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45. Rogaram-lhe os frades, nesse tempo, que os ensinasse a
rezar, porque, vivendo na simplicidade, ainda não conheciam o
ofício eclesiástico. Respondeu-lhes: "Quando orardes, dizei:
'Pai nosso' e 'Nós vos adoramos, ó Cristo, em todas as vossas
igrejas que estão pelo mundo inteiro, e vos bendizemos, porque por
vossa santa cruz remistes o mundo'".
Discípulos do piedoso mestre, os frades procuravam observar tudo com
a maior diligência, porque tratavam de cumprir com exatidão não só
o que o bem-aventurado pai Francisco lhes dizia quando dava conselhos
ou ordens, mas até o que ele estava pensando ou planejando, se
conseguiam saber o que era.
Dizia-lhes também o santo pai que a verdadeira obediência devia ser
até descoberta antes de manifestada e desejada antes de imposta. Isto
é: "Se um irmão que é súdito não só ouvir a voz mas até
perceber a vontade de seu superior, deve tratar de obedecer
imediatamente e de fazer o que, por algum indício, adivinhou que ele
quer".
Em qualquer lugar onde houvesse uma igreja, mesmo que não estivessem
presentes, contanto que a pudessem ver de longe, prostravam-se por
terra na sua direção e, inclinados de corpo e alma, adoravam o
Todo-Poderoso, dizendo: "Nós vos adoramos, ó Cristo, em
todas as vossas igrejas", como lhes ensinara o santo pai. E, o que
não é menos para se admirar, faziam o mesmo onde quer que vissem uma
cruz ou seu sinal, no chão, numa parede, nas árvores ou nas cercas
do caminho.
46. A tal ponto tinham-se enchido de simplicidade, aprendido a
inocência e conseguido a pureza de coração, que detestavam toda
falsidade e, como tinham a mesma fé, tinham também o mesmo
espírito, uma só vontade, um só amor. Eram sempre coerentes,
procediam de acordo, cultivavam as virtudes, procuravam ter as mesmas
opiniões e ser igualmente generosos no que faziam.
Confessavam-se freqüentemente com um padre diocesano, que tinha
muito má fama e merecia o desprezo pela enormidade de seus pecados.
Muita gente chamou a atenção deles para a maldade do padre, mas não
quiseram acreditar de maneira nenhuma e nem por isso deixaram de
confessar-se como de costume, nem lhe perderam o respeito. Uma vez,
esse ou um outro sacerdote disse a um dos frades: "Irmão, não
sejas hipócrita!" O frade, por ser a palavra de um sacerdote, logo
ficou pensando que era mesmo um hipócrita. Lamentava-se por isso dia
e noite, muito penalizado. Perguntaram- lhe, então, os frades por
que estava tão triste e donde lhe vinha esse abatimento incomum, e ele
respondeu: "Um padre me disse que sou hipócrita, e isso me doeu
tanto que nem consigo pensar noutra coisa". Para o consolar, os
irmãos disseram que não devia acreditar nisso. Mas ele respondeu:
"Que estais dizendo? Foi um padre que me disse isso, e um padre
não pode mentir, por isso precisamos acreditar no que ele disse".
Permaneceu muito tempo nessa simplicidade, acalmando-se afinal pela
palavra do santo pai, que lhe explicou melhor o que o padre tinha dito
e desculpou sabiamente sua intenção.
Dificilmente podia algum frade ficar tão perturbado que sua palavra
ardente não lhe afastasse qualquer dúvida e não lhe devolvesse a
serenidade.
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