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51. São Francisco voltou materialmente ao convívio dos seus
frades, embora espiritualmente jamais se tivesse afastado, como
dissemos. Interessava-se continuamente pelos seus, procurando saber
com prudência e atenção o que todos estavam fazendo,e não deixava
de repreendê-los por alguma coisa errada que descobrisse. Olhava
primeiro os defeitos espirituais, depois os exteriores, e por último
tratava de remover todas as ocasiões que costumam abrir as portas aos
pecados.
Com todo o cuidado e especial solicitude cuidava da santa senhora
pobreza. Para impedir que se chegasse a ter coisas supérfluas, não
permitia que tivessem em casa a menor vasilha, se fosse possível
passar sem ela sem cair na extrema necessidade. Dizia que era
impossível satisfazer a necessidade sem condescender com o prazer.
Nunca ou raramente admitiu pratos cozidos. Se os aceitava, muitas
vezes misturava-lhes cinza ou lhes tirava o tempero com água fria.
Quantas vezes, andando pelo mundo a pregar o Evangelho de Deus, foi
convidado para almoçar com importantes príncipes que tinham toda
admiração e veneração por ele, e apenas provava os pratos de carne
para observar o santo Evangelho, mas ia guardando o resto dentro da
roupa, embora parecesse estar comendo. E punha a mão na frente da
boca,para que ninguém percebesse o que estava fazendo.
Quanto a tomar vinho, que poderei dizer, se até quando estava morto
de sede não admitia beber a água que bastasse?
52. Onde quer que se hospedasse, não permitia que sua cama tivesse
colchão e cobertas: era o chão nu que recebia seu corpo despido, em
cima da túnica. Nas poucas vezes que permitia a seu frágil corpo o
favor do sono, era quase sempre sentado e sem se encostar, usando no
lugar do travesseiro algum tronco ou pedra.
Quando, como é natural, tinha desejo de comer, só a custo se
permitia satisfazê-lo. Uma vez, estando doente, comeu um bocado de
carne de galinha. Logo que recuperou as forças foi até Assis.
Chegando à porta da cidade, mandou ao frade que o acompanhava que lhe
amarrasse uma corda no pescoço e o conduzisse assim, feito um
ladrão, por toda a cidade, clamando como um pregoeiro: "Vejam o
comilão que engordou com carne de galinha, que comeu sem vocês
saberem". Muita gente correu para ver o estranho espetáculo e se
pôs a chorar e a gemer dizendo: "Pobres de nós, que passamos nossa
vida cometendo crimes e que saciamos o coração e o corpo com luxúrias
e bebedeiras!" E assim, de coração compungido, foram chamados a
uma vida melhor por tão grande exemplo.
53. Tinha atitudes dessas com muita freqüência, tanto para
desprezar-se com perfeição como para convidar os outros a uma honra
que não se acaba. Julgava-se desprezível, sem temor nem
preocupação pelo corpo, que expunha valentemente aos maus tratos,
para não ser levado por seu amor a cobiçar alguma coisa terrena
Verdadeiro desprezador de si mesmo, sabia ensinar os outros a se
desprezarem também, falando e dando exemplo. Resultado: era
exaltado por todos e todo mundo o tinha em alta conta, pois só ele
mesmo se julgava o mais vil e só ele se desprezava com ardor.
Muitas vezes sentia uma dor imensa quando era venerado por todos e,
para se livrar da consideração humana, encarregava alguém de o
insultar. Também chamava algum irmão e lhe dizia: "Mando-te por
obediência que me injuries com dureza e que digas a verdade contra a
mentira dessa gente". E quando o irmão, contra a vontade, o
chamava de vilão, mercenário e parasita, respondia sorrindo e
aplaudindo bastante: "O Senhor te abençoe porque estás falando as
coisas mais verdadeiras. É isso que o filho de Pedro Bernardone
precisa ouvir!" Dizia isso para lembrar sua origem humilde.
54. Para mostrar quanto era desprezível e para dar aos outros um
exemplo de confissão sincera, quando cometia alguma falta, não se
envergonhava de confessá-la na pregação, diante de todo o povo.
Até mais: se tinha algum pensamento desfavorável sobre alguém, ou
por acaso tivesse dito alguma palavra mais dura, confessava na mesma
hora e humildemente o pecado à própria pessoa de quem tinha pensado ou
dito mal, e lhe pedia perdão. Mesmo que não pudesse fazer a si
mesmo nenhuma censura, pela solicitude com que se guardava, sua
consciência não lhe dava descanso enquanto não conseguia curar com
bondade a ferida espiritual. Gostava de progredir em todo tipo de
empreendimentos,mas não queria aparecer, fugindo à admiração por
todos os meios, para não cair na vaidade.
Pobres de nós, que te perdemos, pai digno e exemplo de toda bondade
e humildade. Foi merecidamente que te perdemos, porque quando te
possuíamos não nos preocupamos em te conhecer!
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