|
36. Valoroso soldado de Cristo, Francisco percorria as cidades e
povoados anunciando o reino de Deus, proclamando a paz, pregando a
salvação e a penitência para a remissão dos pecados, sem usar os
argumentos da sabedoria humana, mas a doutrina e a força do
Espírito.
Apoiado na autorização apostólica que lhe tinha sido concedida,
agia em tudo destemidamente, sem adular nem tentar seduzir ninguém com
moleza. Não sabia lisonjear as culpas de ninguém, mas pungi-las.
Não tentava desculpar a vida dos pecadores, mas atacava-os com
áspera reprimenda, tanto mais que tinha posto primeiro em prática as
coisas que estava dizendo aos outros. Sem medo de que o
repreendessem, anunciava a verdade destemidamente, de maneira que até
os homens mais letrados, que gozavam de renome e dignidade, admiravam
seus sermões e em sua presença sentiam-se possuídos de temor
salutar. Acorriam homens e mulheres, clérigos e religiosos, para
verem e ouvirem o santo de Deus, que a todos parecia um homem de outro
mundo.
Sem distinção de idade ou sexo, corriam todos assistir as maravilhas
que Deus estavam realizando outra vez por seu servo neste mundo. Na
verdade, parecia que, naquele tempo, tanto pela presença como pela
simples fama de São Francisco, tivesse sido enviada uma luz nova do
céu para a terra, espantando toda escuridão das trevas, que a tal
ponto tinha ocupado quase toda a região, que mal dava para alguém
saber onde se estava indo. Tão profundos eram em quase todos o
esquecimento de Deus e a negligência na observância de seus
mandamentos, que quase não se conseguia afastar alguém de seus
inveterados vícios.
37. Brilhava como uma estrela fulgente na escuridão da noite e como
a aurora que se estende sobre as trevas. Dessa maneira, dentro de
pouco tempo, tinha sido completamente mudada a aparência da região,
que parecia por toda parte mais alegre, livre da antiga fealdade.
Acabara a prolongada seca e brotara a messe no campo áspero. Até a
vinha descuidada se cobriu de brotos que espalhavam o perfume do Senhor
e, dando flores de suavidade, carregou-se de frutos de honra e
honestidade. Ressoavam por toda parte a ação de graças e o louvor,
e por isso foram muitos os que quiseram deixar os cuidados mundanos para
chegar ao conhecimento de si mesmos na vida e na escola do santo pai
Francisco, caminhando para o amor de Deus e o seu culto.
Começaram a vir a São Francisco muitas pessoas do povo, nobres e
plebeus, clérigos e leigos, querendo por inspiração de Deus
militar para sempre sob sua orientação e magistério. O santo de
Deus, como um rio caudaloso de graça celeste, derramando a chuva dos
carismas, enriquecia o campo de seus corações com as flores das
virtudes. Pois era um artista consumado que apresentava o exemplo, a
Regra e os ensinamentos de acordo com os quais, tanto nos homens como
nas mulheres, a Igreja de Cristo rejuvenescia e triunfava o tríplice
exército dos predestinados. A todos propunha uma norma de vida e
demonstrava com garantias o caminho da salvação em todos os graus.
38.Mas o nosso principal assunto agora é a Ordem, que assumiu e
sustentou tanto por seu amor como por sua profissão. Que diremos?
Foi ele mesmo quem fundou a Ordem dos Frades Menores e assim lhe deu
o nome: quando estavam escrevendo na Regra: "e sejam menores", ao
ouvir essas palavras disse: "Quero que esta fraternidade seja chamada
Ordem dos Frades Menores".
De fato, eram menores, porque eram "submissos a todos", sempre
procuravam o pior lugar e queriam exercer o ofício em que pudesse haver
alguma desonra, para merecerem ser colocados sobre a base sólida da
humildade verdadeira e neles pudesse crescer auspiciosamente a
construção espiritual de todas as virtudes.
Em verdade, sobre o fundamento da constância levantou-se a nobre
construção da caridade, na qual as pedras vivas, recolhidas em todas
as partes do mundo, tornaram-se templo do Espírito Santo. Que
caridade enorme abrasava os novos discípulos de Cristo! Quão forte
era o laço que os unia no amor do piedoso grupo! Quando se reuniam em
algum lugar, ou quando se encontravam em viagem, reacendia-se o fogo
do amor espiritual, espargindo suas sementes de amizade verdadeira
sobre todo o amor. E como? Com castos abraços, com terno afeto,
com ósculos santos, uma conversa amiga, sorrisos modestos, semblante
alegre, olhar simples, ânimo suplicante, língua moderada,
respostas afáveis, o mesmo desejo, pronto obséquio e disponibilidade
incansável.
39. O fato é que, tendo desprezado todas as coisas terrenas e
estando livres do amor-próprio, consagravam todo o seu afeto aos
irmãos, oferecendo-se todos para atender às necessidades fraternas.
Reuniam-se com prazer e gostavam de estar juntos: para eles era
pesado estarem separados, o afastamento era amargo e partir era
doloroso.
Nada ousavam esses obedientíssimos soldados de Cristo antepor aos
preceitos da obediência. Antes de acabarem de receber uma ordem, já
se preparavam para cumprí-la. Como não sabiam fazer distinções de
preceitos, precipitavam-se a executar tudo que lhes era mandado, sem
fazer reparos.
"Seguidores da santíssima pobreza" porque não tinham nada, nada
desejavam, e por isso não tinham medo de perder coisa alguma.
Estavam contentes com uma única túnica, remendada às vezes por
dentro e por fora: não lhes servia de enfeite mas de desprezo e
pobreza, para poderem mostrar claramente que nela estavam crucificados
para o mundo. Cingiam-se com uma corda e usavam calças de pano
rude, fazendo o piedoso propósito de ficar simplesmente assim, sem
ter mais nada.
Naturalmente estavam seguros em qualquer lugar, sem nenhum temor,
cuidado ou preocupação pelo dia seguinte, nem se incomodavam com o
abrigo que teriam à noite, mesmo nas grandes dificuldades,
freqüentes nas viagens. Pois, como muitas vezes nem tinham onde se
abrigar do frio mais rigoroso, recolhiam-se a um forno ou se escondiam
humildemente, à noite, em grutas ou cavernas.
Durante o dia, os que sabiam trabalhavam com as próprias mãos,
permanecendo nas casas dos leprosos ou outros lugares de respeito,
servindo a todos com humildade e devoção. Não queriam exercer
ofício algum que pudesse causar escândalo, mas, fazendo sempre
coisas santas e justas, honestas e úteis, davam exemplo de humildade
e de paciência a todos.
40. Tinham adquirido tanta paciência que preferiam estar nos
lugares onde os perseguiam e não onde sua santidade fosse conhecida e
louvada, e assim pudessem conseguir os favores do mundo. Foram muitas
vezes cobertos de opróbrios e de ofensas, despidos, açoitados,
amarrados, encarcerados, sem recorrer à proteção de ninguém, e
suportavam tudo varonilmente, vindo à sua boca apenas a voz do louvor
e da ação de graças.
Poucas vezes, ou nunca, deixavam de louvar a Deus ou de rezar, mas
estavam sempre lembrando uns aos outros tudo que tinham feito,
agradecendo a Deus pelas coisas boas, gemendo e chorando pelas
negligências e descuidos. Julgavam-se abandonados por Deus se não
fossem por Ele visitados com a piedade habitual no espírito da
devoção. Para não dormirem quando queriam rezar, usavam algum
expediente: uns se agarravam a cordas suspensas para que a chegada do
sono não perturbasse a oração, outros se cingiam com cilícios de
ferro e ainda outros rodeavam a cintura com instrumentos de madeira.
Se alguma vez a abundância de comida ou de bebida, como pode
acontecer, perturbava sua sobriedade, ou pelo cansaço do caminho
passavam além da necessidade absoluta, mortificavam-se com uma
abstinência de muitos dias. Afinal, punham tanto esforço em
reprimir as tentações da carne, que muitas vezes não se horrorizavam
de despir-se no gelo mais frio, nem de molhar o corpo todo com o
sangue derramado por duros espinhos.
41. Desprezavam tão fortemente todas as coisas terrenas que mal se
permitiam receber o que era extremamente necessário para a vida, e
estavam tão acostumados a passar sem as consolações do corpo, que
não os assustavam os maiores sacrifícios.
Em tudo isso guardavam a paz e a mansidão com todas as pessoas.
Fazaendo sempre coisas puras e pacíficas,evitavam cuidadosamente todo
escândalo. Apenas falavam quando era necessário e de sua boca nunca
saía nada de inconveniente ou ocioso: em sua vida e procedimento não
se podia descobrir nada de lascivo ou desonesto.
Seus gestos eram comedidos e seu andar simples. Tinham os sentidos
tão mortificados que mal pareciam ver ou ouvir senão o que lhes estava
pedindo a atenção. Tinham os olhos na terra, mas o pensamento no
céu. Nem inveja, nem malícia, ou rancor, nem duplicidade,
suspeição ou amargura neles existiam, mas apenas muita concórdia,
calma contínua, ação de graças e louvor. Era com esses
princípios que o piedoso pai formava seus novos filhos, não só com
palavras e doutrina, mas de verdade e com o exemplo.
|
|