversas cores e brilhando como ouro. Como é digno, tanto da razão humana como da fé católica que uma pessoa que tinha sido marcada com o admirável amor da cruz também se tornasse admirável pela honra da cruz! Por isso não há nada de mais verdadeiro do que o que nos foi contado sobre os estigmas da cruz.

4. O modo da aparição foi este. Dois anos antes de entregar o espírito ao céu, no eremitério chamado Alverne, na província da Toscana, onde já estava todo entregue ao retiro da contemplação da glória celeste, teve uma visão de um Serafim posto numa cruz, com seis asas e pairando sobre ele, com as mãos e os pés pregados na cruz. Duas asas elevavam-se acima da cabeça, duas se estendiam para voar, duas cobriam o corpo todo (cfr. Is 6,2). Quando viu isso ficou muito espantado mas, como não sabia o significado da visão, seu coração sentiu uma mistura de tristeza e de gozo. Alegrava-se pelo aspecto gracioso com que parecia ser olhado pelo Serafim, mas a crucificação o aterrorizava. Pôs-se a pensar profundamente no que aquele oráculo poderia significar, e seu espírito ficou ansioso por descobrir alguma coisa. Mas, enquanto dava voltas fora de si, perdeu a compreensão do que descobrira e nele se manifestou o sentimento. Pois logo começaram a aparecer em suas mãos e pés sinais de cravos, como vira um pouco antes no homem crucificado no ar. Suas mãos e pés dos pés (cfr. Jo 20,25), mas as pontas estavam do outro lado. As cabeças dos cravos, nas mãos e nos pés, eram redondas e negras, mas as pontas eram compridas e rebatidas, surgindo da própria carne e sobrando para fora do corpo. O lado direito também parecia perfurado por uma lança, atravessado por uma cicatriz que, muitas vezes, quando sangrava, molhava sua túnica e suas calças com o sangue sagrado. Pois Rufino, homem de Deus de pureza angélica, numa vez em que o estava coçando com filial afeto, escorregou a mão e apertou sensivelmente a chaga. Não foi pouco o que o santo de Deus sofreu com esse toque. Afastou de si a mão e pediu ao Senhor que o poupasse.

5. Depois de dois anos, quando, em um fim feliz, ele trocou o vale da miséria pela pátria bem-aventurada, a notícia deste fato extraordinário chegou aos ouvidos das pessoas. Houve um ajuntamento de muita gente, louvando e glorificando o nome do Senhor (cfr. Lc 2,13.20; Sl 85,9). A cidade inteira de Assis acorreu como uma multidão, apressou-se a região inteira n, sequiosos por ver aquele espetáculo novo, que Deus acabara de colocar neste mundo. A novidade do milagre transformava o pranto em júbilo e arrebatava a visão corporal em estupor e êxtase. Contemplavam o corpo bem-aventurado de Cristo adornado pelos estigmas: ele tinha nas mãos e nos pés não os furos dos cravos mas o s próprios cravos, feitos de sua própria carne pelo poder admirável de Deus, e até como nascidos na sua carne, de modo que, de qualquer lado que fossem empurrados, logo ressaltavam do outro lado, como se fossem um mesmo nervo. E também viam o lado vermelho de sangue. O que estamos dizendo nós vimos e tocamos com nossas mãos (cfr. 1Jo 1,1) e o descrevemos de nosso punho. Com os olhos cheios de lágrimas registramos o que afirmamos com os lábios, e sustentamos em todo tempo o que uma vez juramos depois de ter tocado os objetos sacrossantos. Durante da vida do santo diversos de nossos irmãos o viram, mas, quando ele morreu, foram mais de cinqüenta que o veneraram, com inúmeros seculares. Por isso, que não haja nenhuma incerteza, que não haja dúvida alguma de que a bondade sempiterna nos fez este favor! Prouvera a Deus que por esse amor seráfico muitos membros se unissem a Cristo cabeça (cfr. 1Cr 12,12; Ef 1,22), e que nele tivessem as armas necessárias para o combate antes de serem levados para o Reino em semelhante glória! Quem é que em sã consciência vai negar que só a Cristo pertence essa glória? Mas que a pena imposta aos incrédulos satisfaça os menos devotos e torne mais firmes os que têm devoção.

6. Havia em Potenza, cidade do reino da Apúlia, um clérigo chamado Rogério, homem honrado e cônego da igreja principal. Abatido por longa doença, entrou um dia, para rezar pela saúde, em uma igreja onde havia um quadro de São Francisco que representava os gloriosos estigmas. Chegou e se ajoelhou suplicante para rezar com toda devoção. Mas, quando olhou para os estigmas do santo, começou a pensar bobagens e sua razão não tratou de repelir o aguilhão da dúvida, que entrou despercebidamente. Iludido pelo inimigo antigo, de coração dilacerado, começou a pensar: "Será que isso é verdadeiro, que esse santo brilhou mesmo por esse santo milagre, ou foi uma piedosa ilusão dos seus amigos? "Deve ser uma simulação, dizia, uma invenção e talvez uma fraude criada pelos frades. Seria demais para o senso humano e estaria bem longe de uma razão sadia". Como é louco o homem! Tu que nada sabes deverias venerar mais humildemente o que é divino quanto menos podes compreender! Devias saber, se tens razão, que é facílimo para Deus renovar sempre o mundo com milagres, agir sempre em nós t (cfr. 2Cor 4,12) para sua glória, fazer coisas que não fez com outros. E então? Deus mandou uma dura ferida ao que estava pensando essas frivolidades, para que aprendesse pelo que sofria a não blasfemar. Foi atingido de repente na palma da mão esquerda, pois era canhoto, e ouviu o som como o de uma flecha lançada por uma bésta. Perpassado de dor pela ferida e de espanto pelo ruído, tirou a luva (pois estava de luvas). Antes não tinha nenhuma ferida na palma, mas viu no meio da mão uma chaga como um golpe de flecha. Vinha daí um ardor tão forte que ele parecia desmaiar de febre. O espantoso é que não havia nenhum sinal na luva, de modo que à chaga escondida do coração correspondia à pena de uma ferida escondida.

7. Depois disso ele gritou e urrou por dois dias, levado por uma dor muito cruel, e explicou a todo mundo a mancha de seu coração incrédulo. Confessou que acreditava verdadeiramente que os estigmas de São Francisco eram sagrados, e jurou que todos os fantasmas da dúvida já o tinham abandonado. Pediu suplicantemente ao santo de Deus que o ajudasse por seus sagrados estigmas, juntando a muitas orações o sacrifício de muitas lágrimas. Foi maravilhoso! Quando se livrou da incredulidade, a cura do corpo veio com a cura da mente. Parou toda a dor, acabou a febre e não ficou nem marca do ferimento. Tornou-se um homem humilde diante de Deus, devoto do santo e para sempre afeiçoado aos irmãos da Ordem. Esse fato milagroso tão solene foi atestado e confirmado sob juramento, e principalmente confirmado pelo bispo local. Bendito o admirável poder de Deus, que se manifestou na magnífica cidade de Potenza!

8. As nobres senhoras romanas, viúvas ou casadas, principalmente as que podem ser generosas pelo privilégio da riqueza e que têm o amor a Cristo, têm o costume de reservar em suas casas um quartinho ou refúgio apropriado para a oração, onde conservam algum quadro ou imagem do santo a quem têm especial devoção. Uma dessas senhoras, que unia a nobreza da virtude à do sangue, escolhera por patrono a São Francisco, cujo quadro tinha no seu oratório particular, onde ela rezava a Deus no oculto (Mt 6,6). Certo dia, devotamente entregue à oração, procurou atentamente com os olhos os sinais sagrados mas, não conseguindo encontrá-los, começou a ficar dolorosamente admirada. Mas não era de admirar que não houvesse no quadro o que o pintor não pintara. A mulher levou aquilo em seu coração por diversos dias sem falar com ninguém, olhando sempre para o quadro e se afligindo. Mas eis que, de repente, apareceram um dia aqueles sinais magníficos nas mãos, como costumam colocar nas outras figuras, suprindo a virtude humana o que fora negligenciado pela arte.

9. Trêmula e muito maravilhada, a mulher chamou depressa sua filha, que também seguia a mãe no santo propósito e, mostrando-lhe o que tinha acontecido, perguntou diligentemente se até então tinha visto a imagem sem os estigmas. A jovem afirmou e jurou que antes não havia estigmas mas que agora as chagas apareciam. Entretanto, como a mente humana muitas vezes nos leva a cair e põe a verdade em dúvida, a senhora ficou outra vez com uma dúvida ansiosa, achando que a imagem podia ter tido os sinais desde o começo. Então a virtude de Deus fez um segundo milagre para que o primeiro não fosse desprezado. Os sinais desapareceram de repente, a imagem ficou despida de privilégios, para que o fato seguinte confirmasse o que já tinha acontecido. Eu mesmo conheci essa senhora cheia de virtudes e confesso que vi nela, vestida com as roupas do século, uma alma consagrada ao Cristo Senhor.

10. Entretanto, desde o seu despertar, a razão humana se deixa enredar por sensações grosseiras ou por fantasias falaciosas, e, dominada por uma imaginação instável, se vê obrigada, às vezes, a pôr em dúvida o que tem que acreditar. É por isso que não só achamos difícil crer nos gestos maravilhosos dos santos mas nossa própria fé encontra muitas dificuldades nas coisas da salvação. Um frade menor, pregador por ofício e de vida louvável, firmemente convencido dos santos estigmas, começou a sentir o escrúpulo da dúvida sobre o santo milagre, quando estava fazendo o que costumava ou pensando em outras coisas. Podes imaginar a luta que se levantou dentro dele, com a razão defendendo a verdade mas a fantasia sugerindo o contrário. A razão sustentada por muitos apoios, admite que é assim como se diz, e, na falta de ulteriores argumentos, crê na verdade proposta pela santa Igreja. Do outro lado, conjuram as sombras sensuais contra o milagre, que parece totalmente contrário à natureza e algo inaudito desde todos os séculos. Uma noite, entrou na cela cansado dessa luta, levando consigo uma razão enfraquecida e uma imaginação ainda mais forte. Quando estava dormindo, São Francisco lhe apareceu com os pés cheios de barro, humildemente duro e pacientemente irado. Disse: "Que são esses conflitos em tua alma, que são essas dúvidas indignas? Olha minhas mãos (cfr. Jo 20,27) e meus pés!" Ele via as mãos perfuradas, mas não enxergava os estigmas dos pés por causa do barro. "Tira a lama de meus pés, disse o santo, para ver o lugar dos cravos (cfr. Jo 20,25)!" Ele se viu tomando os pés do santo, limpando o barro e tocando com as mãos o lugar dos cravos. Logo que acordou, o frade se banhou em lágrimas e, por uma confissão pública, limpou os sentimentos enlameados que tivera.

11. Para que não se julgue que os sagrados estigmas tenham sido apenas a marca de uma força daquele invencibilíssimo soldado de Cristo, além do sinal de uma prerrogativa especial ou de um privilégio do amor supremo, que o mundo inteiro não deixa de admirar, mas para que se veja como os sinais foram uma arma do poder de Deus, pode-se compreender a novidade mais evidente do milagre por um fato que aconteceu na Espanha, no reino de Castela. Viviam lá dois homens que mantinham uma infindável disputa, e sua amargura não encontrava sossego, não dava para acalmar suas ardorosas injúrias, nem arranjar remédio por uma hora que fosse, a não ser que um padecesse uma morte terrível pela mão do outro. Os dois andavam encouraçados e com muitos companheiros para armar ciladas um para o outro, porque não dava para cometer o crime em público. Uma noite, estando já bem escuro, aconteceu de passar um homem de vida muito honesta e de boa fama pelo caminho em que um tinha preparado uma emboscada para o outro. Ele ia indo depressa para a igreja dos frades, como costumava, para rezar depois da hora das completas, porque tinha muita devoção a São Francisco, quando se levantaram os filhos das trevas contra o filho da luz, que pensaram ser o inimigo que deviam matar. Traspassaram-no mortalmente por toda parte com suas espadas e o deixaram semimorto. No fim, o crudelíssimo inimigo cravou-lhe a espada profundamente na garganta e, não conseguindo arrancá-la, deixou-a na ferida.

12. Acorreu a vizinhança de todos lados e, levantando seus clamores até o céu, deplorou a morte do inocente. Mas como ainda havia no homem o sopro da vida, prevaleceu o conselho dos médicos de não arrancar a faca da garganta. Talvez tenham feito isso por causa da confissão, esperando que pudesse confessar-se por algum sinal. Os médicos trabalharam durante toda a noite e até de manhã para limpar o sangue e curar os ferimentos, por causa dos golpes múltiplos e profundos mas, como não conseguiram nada, desistiram da cura. Os frades menores estavam com os médicos ao lado da cama, tomados de uma dor enorme, à espera da morte do amigo. Então, tocou o sino dos frades para as matinas. Quando a mulher dele ouviu o sino, correu gemendo para a cama, dizendo: "Meu senhor, levanta-te depressa, vai para as matinas, porque o teu sino te chama!". Imediatamente, aquele que todos criam moribundo deu dois profundos suspiros e tentou balbuciar algumas palavras. Levantando a mão para a espada cravada na garganta, parecia indicar a alguém que devia extraí-lo. Que milagre! De repente a espada voou de onde estava e, diante de todos, foi se cravar na porta da casa como que lançada por um homem muito forte. O homem levantou-se e, perfeitamente incólume, como se estivesse acordando, contou as maravilhas do Senhor.

13. Tão grande estupor tomou conta do coração de todos, que sentiam-se todos fora de si, crendo que o que viam era por uma visão fantástica. Então o que fora curado disse: "Não temais, não acheis que foi ilusão o que vistes, porque São Francisco, de quem sempre fui devoto, acaba de sair daqui e me curou de todos os ferimentos. Aplicou seus sacratíssimos estigmas a cada uma de minhas feridas, aliviando com sua suavidade todos os machucados. Pelo seu contato, como vedes, firmou admiravelmente tudo que estava quebrado. Quando ouvistes o esforço de meu peito murmurante, é porque parecei que, tendo curado carinhosamente todas as outras feridas, o pai santíssimo estava querendo ir embora, deixando a espada na garganta. Como não podia falar, fiz sinal com a mão enfraquecida para que tirasse a espada, perigo especial de morte iminente. Ele a tirou imediatamente e, como vistes, lançou-a com força. Foi assim que, como antes, com seus sagrados estigmas, afagando e esfregando minha garganta ferida, curou-a tão perfeitamente que não se vê mais diferença entre a carne cortada e a que sempre esteve intacta". Quem não se admiraria com isso? quem vai dizer que o que se fala dos milagres não é totalmente divino?