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42. São Francisco e os outros recolheram-se em um lugar perto de
Assis, chamado Rivotorto. Havia ali uma cabana abandonada, onde
viveram aqueles homens, que não faziam questão de casas grandes e
bonitas, e lá se defendiam da chuva. "Pois, como diz um santo, de
uma cabana vai-se mais depressa para o céu do que de um palácio".
Os filhos e irmãos viviam nesse lugar com o bem-aventurado pai,
trabalhando bastante e sofrendo escassez de tudo. Faltou-lhes muitas
vezes até o pão, precisando contentar-se com os nabos penosamente
mendigados pela planície de Assis. Sua casa era tão apertada que
mal podiam sentar-se ou descansar. Mas não se ouviam queixas ou
murmurações: calmos e alegres, mantinham a paciência.
Todo dia, para não dizer sempre, São Francisco examinava
diligentemente a si mesmo e aos seus, sem permitir neles falha alguma,
e afastando toda negligência de seus corações. Era constante sua
vigilância sobre si mesmo e rígida sua disciplina. Se tinha alguma
tentação, como acontece, mergulhava durante o inverno num buraco
cheio de gelo e lá ficava até passar toda rebelião da carne. E os
outros seguiam com fervor todo esse exemplo de mortificação.
43. Ensinava-os não só a mortificar as paixões e a reprimir os
impulsos da carne, mas até os sentidos exteriores, pelos quais a
morte entra na alma. Passou por ali, naquele tempo, o imperador
Otão, para receber a coroa do império terreno. Apesar do enorme
ruído e pompa, o santo pai e seus companheiros, cuja cabana ficava à
beira do caminho, nem saiu para vê-lo, nem permitiu que ninguém
olhasse, a não ser um, a quem mandou para anunciar-lhe repetidamente
que sua glória ia durar pouco.
Pois o glorioso santo permanecia recolhido em si mesmo, passeando pelo
espaço de seu coração, onde preparava uma habitação digna de
Deus. Por isso seus ouvidos não se deixavam levar pelo clamor de
fora, e voz alguma podia distraí-lo ou interromper sua importante
ocupação. Sentia-se investido de autoridade apostólica e por isso
se recusava absolutamente a bajular reis e príncipes.
44. Agia sempre com santa simplicidade e não permitia que o aperto
do lugar lhe prejudicasse a amplidão do coração. Por isso escreveu
o nome dos irmãos nos caibros da cabana, para que cada um soubesse seu
lugar quando quisesse orar ou repousar, e não se perturbasse o
silêncio espiritual pela estreiteza do ambiente.
Ainda moravam nesse lugar no dia em que apareceu um homem conduzindo um
jumento, na porta da cabana em que o homem de Deus estava com os seus
companheiros. Temendo ser rejeitado, instigava o animal a entrar,
dizendo: "Entra, que vamos melhorar este lugar". Ouvindo isso,
São Francisco ficou muito chocado, pois entendeu a intenção do
homem: pensava que os frades queriam morar naquele lugar para
promovê-lo e construir casas. São Francisco saiu imediatamente
dali, abandonando a cabana por causa da palavra do camponês.
Transferiu-se para outro lugar, não muito afastado, chamado
Porciúncula, onde, como dissemos, tinha reparado tempos atrás a
igreja de Nossa Senhora. Não queria ter propriedade nenhuma, para
poder possuir tudo no Senhor em maior plenitude.
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