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71. O varão de Deus, Francisco, tinha aprendido a buscar não
os seus interesses mas o que lhe parecesse servir melhor à salvação
dos outros. Acima de tudo, porém, desejava aniquilar-se para estar
com Cristo. Por isso, seu esforço maior era manter-se livre de
todas as coisas que estão no mundo, para que seu pensamento não
tivesse a serenidade perturbada por uma hora sequer de contágio com
essa poeira. Tornou-se insensível a todo ruído exterior e se
empenhou com todas as forças a dominar os sentidos e coibir as
paixões, entregando-se unicamente a Deus. Tinha "sua morada nas
fendas das rochas e nas concavidades dos penhascos". Com verdadeira
devoção, recolhia-se em casas abandonadas e, esvaziado de si
mesmo, residia permanentemente nas chagas do Salvador.
Procurava freqüentemente os lugares desertos para poder dirigir-se de
toda alma a Deus mas quando o tempo lhe parecia oportuno não tinha
preguiça de se pôr em atividade e de cuidar com boa vontade da
salvação do próximo.
Seu porto seguro era a oração, que não era curta, nem vazia ou
presunçosa, mas demorada, cheia de devoção e tranqüila na
humildade. Se começava à tarde, mal a podia acabar pela manhã.
Andando, sentado, comendo ou bebendo, estava entregue à oração.
Gostava de passar a noite rezando sozinho em igrejas abandonadas e
construídas em lugares desertos, onde, com a proteção da graça de
Deus, venceu muitos temores e muitas angústias.
72. Lutava corpo a corpo com o demônio, porque nesses lugares não
só o tentava interiormente mas também procurava desanimá-lo com
abalos e estardalhaços exteriores. Mas o valente soldado de Cristo
sabia que o seu Senhor tinha todo o poder, e não cedia às
amedrontações, dizendo em seu coração: "Malvado, as armas da
tua malícia não me podem ferir mais aqui do que se estivéssemos em
público, na frente de todo mundo".
Na verdade, ele era muito constante e só queria fazer o que era de
Deus. Pregando freqüentemente a palavra de Deus a milhares de
pessoas, tinha tanta segurança como se estivesse conversando com um
companheiro. Olhava a maior das multidões como se fosse uma só
pessoa e falava a cada pessoa com todo o fervor como se fosse uma
multidão. A segurança que tinha para falar era resultado de sua
pureza de coração, pois, mesmo sem se preparar, falava coisas
admiráveis, que ninguém jamais tinha ouvido. Se, diante do povo
reunido, não se lembrava do que tinha preparado e não sabia falar de
outra coisa, confessava candidamente que tinha preparado muitas coisas
e não estava conseguindo lembrar nada. De repente, enchia-se de
tanta eloqüência que deixava admirados os ouvintes. Mas houve
ocasiões em que não conseguiu dizer nada, deu a bênção e, só com
isso, despediu o povo com a melhor das pregações.
73. Uma vez teve que ir a Roma por causa da Ordem e sentiu muita
vontade de falar diante do Papa Honório e dos veneráveis cardeais.
Sabendo disso, Dom Hugolino, o glorioso bispo de Óstia, que tinha
uma especial amizade pelo santo de Deus, ficou cheio de temor e de
alegria, porque admirava o fervor do santo mas também sabia como era
simples. Apesar disso, confiando na misericórdia do
Todo-poderoso, que no tempo da necessidade nunca falta aos que o
veneram com piedade, apresentou-o ao Papa e aos eminentíssimos
cardeais.
Diante dos importantes príncipes, o santo pediu a licença e a
bênção e começou a falar com toda a intrepidez. Falava com tanta
animação que, não se podendo conter de alegria, dizia as palavras
com a boca e movia os pés como se estivesse dançando, não com
malícia mas ardendo no fogo do amor de Deus: por isso não provocou
risadas, mas arrancou o pranto da dor. De fato, admirados pela
graça de Deus e a segurança desse homem, muitos deles ficaram
compungidos de coração. Entretanto, receoso, o venerável bispo de
Ostia rezava fervorosamente ao Senhor para que a simplicidade do santo
homem não fosse desprezada, porque isso resultaria em desonra para
ele, que tinha sido constituído pai de sua família.
74. Porque São Francisco se ligara a ele como um filho ao pai e
como um filho único à sua mãe, achando que em seus braços podia
descansar e dormir tranqüilo. Ele assumira e exercia o cargo de
pastor, e deixava o título para o santo. O bem-aventurado pai
cuidava do que era necessário, mas o hábil senhor fazia com que tudo
fosse realizado. Quantas pessoas, especialmente no princípio,
tentaram acabar com a implantação da Ordem! Quantos procuraram
sufocar a vinha escolhida que a mão do Senhor tinha plantado havia
pouco neste mundo! Quantos tentaram roubar e consumir seus primeiros e
melhores frutos! Mas todos foram vencidos e desbaratados pelo
eminentíssimo cardeal. Ele era um verdadeiro rio de eloqüência,
bastião da Igreja, defensor da verdade e protetor dos humildes.
Bendito e memorável o dia em que o santo se confiou a tão venerável
senhor.
Numa das muitas vezes em que o cardeal foi mandado como legado da Sé
Apostólica à Toscana, São Francisco, que ainda não tinha
muitos frades e queria ir à França, passou por Florença, onde
morava nesse tempo o referido bispo. Ainda não estavam unidos por
especial amizade, mas a fama de uma vida santa tinha unido os dois em
mútuo afeto.
75. Como era costume de São Francisco visitar os bispos e padres
logo que chegava a alguma cidade ou região, quando soube da presença
de um bispo tão importante, apresentou-se com a maior reverência.
O bispo o recebeu com muita devoção, como fazia sempre com todos os
que pretendiam viver a vida religiosa e principalmente com os que
levavam o estandarte da santa pobreza e humildade. Como era solícito
em ajudar as necessidades dos pobres e se interessava pessoalmente por
seus problemas, quis saber atenciosamente os motivos da visita do santo
e escutou com muita bondade as seus projetos. Ao vê-lo desprendido
como ninguém dos bens terrenos e tão abrasado no fogo que Jesus
trouxe ao mundo, seu coração se juntou desde esse momento ao
coração dele, pediu-lhe orações com devoção e lhe ofereceu com
prazer sua proteção. Aconselhou-o por isso a desistir da viagem
para cuidar de guardar aqueles que o Senhor lhe confiara, com
vigilante solicitude.
Quando viu toda essa generosidade, bondade e decisão em tão ilustre
personagem, São Francisco teve uma alegria enorme, lançou-se a
seus pés e lhe confiou devotamente sua própria pessoa e os seus
frades.
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