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20. As próprias criaturas procuravam corresponder ao amor de São
Francisco e pagar-lhe com a sua gratidão pelos méritos. Uma vez,
quando passava pelo vale de Espoleto perto de Bevagna, parou em um
lugar em que se ajuntara a maior multidão de pássaros de todo tipo.
Quando o santo de Deus os viu, como amava a todas as criaturas por
causa do amor principal de Deus, correu alegremente para o lugar e os
saudou como se costuma, como se tivessem o uso da razão. Como as
aves não voaram, chegou até elas: ia e voltava pelo meio delas,
tocando-lhes as cabeças e corpos com sua túnica. Cheio de
admiração e go-zo, exortou-as a ouvir solicitamente a palavra de
Deus, dizendo: "Meus irmãos pássaros! deveis louvar muito ao
vosso Criador e amá-lo sempre, porque os vestiu de plumas e lhes deu
penas para voar. Pois vos fez livres entre todas as criaturas e vos
entregou a pureza do ar. Não semeais nem colheis, e Ele vos governa
sem que vos preocupeis". Ouvindo isso, os passarinhos,
correspondendo bem do seu jeito, começaram a esticar os pescoços, a
estender as asas, a abrir o bico, olhando atentamente para ele. Não
saíram do lugar enquanto ele não fez um sinal da cruz, dando-lhes a
licença e a bênção. Voltando aos frades, começou a se culpar de
negligência porque não tinham pregado antes às aves. Desde esse
dia, foi solícito em exortar ao louvor e amor do Criador as aves, os
animais e até as criaturas insensíveis.
21. Uma vez foi a um povoado, chamado Alviano, para pregar.
Juntou o povo e pediu silêncio, mas quase não conseguia ser ouvido
porque uma porção de andorinhas, que tinham ninho naquele lugar,
faziam muito barulho. Diante de todos, disse-lhes: "Minhas irmãs
andorinhas, já está na hora de eu lhes falar também, porque até
agora vocês já disseram o suficiente. Ouçam a palavra de Deus e
fiquem quietas até o fim do sermão do Senhor". Elas, como se
tivessem o uso da razão, calaram-se imediatamente e não saíram do
lugar até que toda a pregação acabou. Todos os que o presenciaram
ficaram cheios de espanto e glorificaram a Deus.
22. Na cidade de Parma, um estudante era tão atormentado pelo
barulho de uma andorinha que quase não podia ficar no lugar que lhe era
necessário para concentrar-se. Um pouco amolado começou a dizer:
"Essa andorinha foi uma daquelas a quem, como lemos, São
Francisco mandou fazer silêncio enquanto estava pregando". E,
virando-se para a andorinha, disse: "Em nome de São Francisco
mando-te que me permitas pegar-te". Ela voou na mesma hora para
suas mãos. Espantado, o estudante devolveu-a à liberdade, e não
ouviu mais o seu chilreio.
23. São Francisco ia atravessando de barca o lago de Rieti, a
caminho do eremitério de Grécio. Um pescador ofereceu-lhe um
passarinho aquático, para que se alegrasse no Senhor. O
bem-aventurado pai recebeu-o com alegria, abriu as mãos e o convidou
delicadamente a ir embora. O passarinho não quis ir, mas se aninhou
em suas mãos. O santo levantou os olhos para o céu e ficou tempo
orando. Depois de um bom tempo, como se estivesse voltando a si de
outro lugar, ordenou com bondade à ave que voltasse sem medo para sua
primitiva liberdade. Recebendo a licença, e a sua bênção, o
passarinho demonstrou sua alegria com um movimento do corpo e voou.
24. Estava, outra vez, de barco no mesmo lago e, quando chegou ao
porto, deram-lhe um peixe grande e vivo Como costumava, chamou-o de
irmão e o repôs perto da barca. Mas o peixe ficou brincando diante
do santo na água, o que o alegrou muito e fez louvar ao Senhor. E o
peixe não saiu do lugar enquanto o santo não mandou.
25. Uma vez, São Francisco tinha se retirado para um eremitério,
como era seu costume, para escapar da vista e da companhia dos homens.
Um falcão que por lá tinha o seu ninho fez com ele um grande pacto de
amizade. Pois sempre prevenia com seu canto e barulho para indicar a
hora em que o santo costumava levantar-se para os santos louvores. O
santo gostava muito disso, porque toda essa atenção que o pássaro
demonstrava para com ele impedia todo atraso por preguiça. Quando o
santo estava um pouco mais doente que de costume, o falcão o poupava e
não dava tão cedo os sinais das vigília. Como se fosse instruído
por Deus, tocava de leve, ao amanhecer, o sino de sua voz. Nem é
para admirar que as outras criaturas venerassem tanto aquele que mais
amou seu Criador.
26. Um nobre do condado de Sena mandou levar um faisão a São
Francisco, que estava doente. Este o recebeu alegremente, não pela
vontade de comê-lo mas pela alegria que sempre o levava nessas
ocasiões ao amor do Criador, e disse ao faisão: "Louvado seja o
nosso Criador, irmão faisão!" Depois voltou-se para os frades:
"Vamos ver, irmãos, se o irmão faisão prefere morar conosco ou ir
para os lugares de costume, que são mais convenientes para ele".
Por ordem do santo, um frade foi levá-lo bem longe, deixando-o em
uma vinha. Ele voltou imediatamente para a cela do santo, com passo
rápido. Este mandou que o levassem mais longe ainda. O pássaro,
com a maior teimosia, voltou para a porta da cela e, mesmo tendo que
fazer força por entre os hábitos dos frades que estavam na porta,
entrou. Então o santo mandou que cuidassem de alimentá-lo,
abraçando-o e conversando carinhosamente com ele. Um médico que era
devoto do santo de Deus, quando viu isso, pediu o faisão aos
frades, não para comê-lo, mas desejando criá-lo por reverência
ao santo. Que mais? Levou-o consigo para casa, mas o faisão,
como se tivesse sofrido uma injúria por ter sido afastado do santo,
não quis absolutamente comer enquanto não gozou de sua presença.
Maravilhado, o médico levou logo o faisão de volta ao santo e contou
por ordem tudo que tinha acontecido. Logo que foi posto no chão, ele
olhou para o seu pai, esqueceu a tristeza e começou a comer com
satisfação.
27. Havia na Porciúncula, ao lado da cela do santo de Deus, uma
figueira onde uma cigarra costumava cantar com suavidade. Uma vez, o
bem-aventurado pai lhe estendeu a mão e a chamou bondosamente
dizendo: "Cigarra, minha irmã, vem cá!" Como se tivesse
razão, ela foi logo para sua mão. E ele: "Canta, minha irmã
cigarra, louva com júbilo o Senhor Criador!" Ela obedeceu sem
demora, começou a cantar e não parou enquanto o homem de Deus,
juntando seus louvores ao cântico, não a mandou de volta para o seu
lugar. Lá ficou por oito dias, como se estivesse presa. Quando o
santo descia de sua cela, tocava-a com as mãos e mandava que
cantasse. Ela estava sempre pronta para obedecer-lhe. Disse o santo
a seus companheiros: "Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já
nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja
causa de vanglória para nós". Com sua permissão, ela foi embora,
e não apareceu mais por lá. Os frades ficavam admiradíssimos,
vendo tudo isso.
28. Morando num lugar pobre, o santo bebia num vaso de barro.
Nele, depois que foi embora, as abelhas construíram um favo com sua
arte admirável, indicando de modo admirável a contemplação divina
que ali tinha haurido.
29. Em Grécio deram a São Francisco um filhote de lebre, vivo e
são. Ele o soltou para ir onde quisesse mas, quando o santo o
chamou, correu e saltou para o seu colo. O santo o acolheu com
bondade e o admoestou docemente para não se deixar mais prender.
Deu-lhe a bênção e mandou que voltasse para o mato.
30. Coisa semelhante aconteceu com um coelho, que é um animal bem
pouco doméstico, quando o santo morava numa ilha do lago de Perusa.
31. Uma vez que o homem de Deus estava viajando de Sena para o vale
de Espoleto, chegou a um campo em que pastava não pequeno rebanho de
ovelhas. Saudou-as com bondade, como era seu costume, e elas
correram para ele, levantando a cabeça e aplaudindo-o com a
saudação de grandes balidos. Seu vigário, com olho mais atento,
tomou nota do que elas tinham feito e comentou com os outros
companheiros, andando com passo mais vagaroso: "Vistes o que as
ovelhas fizeram com o santo pai? Na verdade", disse, "grande é
este homem que até os brutos veneram como pai, e os que não gozam de
razão reconhecem como amigo".
32. As cotovias, aves amigas da luz do dia e que têm horror ao
escuro do crepúsculo, na tarde em que São Francisco passou do mundo
para Cristo, quando já estava para chegar o crepúsculo da noite,
vieram para cima do telhado da casa e ficaram volteando muito tempo com
grande alarido, cantando a seu modo, não sabemos se para demonstrar o
gozo ou a tristeza. Ressoava um júbilo choroso e um choro jubiloso,
seja porque chorassem a orfandade como filhas, seja por pressentirem
que o pai se aproximava da glória eterna. Os guardas da cidade, que
vigiavam o lugar com solicitude, convidaram outros, cheios de espanto
e admiração.
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