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26. O bem-aventurado Francisco se enchia cada vez mais da
consolação e da graça do Espírito Santo. Com todo o cuidado e
solicitude, dava a seus novos filhos a nova formação, ensinando-os
a trilhar com passo seguro o caminho da santa pobreza e da
bem-aventurada simplicidade.
Certo dia, admirando a misericórdia do Senhor nos muitos benefícios
que executava por seu intermédio, e desejando que o Senhor se
dignasse mostrar-lhe como ele e os seus deveriam progredir na
perfeição, foi para um lugar de oração, como fazia com
freqüência. Lá ficou bastante tempo rezando com temor e tremor,
diante do Senhor de toda a terra. Relembrando com amargura os anos
que aproveitara mal, repetia sem cessar: "Meu Deus, tende
compaixão de mim que sou pecador". Pouco a pouco começou a sentir o
coração inundar-se de uma alegria incontável e de uma suavidade sem
tamanho. Também começou a sentir que saía de si mesmo,
dissipando-se os temores e as trevas que se tinham juntado em seu
coração por medo do pecado, e lhe foi infundida uma certeza da
remissão de todos os pecados e uma confiança de que viveria da
graça. Arrebatado em êxtase e absorvido totalmente em claridade,
alargou-se a sua mente e pôde ver com clareza os acontecimentos
futuros. Quando a suavidade e a luz se afastaram, ele, renovado no
espírito, parecia transformado em um novo homem.
27. Voltou todo alegre e disse aos irmãos: "Consolai-vos,
caríssimos, e alegrai-vos no Senhor. Não vos entristeçais por
parecerdes poucos, nem vos desanime a minha simplicidade ou a vossa,
porque, como o Senhor me mostrou na verdade, Deus nos vai fazer
crescer como a maior das multidões e vai propagar-nos até os confins
da terra. Para vosso maior proveito, sou obrigado a contar o que vi.
Preferiria calar-me, se a caridade não me obrigasse a contá-lo.
Vi uma enorme multidão de homens vindo a nós e querendo viver conosco
este gênero de vida e esta Regra de santa religião. Parece-me ter
ainda em meus ouvidos o seu rumor, indo e vindo conforme a disposição
da obediência. Vi o que pareciam caminhos apinhados de gente vinda de
quase de todas as nações: vêm franceses, apressam-se espanhóis,
correm alemães e ingleses e se adianta uma multidão enorme de outras
línguas diversas". Ouvindo isso, os frades se encheram de salutar
alegria, tanto pela graça que o Senhor concedera ao seu santo como
porque tinham sede ardente do bem do próximo, desejando aumentar em
número, para em Deus poderem ser salvos todos juntos.
28. Disse-lhes o santo: "Irmãos, para agradecermos fiel e
devotamente a Deus nosso Senhor por todos os seus dons, e para que
saibais o que há de ser de nós e de nossos irmãos futuros,
compreendei a verdade do que vai acontecer. No começo desta nossa
vida vamos encontrar alguns frutos doces e deliciosos. Depois serão
oferecidos outros de menor sabor e doçura. No fim, serão dados
alguns cheios de amargor, de que não poderemos viver, porque sua
acidez será intragável para todos, apesar da aparência de frutos
belos e cheirosos. Entretanto, como vos disse, o Senhor fará de
nós um grande povo. Mas no fim vai acontecer como quando um pescador
lança suas redes no mar ou em algum lago e recolhe uma grande
quantidade de peixes. Despeja-os na barca, mas, não podendo levar
todos por serem demasiados, escolhe os maiores e melhores para os
cestos, jogando os outros fora".
A grande verdade que encerram essas palavras proféticas e a exatidão
com que se cumpriram são muito claras para os que pensam com
imparcialidade. Foi assim que o espírito da profecia repousou sobre
São Francisco.
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