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33. Não eram só as criaturas que serviam à vontade deste homem,
pois o próprio Criador condescendia em toda parte com sua
providência. Sua clemência paterna se adiantava aos seus desejos e
acorria antecipadamente com solicitude porque a ela se havia confiado.
Manifestavam-se ao mesmo tempo a necessidade e a graça, o desejo e o
socorro. No sexto ano de sua conversão, inflamado em veemente desejo
do martírio, quis navegar para a Síria. Entrou em um navio que ia
para lá, mas sopravam ventos contrários e foi parar com os outros
navegantes na região da Esclavônia. Vendo-se frustrado em tão
forte desejo, pediu pouco tempo depois a uns marinheiros que iam para
Ancona que o levassem. Como eles se recusassem firmemente a fazer
isso, por falta de pagamento, confiou muito na bondade do Senhor e
entrou escondido no navio com o seu companheiro. Apresentou-se logo a
providência divina: uma pessoa que ninguém conhecia chegou trazendo
provisões. Chamou um homem temente a Deus a que ia no navio e lhe
disse: "Leva contigo tudo isto e, no tempo da necessidade, deverás
dá-lo fielmente aos pobres que estão escondidos nesse navio". E
assim aconteceu que, levantando-se uma tempestade enorme, passaram
dias lutando com os remos e consumiram todas as provisões, sobrando
apenas a comida do pobre Francisco. A qual, pela graça e o poder de
Deus, multiplicou-se de tal modo que, embora tenham passado muitos
outros dias a navegar, foi suficiente para satisfazer bem a necessidade
de todos, até chegarem ao porto de Ancona. Quando os marinheiros
viram que tinham escapado dos perigos do mar por intermédio do servo de
Deus Francisco, deram graças a Deus todo-poderoso, que em seus
servidores sempre se mostra bondoso e admirável.
34. São Francisco, voltando da Espanha porque não tinha
conseguido ir a Marrocos como desejava, caiu em gravíssima doença.
Aflito pela necessidade e pelo sofrimento, levado pela rusticidade de
quem o hospedou, perdeu a fala por três dias. Quando, afinal,
recuperou as forças, caminhando pela estrada com Frei Bernardo,
disse que, se tivesse, comeria um pedaço de um passarinho. Apareceu
então um cavaleiro no campo, carregando uma ave muito boa, e disse a
São Francisco: "Servo de Deus, recebe com cuidado o que a
clemência divina te manda". Ele recebeu o presente com alegria e,
compreendendo que Cristo estava cuidando dele, abençoou-o por tudo.
35. Quando estava doente no palácio do bispo de Rieti, vestido com
uma pobre túnica velha, o pai dos pobres disse uma vez a um de seus
companheiros, que constituíra como guardião: "Gostaria, irmão,
se fosse possível, que me arranjasses pano para uma túnica".
Ouvindo isso, o frade ficou pensando em como poderia adquirir esse
pano tão necessário e tão humildemente pedido. No dia seguinte,
saiu à porta bem cedo para ir à cidade arranjar o pano. Mas eis um
homem sentado junto à porta, querendo falar com ele. Disse-lhe:
"Por amor de Deus, recebe esta fazenda para fazer seis túnicas,
guarda uma para ti e distribui as outras como te aprouver, pela
salvação de minha alma". O frade voltou muito alegre para junto do
bem-aventurado Francisco e contou como tinha recebido esse presente do
céu. O pai disse: "Recebe as túnicas, porque esse homem foi
enviado para satisfazer dessa forma a minha necessidade. Demos graças
àquele que parece que só precisa cuidar de nós ".
36. Quando o bem-aventurado varão morava em um eremitério,
visitava-o um médico, todos os dias, para cuidar de seus olhos.
Certo dia, disse o santo aos frades: "Convidai o médico e dai-lhe
um bom almoço". O guardião respondeu-lhe: "Pai, digo
ruborizado que tenho vergonha de convidá-lo, porque somos muito
pobres". O santo respondeu dizendo: "Homem de pouca fé, o que
quer mais que eu diga?" E o médico, que estava presente, disse:
"Eu também, irmãos caríssimos, vou achar que é uma delícia
partilhar de vossa penúria". Os frades correram e puseram na mesa
toda a provisão da sua dispensa, isto é, um pouquinho de pão, não
muito vinho e, para comerem alguma coisa melhor, alguns legumes
trazidos da cozinha. Nesse meio tempo, a mesa do Senhor teve pena da
mesa dos servos: bateram à porta, um frade foi atender, e era uma
mulher que lhes deu uma cesta cheia: um belo pão, peixes e pastéis
de camarão, coroados, por cima, com mel e uvas. Diante de todas
essas coisas, a mesa dos pobres se alegra e, deixando os pratos
miseráveis para o dia seguinte, come hoje os mais preciosos.
Suspirando, o médico falou dizendo: "Irmãos, nem vós religiosos
nem nós seculares sabemos apreciar devidamente a santidade deste
homem". Teriam ficado saturados, se não os tivesse satisfeito mais
o milagre que a comida. Pois é assim que o olhar paterno de Deus
jamais despreza os seus; pelo contrário, serve-os com providência
maior quanto mais são necessitados.
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