CAPÍTULO 14. Volta de Roma para o vale de Espoleto.- Uma pausa no caminho

34. Muito contentes com a bondade e generosidade do grande pai e senhor, Francisco e seus irmãos deram graças a Deus todo-poderoso, que exalta os humildes e conforta os aflitos. Foram logo visitar o túmulo de São Pedro e, terminada a oração, saíram de Roma e tomaram o caminho do vale de Espoleto.

Durante a viagem, conversavam sobre tantos e tão grandes dons de Deus clementíssimo: como tinham sido cordialmente recebidos pelo vigário de Cristo, senhor e pai de todo o povo cristão; como poderiam pôr em prática suas admoestações e preceitos; como poderiam observar com sinceridade e guardar com firmeza a Regra que tinham recebido; como fariam para viver diante de Deus com toda santidade e religiosidade; como, finalmente, sua vida e costumes, pelo crescimento das virtudes, poderiam servir de exemplo para os outros.

Mas, enquanto os novos discípulos de Cristo discutiam bastante sobre esses assuntos, como numa escola de humildade, o dia se adiantou e a hora passou. Chegaram a um lugar solitário, muito cansados, e, com fome, não conseguiram nada para comer, porque estavam longe de qualquer povoação. Subitamente, porém, por graça de Deus, encontraram um homem com um pão. Deu-lho e se foi. Como não o conheciam, ficaram profundamente admirados. Cheios de devoção, exortavam-se mutuamente a ter maior confiança na misericórdia de Deus.

Reconfortados pelo alimento, chegaram a um lugar perto de Orte, e ali ficaram quase quinze dias. Para terem o que comer, alguns deles iam à cidade e levavam aos outros o pouco que podiam recolher, mendigando de porta em porta. Comiam juntos, cheios de alegria e dando graças. Se sobrava alguma coisa, não tendo ninguém a quem dar, guardavam-na em um sepulcro que já servira para guardar corpos de mortos, para comê-la depois. O lugar era deserto e abandonado e pouca gente, ou ninguém, passava por ali.

35. Grande era seu regozijo por nada verem, nem possuírem que os pudesse prender às coisas vãs e agradáveis aos sentidos. Por isso iniciaram aí sua aliança com a santa pobreza e, extraordinariamente consolados pela falta de todas as coisas que são do mundo, decidiram permanecer sempre unidos a ela, como estavam ali. Pondo de lado toda solicitude pelos bens terrenos, só lhes interessava a consolação de Deus. Por isso resolveram com firmeza não se apartar dos braços da pobreza por maiores que fossem as tribulações e tentações.

Embora a amenidade daquele lugar, que bem lhes poderia debilitar o vigor do espírito, não os estivesse prendendo, eles o abandonaram para que uma permanência mais longa não tivesse nem exteriormente alguma aparência de posse, e, seguindo o feliz pai, entraram no vale de Espoleto.

Fiéis cultores da justiça, discutiam também se deveriam permanecer entre os homens ou retirar-se para lugares desertos. Mas São Francisco, que não confiava em sua sabedoria mas prevenia tudo com a santa oração, preferiu não viver apenas para si mesmo, mas para aquele que morreu por todos, convencido de que tinha sido mandado para conquistar para Deus as almas que o demônio se empenhava em arrebatar.