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62. No tempo em que contamos que pregou aos pássaros, andava o
santo Pai pelas cidades e povoados e, espalhando as sementes de
bênção por toda parte, chegou à cidade de Ascoli. Pregou aí com
todo o fervor, como costumava e, pela mão de Deus, o povo quase
todo ficou tão cheio de graça e devoção para ouví-lo e vê-lo que
se atropelavam uns aos outros. Nessa ocasião, trinta homens,
clérigos e leigos, receberam de sua mão o hábito da Ordem.
Tanta era a fé dos homens e das mulheres, e tão grande a devoção
pelo santo de Deus, que se tinha por feliz quem conseguia pelo menos
tocar-lhe a roupa. Quando entrava em alguma cidade, alegrava-se o
clero, os sinos tocavam, exultavam os homens, festejavam as
mulheres, as crianças batiam palmas e, muitas vezes, cortando ramos
das árvores, iam cantando ao seu encontro.
Cobria-se de confusão a perversa heresia, triunfava a fé da Igreja
e, enquanto os fiéis rejubilavam, os hereges se escondiam. Pois
nele se viam tantos sinais de santidade que ninguém ousava
contradize-lo, porque a multidão só olhava para ele. Ele mesmo
insistia acima de tudo na conservação, respeito e prática da dou-
trina da santa Igreja Romana, na qual somente está a salvação pa-
ra todos. Venerava ossacerdotes e reverenciava com profundo a- feto
toda a hierarquia eclesiástica.
63. O povo trazia-lhe pães para benzer e os guardava por muito
tempo, porque conseguia a cura de diversas doenças só de
prová-los. Também era muito freqüente que, afoitos numa fé
exagerada, cortassem a sua túnica, deixando-o às vezes quase sem
roupa. E o que é mais de se admirar: se o santo pai tocava alguma
coisa, a saúde era devolvida a muitas pessoas através dela.
Uma mulher de um povoado perto de Arezzo estava grávida. Quando
chegou o tempo do parto, passou vários dias entre a vida e a morte,
com dores incríveis. Seus vizinhos e conhecidos souberam que São
Francisco ia passar por ali para ir a uma ermida. Ficaram à sua
espera, mas aconteceu que o santo foi para o referido lugar por outro
caminho, pois estava muito fraco e doente e teve que ir a cavalo.
Mas, ao chegar, mandou um certo Frei Pedro devolver o cavalo ao
homem que o emprestara por caridade. Frei Pedro, de volta com o
animal, passou pelo caminho em que a mulher estava padecendo.
Vendo-o aproximar-se, correram para ele os homens do lugar,
pensando que fosse São Francisco. Quando viram que não era,
ficaram muito tristes. Finalmente começaram a perguntar um ao outro
se poderiam encontrar alguma coisa em que São Francisco tivesse
tocado. Demoraram muito tempo procurando e acabaram encontrando as
rédeas que ele tinha segurado para cavalgar. Tiraram o freio da boca
do cavalo em que o santo pai tinha montado, puseram em cima da mulher
as rédeas que ele tinha apertado em suas mãos. Imediatamente, livre
de perigo, ela deu à luz com toda alegria e felicidade.
64. Gualfredúcio, um homem religioso, que temia e venerava a
Deus com toda a sua família, e morava em Città della Pieve, tinha
consigo uma corda que São Francisco já tinha usado em sua cintura.
Acontecia que, naquela cidade, muitos homens e não poucas mulheres
sofriam de várias doenças e febres. Ele ia à casa de cada um dos
doentes, dava-lhes de beber água em que tinha mergulhado a corda ou
alguns fiapos e assim, no nome do Senhor, todos conseguiam a saúde.
Coisas desse tipo, e muitas outras, que não poderíamos contar mesmo
alongando demais a narração, eram feitas na ausência de São
Francisco. Vamos referir brevemente nesta obra alguns milagres que o
Senhor nosso Deus se dignou operar em sua presença.
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