Capítulo 4. Poder que teve sobre as criaturas sensíveis

20. As próprias criaturas procuravam corresponder ao amor de São Francisco e pagar-lhe com a sua gratidão pelos méritos. Uma vez, quando passava pelo vale de Espoleto perto de Bevagna, parou em um lugar em que se ajuntara a maior multidão de pássaros de todo tipo. Quando o santo de Deus os viu, como amava a todas as criaturas por causa do amor principal de Deus, correu alegremente para o lugar e os saudou como se costuma, como se tivessem o uso da razão. Como as aves não voaram, chegou até elas: ia e voltava pelo meio delas, tocando-lhes as cabeças e corpos com sua túnica. Cheio de admiração e go-zo, exortou-as a ouvir solicitamente a palavra de Deus, dizendo: "Meus irmãos pássaros! deveis louvar muito ao vosso Criador e amá-lo sempre, porque os vestiu de plumas e lhes deu penas para voar. Pois vos fez livres entre todas as criaturas e vos entregou a pureza do ar. Não semeais nem colheis, e Ele vos governa sem que vos preocupeis". Ouvindo isso, os passarinhos, correspondendo bem do seu jeito, começaram a esticar os pescoços, a estender as asas, a abrir o bico, olhando atentamente para ele. Não saíram do lugar enquanto ele não fez um sinal da cruz, dando-lhes a licença e a bênção. Voltando aos frades, começou a se culpar de negligência porque não tinham pregado antes às aves. Desde esse dia, foi solícito em exortar ao louvor e amor do Criador as aves, os animais e até as criaturas insensíveis.

21. Uma vez foi a um povoado, chamado Alviano, para pregar. Juntou o povo e pediu silêncio, mas quase não conseguia ser ouvido porque uma porção de andorinhas, que tinham ninho naquele lugar, faziam muito barulho. Diante de todos, disse-lhes: "Minhas irmãs andorinhas, já está na hora de eu lhes falar também, porque até agora vocês já disseram o suficiente. Ouçam a palavra de Deus e fiquem quietas até o fim do sermão do Senhor". Elas, como se tivessem o uso da razão, calaram-se imediatamente e não saíram do lugar até que toda a pregação acabou. Todos os que o presenciaram ficaram cheios de espanto e glorificaram a Deus.

22. Na cidade de Parma, um estudante era tão atormentado pelo barulho de uma andorinha que quase não podia ficar no lugar que lhe era necessário para concentrar-se. Um pouco amolado começou a dizer: "Essa andorinha foi uma daquelas a quem, como lemos, São Francisco mandou fazer silêncio enquanto estava pregando". E, virando-se para a andorinha, disse: "Em nome de São Francisco mando-te que me permitas pegar-te". Ela voou na mesma hora para suas mãos. Espantado, o estudante devolveu-a à liberdade, e não ouviu mais o seu chilreio.

23. São Francisco ia atravessando de barca o lago de Rieti, a caminho do eremitério de Grécio. Um pescador ofereceu-lhe um passarinho aquático, para que se alegrasse no Senhor. O bem-aventurado pai recebeu-o com alegria, abriu as mãos e o convidou delicadamente a ir embora. O passarinho não quis ir, mas se aninhou em suas mãos. O santo levantou os olhos para o céu e ficou tempo orando. Depois de um bom tempo, como se estivesse voltando a si de outro lugar, ordenou com bondade à ave que voltasse sem medo para sua primitiva liberdade. Recebendo a licença, e a sua bênção, o passarinho demonstrou sua alegria com um movimento do corpo e voou.

24. Estava, outra vez, de barco no mesmo lago e, quando chegou ao porto, deram-lhe um peixe grande e vivo Como costumava, chamou-o de irmão e o repôs perto da barca. Mas o peixe ficou brincando diante do santo na água, o que o alegrou muito e fez louvar ao Senhor. E o peixe não saiu do lugar enquanto o santo não mandou.

25. Uma vez, São Francisco tinha se retirado para um eremitério, como era seu costume, para escapar da vista e da companhia dos homens. Um falcão que por lá tinha o seu ninho fez com ele um grande pacto de amizade. Pois sempre prevenia com seu canto e barulho para indicar a hora em que o santo costumava levantar-se para os santos louvores. O santo gostava muito disso, porque toda essa atenção que o pássaro demonstrava para com ele impedia todo atraso por preguiça. Quando o santo estava um pouco mais doente que de costume, o falcão o poupava e não dava tão cedo os sinais das vigília. Como se fosse instruído por Deus, tocava de leve, ao amanhecer, o sino de sua voz. Nem é para admirar que as outras criaturas venerassem tanto aquele que mais amou seu Criador.

26. Um nobre do condado de Sena mandou levar um faisão a São Francisco, que estava doente. Este o recebeu alegremente, não pela vontade de comê-lo mas pela alegria que sempre o levava nessas ocasiões ao amor do Criador, e disse ao faisão: "Louvado seja o nosso Criador, irmão faisão!" Depois voltou-se para os frades: "Vamos ver, irmãos, se o irmão faisão prefere morar conosco ou ir para os lugares de costume, que são mais convenientes para ele". Por ordem do santo, um frade foi levá-lo bem longe, deixando-o em uma vinha. Ele voltou imediatamente para a cela do santo, com passo rápido. Este mandou que o levassem mais longe ainda. O pássaro, com a maior teimosia, voltou para a porta da cela e, mesmo tendo que fazer força por entre os hábitos dos frades que estavam na porta, entrou. Então o santo mandou que cuidassem de alimentá-lo, abraçando-o e conversando carinhosamente com ele. Um médico que era devoto do santo de Deus, quando viu isso, pediu o faisão aos frades, não para comê-lo, mas desejando criá-lo por reverência ao santo. Que mais? Levou-o consigo para casa, mas o faisão, como se tivesse sofrido uma injúria por ter sido afastado do santo, não quis absolutamente comer enquanto não gozou de sua presença. Maravilhado, o médico levou logo o faisão de volta ao santo e contou por ordem tudo que tinha acontecido. Logo que foi posto no chão, ele olhou para o seu pai, esqueceu a tristeza e começou a comer com satisfação.

27. Havia na Porciúncula, ao lado da cela do santo de Deus, uma figueira onde uma cigarra costumava cantar com suavidade. Uma vez, o bem-aventurado pai lhe estendeu a mão e a chamou bondosamente dizendo: "Cigarra, minha irmã, vem cá!" Como se tivesse razão, ela foi logo para sua mão. E ele: "Canta, minha irmã cigarra, louva com júbilo o Senhor Criador!" Ela obedeceu sem demora, começou a cantar e não parou enquanto o homem de Deus, juntando seus louvores ao cântico, não a mandou de volta para o seu lugar. Lá ficou por oito dias, como se estivesse presa. Quando o santo descia de sua cela, tocava-a com as mãos e mandava que cantasse. Ela estava sempre pronta para obedecer-lhe. Disse o santo a seus companheiros: "Vamos despedir nossa irmã cigarra, que já nos alegrou bastante aqui com o seu louvor, para que isso não seja causa de vanglória para nós". Com sua permissão, ela foi embora, e não apareceu mais por lá. Os frades ficavam admiradíssimos, vendo tudo isso.

28. Morando num lugar pobre, o santo bebia num vaso de barro. Nele, depois que foi embora, as abelhas construíram um favo com sua arte admirável, indicando de modo admirável a contemplação divina que ali tinha haurido.

29. Em Grécio deram a São Francisco um filhote de lebre, vivo e são. Ele o soltou para ir onde quisesse mas, quando o santo o chamou, correu e saltou para o seu colo. O santo o acolheu com bondade e o admoestou docemente para não se deixar mais prender. Deu-lhe a bênção e mandou que voltasse para o mato.

30. Coisa semelhante aconteceu com um coelho, que é um animal bem pouco doméstico, quando o santo morava numa ilha do lago de Perusa.

31. Uma vez que o homem de Deus estava viajando de Sena para o vale de Espoleto, chegou a um campo em que pastava não pequeno rebanho de ovelhas. Saudou-as com bondade, como era seu costume, e elas correram para ele, levantando a cabeça e aplaudindo-o com a saudação de grandes balidos. Seu vigário, com olho mais atento, tomou nota do que elas tinham feito e comentou com os outros companheiros, andando com passo mais vagaroso: "Vistes o que as ovelhas fizeram com o santo pai? Na verdade", disse, "grande é este homem que até os brutos veneram como pai, e os que não gozam de razão reconhecem como amigo".

32. As cotovias, aves amigas da luz do dia e que têm horror ao escuro do crepúsculo, na tarde em que São Francisco passou do mundo para Cristo, quando já estava para chegar o crepúsculo da noite, vieram para cima do telhado da casa e ficaram volteando muito tempo com grande alarido, cantando a seu modo, não sabemos se para demonstrar o gozo ou a tristeza. Ressoava um júbilo choroso e um choro jubiloso, seja porque chorassem a orfandade como filhas, seja por pressentirem que o pai se aproximava da glória eterna. Os guardas da cidade, que vigiavam o lugar com solicitude, convidaram outros, cheios de espanto e admiração.