CAPÍTULO 20. Seu desejo de martírio leva-o à Espanha e depois à Síria. Por sua intercessão, Deus livra os marinheiros do perigo, multiplicando a comida

55. Ardendo em amor de Deus, o santo pai Francisco sempre quis empreender as coisas mais difíceis, e percorrendo o caminho dos mandamentos do Senhor com o coração aberto, queria atingir o cume da perfeição.

No sexto ano de sua conversão, inflamado em veemente anseio do santo martírio, quis navegar para a Síria, para pregar a fé cristã e a penitência aos sarracenos e outros infiéis. Tomou um navio que ia para lá, mas sopravam ventos contrários e foi parar com os outros navegantes na Esclavônia. Vendo-se frustrado em tão vivo desejo, pediu pouco tempo depois a uns marinheiros que iam para Ancona que o levassem, porque naquele ano quase nenhum navio pôde ir para a Síria. Como eles se recusassem firmemente a levá- lo, porque não podia pagar, o santo confiou muito na vontade do Senhor e entrou escondido no navio com o seu companheiro. Por providência divina, uma pessoa que ninguém conhecia chegou trazendo provisões, chamou um homem temente a Deus que ia no navio e lhe disse: "Leva contigo tudo isto e, quando for necessário, deverás dá-las fielmente aos pobres que estão escondidos nesse navio". E assim aconteceu que, levantando-se uma tempestade enorme, passaram dias lutando com os remos e consumiram todas as provisões, sobrando apenas a comida do pobre Francisco. Mas, pela graça e o poder de Deus, essa comida se multiplicou de tal modo que, embora tenham passado muitos outros dias a navegar, foi suficiente para satisfazer bem a necessidade de todos, até chegarem ao porto de Ancona. Quando os marinheiros perceberam que tinham escapado dos perigos do mar por intermédio do servo de Deus São Francisco, deram graças ao Senhor todo-poderoso, que em seus servidores sempre se mostra bondoso e admirável.

56. Deixando o mar, Francisco, servo de Deus altíssimo, caminhou pela terra e, abrindo-a com o arado da palavra, semeou a semente da vida, produzindo um fruto abençoado. Bem depressa muitos homens de valor, clérigos e leigos, fugindo do mundo e escapando valorosamente ao demônio, por graça e vontade do Altíssimo, seguiram sua vida e seu caminho.

Todavia, embora produzissem frutos abundantes e saborosos, como a palmeira do Evangelho, não bastaram para esfriar a sua decisão sublime do martírio ardentemente desejado. Pois algum tempo depois empreendeu uma viagem ao Marrocos, para pregar o Evangelho de Cristo ao Miramolim e a seus sequazes. Seu entusiasmo era tanto que, às vezes, deixava para trás seu companheiro de viagem, na pressa de realizar seu intento com verdadeira embriaguez espiritual. Mas o bom Deus lembrou-se em sua misericórdia de mim e de muitos outros, e se opôs frontalmente a ele quando já tinha chegado à Espanha, impedindo-o de continuar o caminho por uma doença que o fez voltar atrás.

57. Não fazia muito tempo que tinha voltado a Santa Maria da Porciúncula, quando alguns homens de letras e alguns nobres juntaram-se a ele com grande satisfação. A estes, sempre educado e discreto, tratou com respeito e dignidade, servindo piedosamente a cada um conforme lhe cabia. Dotado de especial discrição, sabia respeitar, em todos, os graus do seu valor.

Mas ainda não podia ficar sossegado, deixando de seguir com fervor o seu sagrado impulso. No décimo terceiro ano de sua conversão, foi para a Síria e, embora recrudescessem cada dia terríveis e duros combates entre cristãos e pagãos, não teve medo de se apresentar ao sultão dos sarracenos, levando um companheiro.

Quem vai poder contar a coragem com que se manteve diante dele, a fortaleza com que falou, a eloqüência e a confiança com que respondeu aos que insultavam a lei cristã? Preso pelos guardas antes de chegar ao sultão, não se assustou nem quando foi ofendido e açoitado, não recuou diante de suplícios e não ficou com medo nem da ameaça de morte. Foi maltratado por muitos que eram hostis e adversos, mas o sultão o recebeu muito bem. Reverenciou-o quanto lhe foi possível e lhe ofereceu muitos presentes, tentando convertê-lo para o espírito mundano. Mas, quando viu que ele desprezava valentemente todas as coisas como se não passassem de esterco, ficou admiradíssimo e olhava para ele como um homem diferente. Ficou muito comovido com suas palavras e o ouviu de muito boa vontade.

Apesar de tudo isso, o Senhor não satisfez o seu desejo, pois lhe estava reservando o privilégio de uma graça especial.