CAPÍTULO 22. Pregação de São Francisco em Ascoli. Doentes curados por objetos tocados por ele

62. No tempo em que contamos que pregou aos pássaros, andava o santo Pai pelas cidades e povoados e, espalhando as sementes de bênção por toda parte, chegou à cidade de Ascoli. Pregou aí com todo o fervor, como costumava e, pela mão de Deus, o povo quase todo ficou tão cheio de graça e devoção para ouví-lo e vê-lo que se atropelavam uns aos outros. Nessa ocasião, trinta homens, clérigos e leigos, receberam de sua mão o hábito da Ordem.

Tanta era a fé dos homens e das mulheres, e tão grande a devoção pelo santo de Deus, que se tinha por feliz quem conseguia pelo menos tocar-lhe a roupa. Quando entrava em alguma cidade, alegrava-se o clero, os sinos tocavam, exultavam os homens, festejavam as mulheres, as crianças batiam palmas e, muitas vezes, cortando ramos das árvores, iam cantando ao seu encontro.

Cobria-se de confusão a perversa heresia, triunfava a fé da Igreja e, enquanto os fiéis rejubilavam, os hereges se escondiam. Pois nele se viam tantos sinais de santidade que ninguém ousava contradize-lo, porque a multidão só olhava para ele. Ele mesmo insistia acima de tudo na conservação, respeito e prática da dou- trina da santa Igreja Romana, na qual somente está a salvação pa- ra todos. Venerava ossacerdotes e reverenciava com profundo a- feto toda a hierarquia eclesiástica.

63. O povo trazia-lhe pães para benzer e os guardava por muito tempo, porque conseguia a cura de diversas doenças só de prová-los. Também era muito freqüente que, afoitos numa fé exagerada, cortassem a sua túnica, deixando-o às vezes quase sem roupa. E o que é mais de se admirar: se o santo pai tocava alguma coisa, a saúde era devolvida a muitas pessoas através dela.

Uma mulher de um povoado perto de Arezzo estava grávida. Quando chegou o tempo do parto, passou vários dias entre a vida e a morte, com dores incríveis. Seus vizinhos e conhecidos souberam que São Francisco ia passar por ali para ir a uma ermida. Ficaram à sua espera, mas aconteceu que o santo foi para o referido lugar por outro caminho, pois estava muito fraco e doente e teve que ir a cavalo. Mas, ao chegar, mandou um certo Frei Pedro devolver o cavalo ao homem que o emprestara por caridade. Frei Pedro, de volta com o animal, passou pelo caminho em que a mulher estava padecendo. Vendo-o aproximar-se, correram para ele os homens do lugar, pensando que fosse São Francisco. Quando viram que não era, ficaram muito tristes. Finalmente começaram a perguntar um ao outro se poderiam encontrar alguma coisa em que São Francisco tivesse tocado. Demoraram muito tempo procurando e acabaram encontrando as rédeas que ele tinha segurado para cavalgar. Tiraram o freio da boca do cavalo em que o santo pai tinha montado, puseram em cima da mulher as rédeas que ele tinha apertado em suas mãos. Imediatamente, livre de perigo, ela deu à luz com toda alegria e felicidade.

64. Gualfredúcio, um homem religioso, que temia e venerava a Deus com toda a sua família, e morava em Città della Pieve, tinha consigo uma corda que São Francisco já tinha usado em sua cintura. Acontecia que, naquela cidade, muitos homens e não poucas mulheres sofriam de várias doenças e febres. Ele ia à casa de cada um dos doentes, dava-lhes de beber água em que tinha mergulhado a corda ou alguns fiapos e assim, no nome do Senhor, todos conseguiam a saúde.

Coisas desse tipo, e muitas outras, que não poderíamos contar mesmo alongando demais a narração, eram feitas na ausência de São Francisco. Vamos referir brevemente nesta obra alguns milagres que o Senhor nosso Deus se dignou operar em sua presença.