Capítulo 3. Do poder que teve sobre as criaturas insensíveis e em primeiro lugar sobre o fogo

14. Quando esteve doente dos olhos, o homem de Deus foi obrigado a permitir que o tratassem, chamaram um médico ao lugar. Ele veio, trouxe instrumento de ferro para cauterizar e mandou colocá-lo no fogo até ficar em brasa. O bem-aventurado pai, animando o corpo já abalado pelo medo, assim falou com o fogo: "Meu irmão fogo, o Altíssimo te criou forte, bonito e útil, para emulares a beleza das outras coisas. Sê amigo meu nesta hora, sê cortês, porque eu sempre te amei no Senhor. Rogo ao grande Senhor que te criou, para que abrande um pouco o teu calor, para que queime com suavidade e eu possa agüentar". Acabada a oração, fez o sinal da cruz e ficou esperando intrepidamente. Quando o médico segurou o ferro tórrido e branco, os frades fugiram por respeito, mas o santo se apresentou ao ferro alegre e sorridente. O instrumento penetrou crepitando na carne delicada e a cauterização se estendeu desde a orelha até o supercílio. As palavras do santo testemunham melhor a dor que ele mesmo sentiu. Quando os frades, que tinham fugido, voltaram, o pai disse sorrindo: "Covardes e fracos de coração, por que fugistes? Na verdade eu vos digo que não senti nem o ardor do fogo nem dor alguma em minha carne". E para o médico: "Se a carne ainda não está bem cozida, aplica outra vez!" Percebendo a diferença daquele caso, o médico experimentado exaltou o milagre divino: "Eu vos digo, irmãos, que hoje vi maravilhas". Provavelmente tinha recuperado a inocência primitiva esse homem que amansava, quando queria, o que por si não é manso.

15. Uma vez o bem-aventurado Francisco quis ir a um certo eremitério para se entregar mais livremente à contemplação, mas estava um bocado enfraquecido e conseguiu com um homem pobre um jumento para montar. Como acompanhava o homem de Deus nos dias do verão, subindo a montanha, cansado do caminho por aquela estrada áspera e longa, antes de chegar ao lugar, o rústico se entregou cansado pelo ardor da sede. Ficando para trás, gritou insistentemente pelo santo e pediu que tivesse pena dele: disse que ia morrer se não fosse reanimado com algum pouco de água. O santo de Deus, que sempre tinha compaixão dos aflitos, desceu imediatamente do jumento, ajoelhou-se no chão, estendeu as mãos para o céu e não parou de rezar enquanto não sentiu que tinha sido atendido. Disse, então, ao camponês: "Vai depressa, que ali mesmo encontrarás água para beber, que Cristo produziu da pedra para ti misericordiosamente neste instante". Estupenda bondade de Deus, que tão facilmente se inclina aos rogos de seus servidores! Um aldeão pôde beber a água da pedra que a virtude de um homem de oração fez brotar da rocha duríssima. Nesse lugar nunca tinha havido um curso de água, nem o puderam encontrar mais tarde, quando foi diligentemente procurado.

16. Gagliano é um castro populoso e nobre na diocese de Sulmona, no qual havia uma mulher chamada Maria, que, convertida a Deus pelos difíceis caminhos deste século, submetera-se toda a São Francisco como serva. Um dia foi a um monte absolutamente seco, para limpar bordos verdes mas se esqueceu de levar água consigo, e começou a desmaiar por causa da sede. Já não podendo trabalhar, deitada no chão quase sem forças, começou a invocar ardorosamente seu patrono São Francisco. Cansada, foi adormecendo. Então, veio São Francisco e a chamou pelo nome: "Levanta-te e bebe da água que, por dom divino, vai ser indicada a ti e a muitos"! A mulher bocejou quando ouviu isso mas voltou a dormir. Chamada mais uma vez, estava cansada demais e recaiu. Na terceira, não pouco confortada pela ordem do santo, levantou-se. Pegando um feto (planta), que estava ao seu lado, arrancou-o da terra. Vendo que a raiz estava toda molhada, começou a cavar ao redor com o dedo e com um pauzinho. De repente, o buraco se encheu de água e o pequeno filete se transformou numa fonte. A mulher bebeu e, saciada, lavou os olhos, com os quais, antes embaciados por longa doença, não podia ver nada com clareza. Seus olhos se iluminaram e, livres das rugas da velhice, pareciam ter uma nova luz. A mulher voltou correndo para casa e contou para todo mundo o milagre estupendo que atribuiu à glória de São Francisco. A fama se espalhou e encheu os ouvidos de todos em outras regiões. Acorreram muitos de toda parte, achacados por diversas doenças e, obtendo antes a saúde das almas pela confissão, lá ficaram curados de seus males. Pois cegos receberam a luz, coxos voltaram a caminhar, inchados voltaram ao normal e houve cura variadas para diversas doenças. A fonte existe e é conhecida até hoje: em honra de São Francisco, construíram aí um oratório.

17. No tempo em que esteve muito doente no eremitério de Santo Urbano, pediu vinho com o rosto sofrido e lhe responderam que não havia nada de vinho. Mandou trazer água e a abençoou com o sinal da cruz. Na mesma hora o elemento mudou de uso, perdeu o sabor próprio e adquiriu um novo. Tornou-se ótimo vinho o que fora água pura, e o que a pobreza não pôde foi dado pela santidade. Quando o provou o homem de Deus melhorou com tanta facilidade que ficou comprovado que a cura maravilhosa foi produzida pela admirável mudança.

18. Na província de Rieti surgira uma peste muito grave que consumia todos os bois de uma maneira tão cruel que mal sobrara algum boi. Certa noite foi comunicado a um homem temente a Deus que deveria ir depressa ao eremitério dos frades, para pegar a água que servira para São Francisco, que lá morava nesse tempo, lavar as mãos ou os pés, aspergindo com ela todo o gado. Levantando-se de manhã, o homem, muito ansioso pelo seu próprio interesse, sem que o santo soubesse, pegou através de outros frades a tal água, que aspergiu sobre todos os bois, de acordo com o mandato recebido. Pela graça de Deus, a peste acabou desde aquela hora, e nunca mais prevaleceu naquela terra.

19. Em diversas regiões a fervorosa devoção de muitas pessoas levava muitas vezes pães e outras coisas de comer para São Francisco benzer. Pela graça de Deus, ficavam muito tempo sem se estragar e os corpos doentes saravam quando os provavam. Também ficou provado que por sua virtude foram afastadas fortes tempestades de trovões e granizo. E a experiência de algumas pessoas confirma como pelo cordão que ele cingiu e por alguns retalhos tirados de suas roupas foram afugentadas doenças e febres, voltando a saúde desejada havia tanto tempo. Pois numa ocasião em que, no dia do Natal ele estava celebrando a memória do menino de Belém no presépio, e repetindo misticamente tudo que acontecera com o menino Jesus, entre diversas maravilhas demonstradas por Deus, o feno tirado do presépio serviu de remédio para a cura de muita gente, principalmente para as mulheres com dificuldades no parto e para todo tipo de animais contagiosos. Sabendo do que aconteceu com criaturas insensíveis, podemos imaginar um pouco o que se passou com as sensíveis.