CAPÍTULO 15. Fama de São Francisco. Conversão de muitos. Como a Ordem se chamou dos Frades Menores. Instruções de São Francisco aos que entram na Ordem

36. Valoroso soldado de Cristo, Francisco percorria as cidades e povoados anunciando o reino de Deus, proclamando a paz, pregando a salvação e a penitência para a remissão dos pecados, sem usar os argumentos da sabedoria humana, mas a doutrina e a força do Espírito.

Apoiado na autorização apostólica que lhe tinha sido concedida, agia em tudo destemidamente, sem adular nem tentar seduzir ninguém com moleza. Não sabia lisonjear as culpas de ninguém, mas pungi-las. Não tentava desculpar a vida dos pecadores, mas atacava-os com áspera reprimenda, tanto mais que tinha posto primeiro em prática as coisas que estava dizendo aos outros. Sem medo de que o repreendessem, anunciava a verdade destemidamente, de maneira que até os homens mais letrados, que gozavam de renome e dignidade, admiravam seus sermões e em sua presença sentiam-se possuídos de temor salutar. Acorriam homens e mulheres, clérigos e religiosos, para verem e ouvirem o santo de Deus, que a todos parecia um homem de outro mundo.

Sem distinção de idade ou sexo, corriam todos assistir as maravilhas que Deus estavam realizando outra vez por seu servo neste mundo. Na verdade, parecia que, naquele tempo, tanto pela presença como pela simples fama de São Francisco, tivesse sido enviada uma luz nova do céu para a terra, espantando toda escuridão das trevas, que a tal ponto tinha ocupado quase toda a região, que mal dava para alguém saber onde se estava indo. Tão profundos eram em quase todos o esquecimento de Deus e a negligência na observância de seus mandamentos, que quase não se conseguia afastar alguém de seus inveterados vícios.

37. Brilhava como uma estrela fulgente na escuridão da noite e como a aurora que se estende sobre as trevas. Dessa maneira, dentro de pouco tempo, tinha sido completamente mudada a aparência da região, que parecia por toda parte mais alegre, livre da antiga fealdade. Acabara a prolongada seca e brotara a messe no campo áspero. Até a vinha descuidada se cobriu de brotos que espalhavam o perfume do Senhor e, dando flores de suavidade, carregou-se de frutos de honra e honestidade. Ressoavam por toda parte a ação de graças e o louvor, e por isso foram muitos os que quiseram deixar os cuidados mundanos para chegar ao conhecimento de si mesmos na vida e na escola do santo pai Francisco, caminhando para o amor de Deus e o seu culto.

Começaram a vir a São Francisco muitas pessoas do povo, nobres e plebeus, clérigos e leigos, querendo por inspiração de Deus militar para sempre sob sua orientação e magistério. O santo de Deus, como um rio caudaloso de graça celeste, derramando a chuva dos carismas, enriquecia o campo de seus corações com as flores das virtudes. Pois era um artista consumado que apresentava o exemplo, a Regra e os ensinamentos de acordo com os quais, tanto nos homens como nas mulheres, a Igreja de Cristo rejuvenescia e triunfava o tríplice exército dos predestinados. A todos propunha uma norma de vida e demonstrava com garantias o caminho da salvação em todos os graus.

38.Mas o nosso principal assunto agora é a Ordem, que assumiu e sustentou tanto por seu amor como por sua profissão. Que diremos? Foi ele mesmo quem fundou a Ordem dos Frades Menores e assim lhe deu o nome: quando estavam escrevendo na Regra: "e sejam menores", ao ouvir essas palavras disse: "Quero que esta fraternidade seja chamada Ordem dos Frades Menores".

De fato, eram menores, porque eram "submissos a todos", sempre procuravam o pior lugar e queriam exercer o ofício em que pudesse haver alguma desonra, para merecerem ser colocados sobre a base sólida da humildade verdadeira e neles pudesse crescer auspiciosamente a construção espiritual de todas as virtudes.

Em verdade, sobre o fundamento da constância levantou-se a nobre construção da caridade, na qual as pedras vivas, recolhidas em todas as partes do mundo, tornaram-se templo do Espírito Santo. Que caridade enorme abrasava os novos discípulos de Cristo! Quão forte era o laço que os unia no amor do piedoso grupo! Quando se reuniam em algum lugar, ou quando se encontravam em viagem, reacendia-se o fogo do amor espiritual, espargindo suas sementes de amizade verdadeira sobre todo o amor. E como? Com castos abraços, com terno afeto, com ósculos santos, uma conversa amiga, sorrisos modestos, semblante alegre, olhar simples, ânimo suplicante, língua moderada, respostas afáveis, o mesmo desejo, pronto obséquio e disponibilidade incansável.

39. O fato é que, tendo desprezado todas as coisas terrenas e estando livres do amor-próprio, consagravam todo o seu afeto aos irmãos, oferecendo-se todos para atender às necessidades fraternas. Reuniam-se com prazer e gostavam de estar juntos: para eles era pesado estarem separados, o afastamento era amargo e partir era doloroso.

Nada ousavam esses obedientíssimos soldados de Cristo antepor aos preceitos da obediência. Antes de acabarem de receber uma ordem, já se preparavam para cumprí-la. Como não sabiam fazer distinções de preceitos, precipitavam-se a executar tudo que lhes era mandado, sem fazer reparos.

"Seguidores da santíssima pobreza" porque não tinham nada, nada desejavam, e por isso não tinham medo de perder coisa alguma. Estavam contentes com uma única túnica, remendada às vezes por dentro e por fora: não lhes servia de enfeite mas de desprezo e pobreza, para poderem mostrar claramente que nela estavam crucificados para o mundo. Cingiam-se com uma corda e usavam calças de pano rude, fazendo o piedoso propósito de ficar simplesmente assim, sem ter mais nada.

Naturalmente estavam seguros em qualquer lugar, sem nenhum temor, cuidado ou preocupação pelo dia seguinte, nem se incomodavam com o abrigo que teriam à noite, mesmo nas grandes dificuldades, freqüentes nas viagens. Pois, como muitas vezes nem tinham onde se abrigar do frio mais rigoroso, recolhiam-se a um forno ou se escondiam humildemente, à noite, em grutas ou cavernas.

Durante o dia, os que sabiam trabalhavam com as próprias mãos, permanecendo nas casas dos leprosos ou outros lugares de respeito, servindo a todos com humildade e devoção. Não queriam exercer ofício algum que pudesse causar escândalo, mas, fazendo sempre coisas santas e justas, honestas e úteis, davam exemplo de humildade e de paciência a todos.

40. Tinham adquirido tanta paciência que preferiam estar nos lugares onde os perseguiam e não onde sua santidade fosse conhecida e louvada, e assim pudessem conseguir os favores do mundo. Foram muitas vezes cobertos de opróbrios e de ofensas, despidos, açoitados, amarrados, encarcerados, sem recorrer à proteção de ninguém, e suportavam tudo varonilmente, vindo à sua boca apenas a voz do louvor e da ação de graças.

Poucas vezes, ou nunca, deixavam de louvar a Deus ou de rezar, mas estavam sempre lembrando uns aos outros tudo que tinham feito, agradecendo a Deus pelas coisas boas, gemendo e chorando pelas negligências e descuidos. Julgavam-se abandonados por Deus se não fossem por Ele visitados com a piedade habitual no espírito da devoção. Para não dormirem quando queriam rezar, usavam algum expediente: uns se agarravam a cordas suspensas para que a chegada do sono não perturbasse a oração, outros se cingiam com cilícios de ferro e ainda outros rodeavam a cintura com instrumentos de madeira. Se alguma vez a abundância de comida ou de bebida, como pode acontecer, perturbava sua sobriedade, ou pelo cansaço do caminho passavam além da necessidade absoluta, mortificavam-se com uma abstinência de muitos dias. Afinal, punham tanto esforço em reprimir as tentações da carne, que muitas vezes não se horrorizavam de despir-se no gelo mais frio, nem de molhar o corpo todo com o sangue derramado por duros espinhos.

41. Desprezavam tão fortemente todas as coisas terrenas que mal se permitiam receber o que era extremamente necessário para a vida, e estavam tão acostumados a passar sem as consolações do corpo, que não os assustavam os maiores sacrifícios.

Em tudo isso guardavam a paz e a mansidão com todas as pessoas. Fazaendo sempre coisas puras e pacíficas,evitavam cuidadosamente todo escândalo. Apenas falavam quando era necessário e de sua boca nunca saía nada de inconveniente ou ocioso: em sua vida e procedimento não se podia descobrir nada de lascivo ou desonesto.

Seus gestos eram comedidos e seu andar simples. Tinham os sentidos tão mortificados que mal pareciam ver ou ouvir senão o que lhes estava pedindo a atenção. Tinham os olhos na terra, mas o pensamento no céu. Nem inveja, nem malícia, ou rancor, nem duplicidade, suspeição ou amargura neles existiam, mas apenas muita concórdia, calma contínua, ação de graças e louvor. Era com esses princípios que o piedoso pai formava seus novos filhos, não só com palavras e doutrina, mas de verdade e com o exemplo.