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49. Em Roma, um cidadão nobre, chamado Rodolfo, tinha uma torre
bastante alta e, em cima da torre, conforme o uso, um guarda. Uma
noite o guarda dormiu profundamente lá no alto da torre e, como estava
deitado numa armação de madeira posta bem na parte saliente da torre,
ou porque se soltou a amarra de repente ou porque se quebrou lá em
cima, ele foi jogado com os paus no precipício, caiu no teto do
palácio, e daí chegou ao chão. Com o forte ruído, toda a
família acordou e o cavaleiro, suspeitando algum assalto, apareceu
armado. Vibrou a espada desembainhada sobre o homem prostrado,
querendo ferir um adormecido, sem reconhecer que era o guarda. Mas a
esposa do cavaleiro, temendo que fosse seu irmão, que era inimigo de
morte daquele homem, não o deixou ferí-lo, jogando-se sobre o
caído para defende-lo. Que admirável aquele sono profundo! O
adormecido não acordou nem com os dois tombos nem com o enorme ruído.
Finalmente, sacudido por uma mão solicita, acordou e como se o
estivessem tirando de um doce descanso, disse a seu senhor: "Por que
estais perturbando o meu sono? Nunca descansei tão suavemente, pois
estava dormindo bem gostoso nos braços de São Francisco". Quando
foi informado pelos outros sobre a queda, e se viu embaixo quando
adormecera lá no alto, espantou-se de não ter percebido nada. Logo
prometeu diante de todos que faria penitência e, recebendo a licença
de seu senhor, fez uma peregrinação. A senhora fez um bonito
paramento sacerdotal que deu aos frades que moravam em sua aldeia fora
de Roma, para reverenciar e honrar o santo. As Escrituras exaltam o
mérito da hospitalidade, e os exemplos o provam. De fato, o
referido senhor, por reverência a São Francisco, recebera naquela
noite dois frades menores, que também correram com os outros quando o
criado caiu.
50. Na aldeia de Pofi, na Campânia, um sacerdote chamado Tomás
foi com diversos homens consertar um moinho de sua igreja. Mas abaixo
do moinho havia uma garganta profunda, onde escorria um canal bastante
caudaloso. Andando o sacerdote descuidado pela beira do canal, de
repente caiu lá dentro, sendo levado depressa pela correnteza para as
pás que moviam o moinho. Ficou preso imóvel nas tábuas, totalmente
incapaz de se mover. Do jeito que estava deitado, corria sobre o seu
rosto o ímpeto das águas, impedindo-o miseravelmente de ouvir e de
enxergar. Já não tinha boca mas apenas o coração para invocar
debilmente a São Francisco. Ficou assim prostrado por muito tempo e
os companheiros voltaram correndo, já sem esperança de salvá-lo.
Um moleiro disse: "Vamos virar com força o moinho ao contrário,
para que solte o cadáver". Apoiaram-se com força, fizeram a mó
virar ao contrário e viram que o corpo libertado ainda respirava na
água. Enquanto o sacerdote continuava a revirar-se semivivo na
água, apareceu um frade menor, vestido de alva e cingido com um
cordão, e o puxou para fora do canal pelo braço, com grande
suavidade, dizendo: "Eu sou Francisco, que invocaste". Assim
libertado, ele ficou assustado e corria para cá e para lá dizendo:
"Frei, Frei!". E para os que o rodeavam: "Onde ele está?
Por onde foi embora?" A tremer aqueles homens caíram ajoelhados no
chão, glorificando a Deus e a seu santo.
51. Na província de Capitanata, alguns meninos do burgo de Celano
tinham saído juntos para colher ervas. Naquela região campestre
havia um velho poço, cuja boa estava coberta por um mato viçoso, mas
que continha uns quatro passos de água. Enquanto os meninos corriam
de um lado para o outro, de repente um deles caiu no poço. Quando
sofreu o naufrágio terrestre, invocou o sufrágio celeste. "São
Francisco", disse enquanto estava caindo, "me ajuda!". Os
outros, andando para lá e para cá, enquanto o outro menino não
aparecia, buscavam-no com gritos, rodeio e lágrimas. Por fim
chegaram à boca do poço e, pelos sinais deixados na erva que estava
se levantando outra vez, perceberam que o menino caíra lá dentro.
Correram chorando para o burgo, chamaram uma porção de homens e
voltaram, considerando-o já perdido. Um homem foi baixado no poço
por uma corda e viu que o menino estava na superfície da água, sem
ter sofrido nenhuma lesão. Tirado do poço, o menino contou a todos
os presentes: "Quando caí de repente, invoquei a proteção do
bem-aventurado Francisco, que logo se apresentou enquanto eu caía e
estendendo uma mão me segurou delicadamente, e não me deixou equanto
não me tirou do poço junto de vós".
52. Tinham desistido da cura de uma menina de Ancona, acabada por
mortal doença, e já faziam preparativos para sua morte e enterro.
Já no fim da respiração, apareceu São Francisco, dizendo-lhe:
"Confia, filha, porque por minha graça já estás plenamente
livre. E não contarás a ninguém esta cura que te dou, até de
tarde". Quando chegou a tarde, ela se levantou de repente na cama,
assustando e pondo em fuga os que estavam presentes. Achavam que o
demônio tinha invadido ocorpo da que estava expirando e que, com a
saída da alma, o mau sucessor entrava. A mãe teve a coragem de
chegar mais perto e, multiplicando conjurações contra o que julgava o
demônio, tentou recostá-la na cama. Disse-lhe a filha: "Mãe,
não pense que é demônio , porque na terceira hora o bem-aventurado
Francisco me curou de toda doen~ca, mandando que nâo dissesse nada a
ninguém até agora". Por causa do nome de Francisco houve uma
estupenda alegria para aqueles a quem o demônio tinha sido causa de
fuga. Obrigaram na mesma hora a menina a comer galinha, mas ela não
quis comer, porque estavam na quaresma maior. "Não tenham medo!
Não estão vendo São Francisco vestido de branco? Ele me está
mandando não comer carne, porque é quaresma, e ordenou que desse a
túnica fúnebre para uma mulher que está na cadeia. Olhem agora,
olhem e vejam que está indo embora!".
53. Numa casa de Netuno havia três mulheres, uma das quais era
muito devota dos frades e devotíssima de São Francisco. Abalada
pelo vento, a casa ruiu, esmagou, matou e enterrou duas delas. São
Francisco, tacitamente invocado, apareceu logo e não permitiu que
sua devota fosse ferida. De fato, a parede em que a mulher estava
encostada ficou intacto na altura dela, e uma trave que caiu do alto se
ajustou de tal forma que sustentou todo o peso do desmoro-namento. As
pessoas que acorreram ao ruído do desastre choraram pelas duas mortas e
agradeceram a São Francisco pela amiga dos frades que ficou viva.
54. Em Corneto, aldeia respeitável e poderosa da diocese de
Viterbo, quando estavam fundido um sino nada leve na casa dos frades e
se haviam reunido muitos amigos dos frades para ajudar nesse trabalho,
depois de terem feito a fundição começaram a almoçar com grande
alegria. Mas um menininho de apenas oito anos, chamado Bartolomeu,
cujo pai e tio tinham suado com muita devoção na fundição, levou
alguma coisa aos comensais. De repente, soprou uma ventania
violenta, abalando a casa e um enorme turbilhão jogou sobre o menino a
porta da casa, que era grande e muito pesada. O peso era tanto que
acharam que ele, oprimido pelo grande pêso, tinha morrido esmagado.
Na realidade jazia tão completamente enterrado pelo peso que não
aparecia nada dele. Depois da fusão veio a confusão e o luto dos
amargurados sucedeu ao banquete dos comensais. Todos se levantaram da
mesa e o tio com os outros, invocando São Francisco, correu para a
tábua. Mas o pai, que ficou paralisado pela dorj e não conseguia se
mover, fazia promessas e oferecia o filho a São Francisco. Tiraram
o funesto peso de cima do menino e viram que aquele que julgavam morto
apareceu alegre, como se estivesse acordando de um sono, sem sinal
nenhum de ferimento. Depois da confusão veio uma nova infusão de
alegria e, interrompendo o almoço, houve uma grande exultação.
Ele mesmo me testemunhou que enquanto esteve embaixo do peso ficou sem
nenhum sinal de vida. Por isso, com quatorze anos, fez-se frade
menor, vindo a ser um literato e eloqüente pregador na Ordem.
55. Um menininho da mesma aldeia engoliu um alfinete de prata que o
pai tinha posto em sua mão, e ficou com a garganta bloqueada, tanto
que não podia mais respirar de modo algum. O pai chorava
amargamente, achando que tinha matado o filho, e se revirava pelo
chão como um doido. A mãe, descabelada, se arranhava toda,
deplorando o trágico acontecimento. Todos os amigos, tomaram parte
em toda essa dor, lamentando que um menino sadio tivesse sido
arrebatado por uma morte repentina. O pai invocou os méritos de São
Francisco, fazendo um voto para que libertasse o filho. De repente,
o menino expeliu o alfinete pela boca, bendizendo com todos o nome de
São Francisco.
56. Um homem da aldeia de Ceprano, chamado Nicolau, caiu certo dia
na mão de inimigos cruéis. Com uma raiva feroz feriram-no muitas
vezes, e não pararam de atacá-lo enquanto não o julgaram já morto
ou a ponto de morrer. Finalmente, deixando-o meio morto,
afastaram-se ensangüentados. Mas o referido Nicolau gritara bem
alto, quando recebeu os primeiros golpes: "Ajuda-me, São
Francisco, socorre-me, São Francisco!". Muitos ouviram de
longe esse grito, mas não podiam levar-lhe ajuda. Levado para
casa, todo sujo de seu sangue, clamava que não ia morrer nem estava
sentindo dores, porque São Francisco o socorrera e porque implorara
o Senhor para fazer penitência. De fato, quando lavaram o sangue,
ficou livre, contra toda esperança humana.
57. Uns homens de Lentini cortaram de um monte uma grande laje de
pedra, que queriam colocar em cima do altar de uma igreja de São
Francisco, que devia ser consagrada dentro de pouco tempo. Mas
quando cerca de quarenta homens estavam tentando colocar a laje sobre um
veículo, depois de várias tentativas, a pedra caiu sobre um homem e
o cobriu como um sepulcro. Confusos, sem saber o que fazer, a maior
parte dos homens foi embora desesperada. Dez homens que ficaram
invocavam com voz lúgubre São Francisco, para que não deixasse
que, a seu serviço, morresse um homem assim desesperadamente. O
homem sepultado jazia meio morto, e com o espírito de vida que ainda
tinha invocava o auxílio de São Francisco. Finalmente, recobrando
coragem, aqueles homens tiraram a pedra com tanta facilidade que
ninguém duvidou de que estivesse presente a mão de São Francisco.
O homem levantou-se incólume, e o que quase ficara morto reviveu
plenamente; recuperou a luz dos olhos, que antes estava enfraquecida,
fazendo com todos entendessem o que valem as obras de Francisco nas
situações desesperadas.
58. Em São Severino das Marcas aconteceu algo parecido, digno de
ser recordado. Com a força de muitos homens estavam carregando
rapidamente uma pedra enorme, vinda de Constantinopla para a fonte de
São Francisco, quando alguém caiu embaixo dela: achavam que não
só tinha morrido mas estava todo esmagado. De repente, assim lhe
pareceu e ficou demonstrado, apresentou-se São Francisco, que
levantou a pedra e o tirou para fora sem nenhum machucado. Assim
aconteceu que o foi terrível de ver tornou-se admirável para todos.
59. Bartolomeu, cidadão de Gaeta, quando estava suando bastante na
construção de uma igreja de São Francisco, queria colocar uma
trave no edifício. Mas, mal colocada, a trave caiu e lhe esmagou
gravemente a cabeça. Com muito sangue a correr, sobrando-lhe um fio
de alento, pediu o viático a um frade. Como não conseguiu
encontrá-lo depressa e parecia que o homem ia logo morrer, citou-lhe
a frase de Santo Agostinho: "Tem fé que será como se tivesses
comido!". Na noite seguinte, apareceu-lhe São Francisco com
onze frades e, carregando um cordeirinho no peito, chegou perto da
cama dele e o chamou pelo nome dizendo: "Não tenhas medo,
Bartolomeu, o inimigo não vai prevalecer contra ti. Ele quis te
impedir no meu serviço mas vais levantar curado! Este é o cordeiro
que pediste e que recebeste por teu bom desejo. Pois o frade te deu um
bom conselho". E assim, passando a mão pelas feridas, mandou que
ele voltasse ao trabalho que tinha começado. Levantou-se bem cedo e
apresentou-se incólume e sadio aos que o tinham deixado meio morto,
causando-lhes admiração e espanto. Na verdade, pela cura
inesperada, todos achavam que estavam vendo um fantasma e não um
homem, enxergando o espírito e não a carne. Mas como estamos
falando de edifícios construídos em honra deste santo, achei bom
colocar aqui um milagre bem admirável.
60. Numa ocasião, dois frades menores assumiram um trabalho nada
fácil para construir uma igreja em honra do pai São Francisco na
aldeia de Peschici, na diocese de Siponto, e não tinham o que era
necessário para a construção. Uma noite, quando se levantaram do
sono para as Laudes, começaram a ouvir o ruído de pedras caindo e se
chocando. Animaram-se um ao outro para ir ver e saíram, deparando
com um grande grupo de homens que competiam para ajuntar pedras. Todos
iam e voltavam silenciosamente, todo vestidos de roupas brancas. A
montanha de pedras ajuntadas mostrou que a coisa não era fantástica,
pois deu para levar a obra até o fim. Foi afastada toda suspeita de
que pudessem ter sido homens vivendo na carne e osso que fizeram isso,
pois apesar de pesquisarem com muita diligência, não encontraram
ninguém que tivesse pensado nisso.
61. O filho de um nobre de Castel San Gimignano, atacado por grave
doença, perdida toda esperança de saúde, tinha chegado ao fim. Um
rio de sangue corria de seus olhos, como pode acontecer com uma veia do
braço; e havia outros indícios concretos de morte próxima no resto
do corpo, de modo que parecia já ter morrido. Reunidos os parentes e
amigos, conforme o costume, para chorar, deu-se a ordem para o
funeral e só se falava do sepultamento. Nessa ocasião, o pai,
cercado pelo povo que chorava, recordou-se de uma visão de que tinha
ouvido falar. Correu bem depressa para a igreja de São Francisco,
que tinha sido construída naquela localidade, com uma corda no
pescoço, prostrou-se por terra com toda a humildade diante do altar.
Fazendo votos e multiplicando as preces, com seus suspiros e gemidos
mereceu ter São Francisco como patrono diante de Cristo. O pai
logo voltou para o filho e, encontrando-o devolvido à saúde, mudou
o luto em alegria.
62. Na Sicília, no burgo de Piazza, já celebravam os ritos
eclesiásticos pela alma de um jovem; mas, quando um tio fez um voto a
São Francisco, pela intercessão do santo o moço foi chamado da
porta da morte para a vida.
63. No mesmo burgo, um moço chamado Alexandre estava puxando uma
corda com companheiros em cima de um profundo precipício.
Partindo-se a corda, ele caiu no buraco e foi recolhido como morto.
Mas seu pai, entre lágrimas e soluços, fez um voto a Francisco,
santo de Cristo, e o recebeu sadio e incólume.
64. Uma mulher da mesma localidade, que sofria de tuberculose,
chegou ao extremo e lhe fizeram a encomendação da alma; mas o pai
santíssimo foi invocado pelos presentes e ela foi devolvida à saúde
na mesma hora.
65. Em Rete, na diocese de Cosenza, aconteceu que dois meninos que
lá moravam brigaram na escola e um foi ferido pelo outro no peito com
tanta gravidade que, com o estômago muito afetado, punha para fora o
alimento sem digerir e não conseguia alimentar-se. Não conseguia
nem digerir a comida nem mante-la em algum lugar, mas a expelia pela
ferida. Como nenhum médico foi capaz de curá-lo, os pais e ele,
por conselho de um frade, perdoaram o que tinha feito o ferimento e
fizeram voto a São Francisco: se arrancasse da boca da morte o
menino mortalmente ferido e desenganado pelos médicos, mandá-lo-iam
para sua igreja, e a enfeitariam em toda a volta com velas. Feito o
voto, o menino ficou tão completa e admiravelmente libertado que os
médicos de Palermo acharam que não teria sido menor o milagre se
tivesse sido ressuscitado dos mortos.
66. Enquanto duas pessoas se aproximavam juntas do Monte Trapani
para seus negócios, uma ficou doente a ponto de morrer. Os médicos
que foram chamados vieram, mas não conseguiram a cura. O companheiro
sadio fez voto a São Francisco e prometeu que, se o doente ficasse
curado pelos seus méritos, observaria sua festa anual assistindo à
Missa solene. Feito o voto, voltou para casa e encontrou
restabelecido na saúde anterior aquele que pouco antes tinha deixado
sem voz nem consciência, julgando que já tinha pago a dívida da
dissolução.
67. Um menino da cidade de Todi, esteve oito dias na cama, como
morto. Boca completamente cerrada, olhos apagados, com a pele do
rosto, mãos e pés preta como uma panela, todos tinham desesperado de
sua salvação, mas a mãe fez um voto e ele ficou curado com uma
rapidez admirável. Apesar de ser muito pequeno e não saber falar,
dizia balbuciando que tinha sido libertado por Francisco.
68. Um moço, como morava em um lugar muito alto e caiu lá de cima,
perdeu a fala e o uso de todos os membros; passou três dias sem comer
nem beber ou sentir nada, sendo tido como morto. Mas a mãe, sem
pedir a ajuda de nenhum médico, implorou a São Francisco pela sua
saúde. Feito o voto, recebendo-o vivo e incólume, começou a
louvar a onipotência do Criador.
69. Um menino de Arezzo, chamado Gualter, sofria de contínuas
febres, tinha dois abscessos e foi desenganado por todos os médicos.
Por um voto dos pais feito a São Francisco, restabeleceu-se na
desejada saúde.
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