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3. De fato, quando ele ainda vivia no pecado com paixão juvenil,
arrastado pelas paixões da idade e incapaz de controlar- se, poderia
sucumbir ao veneno da antiga serpente. Mas a vigança, ou melhor, a
misericórdia divina, subitamente desperta sua consciência através de
uma angústia na alma e de uma enfermidade no corpo, conforme as
palavras do profeta: "Hei de barrar teu caminho com espinhos e
cercá-lo de muralhas". Prostrado por longa enfermidade, que é o
que merece a teimosia dos homens que não se emendam a não ser com
castigo, começou a refletir consigo mesmo de maneira diferente.
Já um pouco melhor, e apoiado em um bastão, começou a andar pela
casa para recuperar as forças. Certo dia, saiu à rua e começou a
observar com curiosidade a região que o cercava. Mas nem a beleza dos
campos, nem o encanto das vinhedos, nem coisa alguma agradável de se
ver conseguia satisfazê-lo. Ficou surpreso com sua mudança
repentina e começou a julgar loucos os que amavam essas coisas.
4. Desde esse dia, começou a ter-se em menos conta e a desprezar
as coisas que antes tinha admirado e amado. Mas não inteiramente e de
verdade, porque ainda não estava livre das cadeias das vaidades, nem
tinha sacudido do pescoço o jugo da perversa servidão. É muito
difícil deixar as coisas com que alguém se acostumou e não é fácil
libertar-se do que uma vez se aceitou. Mesmo depois de longa
abstenção, o espírito volta ao que tinha aprendido e o costume
geralmente transforma o vício em segunda natureza.
Francisco ainda tentou fugir da mão de Deus e, quase esquecido da
correção paterna, diante de uma oportunidade, pensou nas coisas que
são do mundo e ignorou o conselho de Deus, prometendo a si mesmo o
máximo da glória mundana e da vaidade. Pois um nobre de Assis não
mediu despesas para se armar militarmente e, inchado pela glória vã,
decidiu atacar a Apúlia para ganhar mais dinheiro e honra. Sabendo
disso, Francisco, que era leviano e não pouco audaz, alistou-se
para ir com ele, porque era menos nobre mas de ambição maior, mais
pobre mas também mais generoso.
5. Todo entregue a esse plano e pensando com ardor na partida, certa
noite,aquele que o tinha tocado com a vara da justiça visitou-o em
sonhos, com a doçura da sua graça. E o seduziu e exaltou pelo
fastígio da glória, porque tinha sede de glória.
Pareceu-lhe ver a casa toda cheia de armas: selas, escudos, lanças
e outros aparatos. Muito alegre, admirava-se em silêncio, pensando
no que seria aquilo. Não estava acostumado a ver essas coisas em sua
casa, mas apenas pilhas de fazendas para vender. E ainda estava
aturdido com o acontecimento repentino, quando lhe foi dito que aquelas
armas seriam suas e de seus soldados. Despertando de manhã,
levantou-se alegre e, julgando a visão um presságio de grande
prosperidade, ficou certo de que sua excursão à Apúlia seria um
êxito.
Pois não sabia o que dizia e ainda não entendera nada do dom que lhe
fora feito pelo céu. Em um ponto, poderia ter percebido que sua
interpretação do sonho não era verdadeira porque, embora contivesse
muita semelhança com coisas já acontecidas, dessa vez seu espírito
não estava tão feliz como de costume. Precisava até fazer algum
esforço para executar o que planejara e levar a cabo o seu plano.
É muito interessante esta menção de armas logo aqui no começo.
Muito oportunamente se oferecem armas ao soldado que vai combater o
forte armado e, como um outro Davi em nome do Senhor dos exércitos,
há de libertar Israel do antigo opróbrio dos inimigos.
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