|
40. Vou falar dos mortos ressuscitados pelos méritos do confessor de
Cristo e peço que estejam atentos os que ouvem e lêem. Para ser
breve, vou omitir muitos pormenores e, sem falar das solenidades dos
admiradores, vou contar só as coisas maravilhosas. Na aldeia de
Monte Marano, perto de Benevento, uma dama de nobre linhagem, e
mais nobre pelas virtudes, tinha particular devoção a São
Francisco e rendia-lhe um culto fiel e reverente. Ficou doente,
chegou às últimas e entrou no caminho de toda carne. Morta perto do
ocaso do sol, adiaram o sepultamento para o dia seguinte, para poder
juntar o grupo numeroso dos queridos. À noite vieram os clérigos com
os saltérios para cantar as exéquias e vigílias, cercados por uma
multidão de orantes de ambos os sexos. De repente, à vista de
todos, levanta-se no leito a mulher, chama um dos sacerdotes
presentes, seu padrinho, e diz- lhe: "Pai, quero confessar-me;
ouve o meu pecado! Eu morri, de fato, e deveria estar agora
encerrada num duro cárcere por ainda não ter confessado o pecado que
desejo revelar-te. Mas São Francisco, de quem sempre fui muito
devota, orou por mim e foi-me concedido voltar ao meu corpo para poder
confessar-me e obter o perdão do meu pecado. Logo que o tiver
confessado, partirei na vossa presença para o descanso prometido".
Confessou-se tremendo ao sacerdote que também tremia e, recebida a
absolvição, recolheu-se ao leito e adormeceu felizmente no Senhor.
Quem poderá celebrar condignamente a bondade de Cristo? Quem
poderá enaltecer com dignos louvores a eficácia da confissão e os
méritos do santo?
41. Para mostrar como todos devem receber com profundo amor o dom
admirável de Deus que é a confissão, e também para esclarecer como
este santo sempre gozou de um mérito singular diante de Cristo, é
preciso contar o que ele manifestou de maneira notável enquanto vivia
no mundo, e aquilo que Cristo revelou sobre ele ainda melhor depois da
morte. Uma vez que o bem-aventurado pai Francisco foi a Celano para
pregar, um cavaleiro lhe suplicou com devoção e insistentemente que
fosse almoçar em sua casa. Ele resistiu bastante mas no fim foi
vencido pela insistência importuna. Chegou a hora da refeição e a
mesa foi esplendidamente preparada. O hospedeiro e toda sua família
ficaram exultantes com a chegada dos pobres. O bem-aventurado
Francisco ficou em pé, levantou os olhos para o céu e chamou à
parte o hospedeiro. "Irmão hospedeiro, disse-lhe, dobrando-me
aos teus pedidos, entrei em tua casa para comer! Agora obedece
depressa ao meu conselho, porque não comerás aqui mas em outro
lugar! Confesse os teus pecados com toda contrição, e não deixes
nada que tenhas que manifestar numa verdadeira confissão. Hoje o
Senhor vai te recompensar porque recebeste seus pobres com tanta
devoção". O homem concordou com as palavras santas na mesma hora
e, chamando o companheiro de São Francisco, que era sacerdote,
contou-lhe em verdadeira confissão todos os pecados. Preparou sua
casa e ficou esperando, sem dúvidas, que se cumprisse a palavra do
santo. Afinal, foram para a mesa e, começaram a comer. Depois de
fazer o sinal da cruz, ele mesmo, tremendo, estendeu a mão para o
pão. Mas antes de sua mão voltar, inclinou a cabeça e exalou o
espírito. Como devemos amar a confissão dos pecados! Um morto
ressuscita para confessar-se e um vivo, para não perecer
eternamente, é libertado pelo benefício da confissão!
42. O filhinho de um notário da cidade de Roma, de sete anos
apenas, quando a mãe ia para a igreja de São Marcos para ouvir uma
pregação, desejando seguí-la como uma criança, mas ela não
deixou e ele ficou desassossegado, pulando pela janela da casa, não
sei se por algum instinto diabólico. Quando se chocou com o chão,
experimentou a morte, que é comum para todos. A mãe, que ainda
não estava longe, ao ouvir o baque da queda, suspeitando do drama de
seu tesouro, voltou correndo e encontrou o filho exânime. Logo
voltou contra si mesma as mãos vingadoras; a vizinhança acorreu aos
seus lamentos e chamaram médicos para o morto. Será que poderiam
ressuscitar um morto? Passara a hora de prognósticos e dietas, e os
médicos só podiam explicar mas não ajudar quem já estava nas mãos
de Deus. Os médicos declararam morto aquele que já não tinha mais
calor nem vida, movimento ou força. Frei Rao, da Ordem dos
menores, pregador conhecidíssimo em toda Roma, ia indo para pregar e
chegou perto do menino. Cheio de confiança, disse ao pai: "Crês
que Francisco, o santo de Deus, pode ressuscitar teu filho dos
mortos pelo amor que sempre teve pelo Filho de Deus, nosso Senhor
Jesus Cristo?". O pai respondeu: "Creio firmemente e o
confesso. Serei seu servo para sempre e vou visitar solenemente seu
lugar sagrado". O frade ajoelhou-se em oração com o seu
companheiro e exortou todos a rezarem. Feito isso, o menino começou
a bocejar um pouco, a mexer os braços e a se erguer. A mãe correu
para abraçar o filho, o pai não se continha de alegria, e todo o
povo, cheio de admiração, louvava em voz alta Cristo e seu santo.
O menino logo começou a andar na frente de todos e voltou a viver
muito bem.
43. Os frades de Nocera pediram um carro de que necessitavam por um
certo tempo a um homem chamado Pedro, que lhes respondeu
estupidamente: "Prefiro arrancar o couro de dois de vocês com o seu
São Francisco, mas não empresto o carro". Mas logo se arrependeu
de ter dito uma coisa tão grave e, batendo na boca, pedia perdão.
Tinha medo de um castigo, como, de fato, logo aconteceu. De
noite, viu em sonhos sua casa cheia de homens e mulheres, que
dançavam muito felizes. Na mesma hora seu filho, chamado Gafaro,
ficou doente e, pouco depois, exalou o espírito. As danças que
vira tornaram-se luto e a alegria virou lamento. Lembrou-se da
blasfêmia que dissera contra São Francisco e a pena fez com que
compreendesse como fora grave a culpa. Rolava pelo chão e não parava
de invocar São Francisco, dizendo: "Fui eu que pequei; era a mim
que devias castigar. Ó santo, devolve ao penitente o filho que
tiraste a quem blasfemou impiamente! Rendo-me a ti, estarei sempre
às tuas ordens. Vou te ofertar sempre todas as primícias". Coisa
admirável! A essas palavras levantou-se o menino e, mandando parar
o choro, contou a causa de sua morte. "Quando eu estava morto,
contou, o bem-aventurado Francisco veio e me levou por uma rua escura
e muito comprida. Depois me pôs num jardim tão bonito e agradável
que não se pode comparar com nada deste mundo. Depois me trouxe de
volta pelo mesmo caminho e me disse: "Volta para teu pai e tua mãe;
não quero te reter mais tempo aqui. E aqui estou de volta, como ele
quis.
44. Na cidade de Cápua, quando um menino estava brincando
descuidadamente com outros na margem do rio Volturno, caiu da beira do
rio no lugar mais profundo. A corrente do rio arrastou-o
rapidamente, sepultando-o morto embaixo da areia. Aos gritos dos
meninos que estavam brincando com ele perto do rio, chegaram
rapidamente muitos homens e mulheres que, sabendo o que tinha
acontecido com o menino, rezavam chorando: "São Francisco,
devolve o menino ao pai e ao avô, que trabalham a teu serviço!" De
fato, o pai e o avô do menino tinham ajudado como podiam numa igreja
construída em honra de São Francisco. Então, enquanto todo o
povo estava invocando suplicante e devotamente os méritos de São
Francisco, um nadador que estava longe ouviu os gritos e se
aproximou. Sabendo que já fazia uma hora que o menino tinha caído no
rio, invocou o nome de Cristo e os méritos de São Francisco,
tirou a roupa e se jogou despido no rio. Como não sabia o lugar em
que o menino tinha caído, começou a procurar atentamente por toda
parte, nas margens e no fundo do rio. Afinal, por vontade de Deus,
descobriu o lugar em que o lodo tinha coberto o cadáver do menino como
um túmulo. Escavando e tirando-o para fora, constatou com dor que o
menino estava morto. Mas as pessoas que estavam por lá, quando viram
o jovem morto, choravam e gritavam: "São Francisco, devolve o
menino ao seu pai!". Ele mesmo, e alguns judeus que apareceram,
provocados pela piedade natural, diziam: "São Francisco, devolve
o menino a seu pai!". O bem-aventurado Francisco, como se vê
pelo que aconteceu, movido pela devoção e pelas preces do povo,
ressuscitou imediatamente o menino morto. Quando ele se levantou,
para alegria e admiração de todos, pediu suplicantemente que o
levassem à igreja de São Francisco, afirmando que tinha sido
ressuscitado por graça dele.
45. Na cidade de Sessa, no bairro chamado "das Colunas", o
diabo, perdedor das almas e assassino dos corpos, derrubou uma casa,
desmoronando-a. Tinha tentado matar muitos meninos que estavam
brincando perto dessa casa, mas só atingiu um jovem, que a casa matou
na hora quando caiu. Homens e mulheres, alertados pelo barulho da
casa caindo, correram de todo lado e, tirando aqui e ali algumas
vigas, entregaram o filho morto à pobre mãe. Ela, arranhando o
rosto e os cabelos, soluçando com muita amargura, derramando
lágrimas como rios, gritava quanto podia: "São Francisco, São
Francisco, devolve o meu filho!". Não só ela, mas todos os
presentes, homens e mulheres, choravam amargamente, dizendo: :
"São Francisco, devolve o filho da infeliz mãe!". Depois de
uma hora, a mãe, recuperando-se de tamanha dor, fez este voto:
"Ó São Francisco, devolve a esta pobre o seu filho amado e eu vou
enfeitar teu altar com um fio de prata e cobrir com uma toalha nova,
acendendo velas em toda a volta da tua igreja!". Puseram o cadáver
na cama, porque já era noite, e esperaram o dia seguinte para
sepultá-lo. Mas lá pela meia noite o menino começou a bocejar,
seus membros se aqueceram e, antes de amanhecer o dia, reviveu de uma
vez e prorrompeu em louvores. Todo o povo e o clero, vendo que ele
estava curado e incólume, deram graças a São Francisco.
46. In castro Pomarico, in montanis Apuliae posito, patri et matri
unica erat filia, in tenera aetate tenere praedilecta. Et quoniam
successionem non sperabant aliam affuturam, illa totius amoris
materia, illa omnis causa sollicitudinis erat eis. Infirmata namque
ad mortem, puellae pater et mater se mortuos reputabant. Diebus
igitur et noctibus, sollicitis nimis vigiliis circa puellae custodiam
insistentes, mane quodam illam mortuam invenerunt. Forte subreptione
somni vel vigiliarum labore aliqua negligentia intervenit. Orbata sic
mater dulci prole, speque prolis amissa, videtur et ipsa mori.
Conveniunt parentes et convicini ad flebile nimis funus, et tumulare
properant exanime corpus. Iacet mater infelix ineffabilibus completa
doloribus, et absorpta suprema tristitia de iis quae fiunt nihil
advertit. Interim sanctus Franciscus, uno tantum socio comitatus,
visitat desolatam, et placitis affatur colloquiis. "Noli flere",
inquit, "nam lucernae tuae penitus iam exstinctae (cfr. Luc
7,13; 2Re 21,17) lumen, ecce, restituam! Surgit
extemplo mulier, et quae sibi dixerat sanctus Franciscus omnibus
manifestans, non permisit exstinctum corpus alibi deportari. Et
conversa mater ad filiam, invocans sancti nomen, eam vivam et
incolumem allevavit. Stuporem qui videntium corda replevit et parentum
gaudium inexpertum alteri relinquimus exprimendum.
47. Na Sicília, um rapaz chamado Gerlandino, originário de
Ragusa, foi trabalhar com os pais na vinha, no tempo da vindima.
Tinha descido à tina do vinho, para encher os odres, e se colocou
embaixo do lagar quando, de repente, movendo-se as vigas da
estrutura, as grandes pedras com que se espremiam as uvas esmagaram sua
cabeça com uma pancada mortal. O pai correu para o filho e, tomado
pelo desespero, não ajudava a remover o peso , deixando-o como tinha
caído. Vieram depressa os vinhateiros, quando ouviram os enormes
gritos tristes, e, com pena do pobre pai, tiraram o filho dos
escombros. Pondo-o à parte, envolveram o corpo exânime e e só
pensavam em sepultá-lo. Mas o pai dele lançou-se de joelhos aos
pés de Jesus, para que se dignasse, pelos méritos de São
Francisco, cuja festa estava próxima, restituir-lhe o filho
único. Reduplicou as preces, fez voto de obras de piedade, e
prometeu visitar logo que possível o túmulo do santo. Nesse meio
tempo veio a mãe, à tarde, e, desesperada, jogou-se sobre o filho
morto, chorando e levando todos a chorar. De repente o jovem se
levantou e admoestou os que estavam chorando, alegre por ter sido
devolvido à vida graças à ajuda de São Francisco. Então as
pessoas que estavam reunidas elevaram louvores ao que está nos céus,
que por seu santo livrou o jovem do laço da morte.
48. O santo ressuscitou mais um morto na Alemanha, como foi
testemunhado numa carta apostólica pelo senhor papa Gregório, no
tempo da translação de São Francisco, aos frades que tinham vindo
para essa cerimônia e para o capítulo, do que muito se alegraram.
Não escrevi a narração desse fato porque não o conhecia, mas acho
que o testemunho do papa é melhor que qualquer outro meio. Mas agora
vamos passar a outros, que ele arrancou das próprias garras da morte.
|
|