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55. Ardendo em amor de Deus, o santo pai Francisco sempre quis
empreender as coisas mais difíceis, e percorrendo o caminho dos
mandamentos do Senhor com o coração aberto, queria atingir o cume da
perfeição.
No sexto ano de sua conversão, inflamado em veemente anseio do santo
martírio, quis navegar para a Síria, para pregar a fé cristã e a
penitência aos sarracenos e outros infiéis. Tomou um navio que ia
para lá, mas sopravam ventos contrários e foi parar com os outros
navegantes na Esclavônia. Vendo-se frustrado em tão vivo desejo,
pediu pouco tempo depois a uns marinheiros que iam para Ancona que o
levassem, porque naquele ano quase nenhum navio pôde ir para a
Síria. Como eles se recusassem firmemente a levá- lo, porque não
podia pagar, o santo confiou muito na vontade do Senhor e entrou
escondido no navio com o seu companheiro. Por providência divina,
uma pessoa que ninguém conhecia chegou trazendo provisões, chamou um
homem temente a Deus que ia no navio e lhe disse: "Leva contigo tudo
isto e, quando for necessário, deverás dá-las fielmente aos pobres
que estão escondidos nesse navio". E assim aconteceu que,
levantando-se uma tempestade enorme, passaram dias lutando com os
remos e consumiram todas as provisões, sobrando apenas a comida do
pobre Francisco. Mas, pela graça e o poder de Deus, essa comida
se multiplicou de tal modo que, embora tenham passado muitos outros
dias a navegar, foi suficiente para satisfazer bem a necessidade de
todos, até chegarem ao porto de Ancona. Quando os marinheiros
perceberam que tinham escapado dos perigos do mar por intermédio do
servo de Deus São Francisco, deram graças ao Senhor
todo-poderoso, que em seus servidores sempre se mostra bondoso e
admirável.
56. Deixando o mar, Francisco, servo de Deus altíssimo,
caminhou pela terra e, abrindo-a com o arado da palavra, semeou a
semente da vida, produzindo um fruto abençoado. Bem depressa muitos
homens de valor, clérigos e leigos, fugindo do mundo e escapando
valorosamente ao demônio, por graça e vontade do Altíssimo,
seguiram sua vida e seu caminho.
Todavia, embora produzissem frutos abundantes e saborosos, como a
palmeira do Evangelho, não bastaram para esfriar a sua decisão
sublime do martírio ardentemente desejado. Pois algum tempo depois
empreendeu uma viagem ao Marrocos, para pregar o Evangelho de Cristo
ao Miramolim e a seus sequazes. Seu entusiasmo era tanto que, às
vezes, deixava para trás seu companheiro de viagem, na pressa de
realizar seu intento com verdadeira embriaguez espiritual. Mas o bom
Deus lembrou-se em sua misericórdia de mim e de muitos outros, e se
opôs frontalmente a ele quando já tinha chegado à Espanha,
impedindo-o de continuar o caminho por uma doença que o fez voltar
atrás.
57. Não fazia muito tempo que tinha voltado a Santa Maria da
Porciúncula, quando alguns homens de letras e alguns nobres
juntaram-se a ele com grande satisfação. A estes, sempre educado e
discreto, tratou com respeito e dignidade, servindo piedosamente a
cada um conforme lhe cabia. Dotado de especial discrição, sabia
respeitar, em todos, os graus do seu valor.
Mas ainda não podia ficar sossegado, deixando de seguir com fervor o
seu sagrado impulso. No décimo terceiro ano de sua conversão, foi
para a Síria e, embora recrudescessem cada dia terríveis e duros
combates entre cristãos e pagãos, não teve medo de se apresentar ao
sultão dos sarracenos, levando um companheiro.
Quem vai poder contar a coragem com que se manteve diante dele, a
fortaleza com que falou, a eloqüência e a confiança com que
respondeu aos que insultavam a lei cristã? Preso pelos guardas antes
de chegar ao sultão, não se assustou nem quando foi ofendido e
açoitado, não recuou diante de suplícios e não ficou com medo nem
da ameaça de morte. Foi maltratado por muitos que eram hostis e
adversos, mas o sultão o recebeu muito bem. Reverenciou-o quanto
lhe foi possível e lhe ofereceu muitos presentes, tentando
convertê-lo para o espírito mundano. Mas, quando viu que ele
desprezava valentemente todas as coisas como se não passassem de
esterco, ficou admiradíssimo e olhava para ele como um homem
diferente. Ficou muito comovido com suas palavras e o ouviu de muito
boa vontade.
Apesar de tudo isso, o Senhor não satisfez o seu desejo, pois lhe
estava reservando o privilégio de uma graça especial.
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