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14. Quando esteve doente dos olhos, o homem de Deus foi obrigado a
permitir que o tratassem, chamaram um médico ao lugar. Ele veio,
trouxe instrumento de ferro para cauterizar e mandou colocá-lo no fogo
até ficar em brasa. O bem-aventurado pai, animando o corpo já
abalado pelo medo, assim falou com o fogo: "Meu irmão fogo, o
Altíssimo te criou forte, bonito e útil, para emulares a beleza das
outras coisas. Sê amigo meu nesta hora, sê cortês, porque eu
sempre te amei no Senhor. Rogo ao grande Senhor que te criou, para
que abrande um pouco o teu calor, para que queime com suavidade e eu
possa agüentar". Acabada a oração, fez o sinal da cruz e ficou
esperando intrepidamente. Quando o médico segurou o ferro tórrido e
branco, os frades fugiram por respeito, mas o santo se apresentou ao
ferro alegre e sorridente. O instrumento penetrou crepitando na carne
delicada e a cauterização se estendeu desde a orelha até o
supercílio. As palavras do santo testemunham melhor a dor que ele
mesmo sentiu. Quando os frades, que tinham fugido, voltaram, o pai
disse sorrindo: "Covardes e fracos de coração, por que fugistes?
Na verdade eu vos digo que não senti nem o ardor do fogo nem dor
alguma em minha carne". E para o médico: "Se a carne ainda não
está bem cozida, aplica outra vez!" Percebendo a diferença daquele
caso, o médico experimentado exaltou o milagre divino: "Eu vos
digo, irmãos, que hoje vi maravilhas". Provavelmente tinha
recuperado a inocência primitiva esse homem que amansava, quando
queria, o que por si não é manso.
15. Uma vez o bem-aventurado Francisco quis ir a um certo
eremitério para se entregar mais livremente à contemplação, mas
estava um bocado enfraquecido e conseguiu com um homem pobre um jumento
para montar. Como acompanhava o homem de Deus nos dias do verão,
subindo a montanha, cansado do caminho por aquela estrada áspera e
longa, antes de chegar ao lugar, o rústico se entregou cansado pelo
ardor da sede. Ficando para trás, gritou insistentemente pelo santo
e pediu que tivesse pena dele: disse que ia morrer se não fosse
reanimado com algum pouco de água. O santo de Deus, que sempre
tinha compaixão dos aflitos, desceu imediatamente do jumento,
ajoelhou-se no chão, estendeu as mãos para o céu e não parou de
rezar enquanto não sentiu que tinha sido atendido. Disse, então,
ao camponês: "Vai depressa, que ali mesmo encontrarás água para
beber, que Cristo produziu da pedra para ti misericordiosamente neste
instante". Estupenda bondade de Deus, que tão facilmente se
inclina aos rogos de seus servidores! Um aldeão pôde beber a água
da pedra que a virtude de um homem de oração fez brotar da rocha
duríssima. Nesse lugar nunca tinha havido um curso de água, nem o
puderam encontrar mais tarde, quando foi diligentemente procurado.
16. Gagliano é um castro populoso e nobre na diocese de Sulmona, no
qual havia uma mulher chamada Maria, que, convertida a Deus pelos
difíceis caminhos deste século, submetera-se toda a São Francisco
como serva. Um dia foi a um monte absolutamente seco, para limpar
bordos verdes mas se esqueceu de levar água consigo, e começou a
desmaiar por causa da sede. Já não podendo trabalhar, deitada no
chão quase sem forças, começou a invocar ardorosamente seu patrono
São Francisco. Cansada, foi adormecendo. Então, veio São
Francisco e a chamou pelo nome: "Levanta-te e bebe da água que,
por dom divino, vai ser indicada a ti e a muitos"! A mulher bocejou
quando ouviu isso mas voltou a dormir. Chamada mais uma vez, estava
cansada demais e recaiu. Na terceira, não pouco confortada pela
ordem do santo, levantou-se. Pegando um feto (planta), que estava
ao seu lado, arrancou-o da terra. Vendo que a raiz estava toda
molhada, começou a cavar ao redor com o dedo e com um pauzinho. De
repente, o buraco se encheu de água e o pequeno filete se transformou
numa fonte. A mulher bebeu e, saciada, lavou os olhos, com os
quais, antes embaciados por longa doença, não podia ver nada com
clareza. Seus olhos se iluminaram e, livres das rugas da velhice,
pareciam ter uma nova luz. A mulher voltou correndo para casa e contou
para todo mundo o milagre estupendo que atribuiu à glória de São
Francisco. A fama se espalhou e encheu os ouvidos de todos em outras
regiões. Acorreram muitos de toda parte, achacados por diversas
doenças e, obtendo antes a saúde das almas pela confissão, lá
ficaram curados de seus males. Pois cegos receberam a luz, coxos
voltaram a caminhar, inchados voltaram ao normal e houve cura variadas
para diversas doenças. A fonte existe e é conhecida até hoje: em
honra de São Francisco, construíram aí um oratório.
17. No tempo em que esteve muito doente no eremitério de Santo
Urbano, pediu vinho com o rosto sofrido e lhe responderam que não
havia nada de vinho. Mandou trazer água e a abençoou com o sinal da
cruz. Na mesma hora o elemento mudou de uso, perdeu o sabor próprio
e adquiriu um novo. Tornou-se ótimo vinho o que fora água pura, e
o que a pobreza não pôde foi dado pela santidade. Quando o provou o
homem de Deus melhorou com tanta facilidade que ficou comprovado que a
cura maravilhosa foi produzida pela admirável mudança.
18. Na província de Rieti surgira uma peste muito grave que consumia
todos os bois de uma maneira tão cruel que mal sobrara algum boi.
Certa noite foi comunicado a um homem temente a Deus que deveria ir
depressa ao eremitério dos frades, para pegar a água que servira para
São Francisco, que lá morava nesse tempo, lavar as mãos ou os
pés, aspergindo com ela todo o gado. Levantando-se de manhã, o
homem, muito ansioso pelo seu próprio interesse, sem que o santo
soubesse, pegou através de outros frades a tal água, que aspergiu
sobre todos os bois, de acordo com o mandato recebido. Pela graça de
Deus, a peste acabou desde aquela hora, e nunca mais prevaleceu
naquela terra.
19. Em diversas regiões a fervorosa devoção de muitas pessoas
levava muitas vezes pães e outras coisas de comer para São Francisco
benzer. Pela graça de Deus, ficavam muito tempo sem se estragar e
os corpos doentes saravam quando os provavam. Também ficou provado
que por sua virtude foram afastadas fortes tempestades de trovões e
granizo. E a experiência de algumas pessoas confirma como pelo
cordão que ele cingiu e por alguns retalhos tirados de suas roupas
foram afugentadas doenças e febres, voltando a saúde desejada havia
tanto tempo. Pois numa ocasião em que, no dia do Natal ele estava
celebrando a memória do menino de Belém no presépio, e repetindo
misticamente tudo que acontecera com o menino Jesus, entre diversas
maravilhas demonstradas por Deus, o feno tirado do presépio serviu de
remédio para a cura de muita gente, principalmente para as mulheres
com dificuldades no parto e para todo tipo de animais contagiosos.
Sabendo do que aconteceu com criaturas insensíveis, podemos imaginar
um pouco o que se passou com as sensíveis.
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