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76. Pai dos pobres, o pobre Francisco queria viver em tudo como um
pobre; sofria ao encontrar quem fosse mais pobre do que ele, não por
vanglória mas por íntima compaixão. Não tinha mais do que uma
túnica pobre e áspera, mas muitas vezes quis dividí-la com algum
necessitado..
Movido de enorme piedade, no tempo de maior frio, esse pobre
riquíssimo pedia aos ricos deste mundo que lhe emprestassem mantos ou
peles para poder ajudar os pobres em todas as partes. E como eles o
atendiam com devoção e com maior boa vontade do que a do santo pai aos
lhes pedir, ele dizia: "Eu recebo isto com a condição de vocês
não ficarem esperando devolução". E logo que encontrava um pobre
ia todo alegre cobri-lo com o que tivesse recebido.
Doía-lhe muito ver algum pobre sendo ofendido, ou ouvir alguém
dizendo palavras de maldição para qualquer outra criatura. Aconteceu
que um irmão disse uma palavra má a um pobre que pedia esmolas, pois
lhe falou: "Veja lá que você não seja um rico que está se
fingindo de pobre". Ouvindo isso, o pai dos pobres, São
Francisco, teve uma dor muito grande e repreendeu o frade com dureza.
Mandou que se despisse diante do pobre, beijasse os pés dele e lhe
pedisse desculpas. Costumava dizer: "Quem amaldiçoa um pobre
injuria o próprio Cristo, de quem é sinal, pois ele se fez pobre
por nós neste mundo". Por isso era frequente que, ao ver algum
pobre carregando lenha ou outra carga, ajudasse com seus próprios
ombros, tão fracos.
77. Tinha tanta caridade que seu coração se comovia não só com
as pessoas que passavam necessidade mas também com os animais sem fala
nem razão, os répteis, os pássaros e as outras criaturas sensíveis
e insensíveis. Mas, entre todos os animais, tinha uma predileção
pelos cordeirinhos, porque a humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo
foi comparada muitas vezes na Bíblia à do cordeiro, e com muito
acerto. Gostava de ver e de tratar com carinho todas as criaturas,
principalmente aquelas em que podia descobrir alguma semelhança
alegórica com o Filho de Deus.
Numa ocasião em que viajava pela Marca de Ancona e tinha pregado a
palavra de Deus nessa cidade, dirigiu-se a O'simo com o senhor
Paulo, a quem tinha constituído ministro de todos os frades naquela
província. Encontrou no campo um pastor apascentando um rebanho de
cabras e bodes. No meio das cabras e dos bodes havia uma ovelhinha, a
andar humildemente pastando sossegada.
Vendo-a, São Francisco estacou e, com o coração tocado por uma
dor interior, deu um suspiro alto e disse ao irmão que o acompanhava:
"Não estás vendo essa ovelha mansa no meio das cabras e bodes? Era
desse jeito que Nosso Senhor Jesus Cristo andava, manso e humilde,
no meio dos fariseus e dos príncipes dos sacerdotes. Por isso eu te
peço por caridade, meu filho, que te compadeças dessa ovelhinha
comigo, e a compres, para podermos tirá-la do meio dessas cabras e
bodes.
78. Admirando sua dor, Frei Paulo também ficou com pena, mas
não sabiam como fazer para pagar, porque não tinham nada além das
pobres túnicas que vestiam. Nisso, passou um negociante e lhes
ofereceu o preço que queriam. Deram graças a Deus, receberam a
ovelha e chegaram a Ósimo, onde se apresentaram ao bispo da cidade.
Este os recebeu com muita devoção e ficou muito admirado com a ovelha
que o santo levava e com o carinho que lhe demonstrava. Mas o servo de
Cristo inventou uma longa parábola sobre a ovelha, e o bispo, com o
coração tocado pela sua simplicidade, deu graças a Deus.
No dia seguinte, saiu da cidade. Pensando no que devia fazer com a
ovelha, seguiu o conselho de seu companheiro e irmão e a confiou à
guarda de um convento de irmãs em São Severino. As veneráveis
servas de Cristo receberam a ovelha como um grande presente de Deus.
Cuidaram dela por muito tempo e com sua lã fizeram uma túnica que
mandaram levar ao pai São Francisco em Santa Maria da
Porciúncula, por ocasião de um capítulo. O santo a recebeu com
muita reverência e alegria, beijou-a e convidou todos os presentes a
se alegrarem com ele.
79. Numa outra vez em que passou pela Marca, seguido alegremente
pelo mesmo companheiro, encontrou um homem que levava para uma feira
dois cordeirinhos amarrados e presos ao seu ombro. Ao ouvi-los
balir, São Francisco se comoveu, aproximou-se e demonstrou sua
compaixão, acariciando-os como uma mãe com o filho que chora. E
disse ao homem:
- "Por que estás maltratando desse jeito os meus irmãozinhos,
assim amarrados e pendurados?"
- "Vou levá-los para vender na feira, porque preciso do
dinheiro".
- "E o que vai acontecer com eles depois?"
- "Quem comprar vai matá-los e comer".
- "De jeito nenhum, isso não vai acontecer. Leva como pagamento a
minha capa e me dá os cordeiros".
O homem entregou os animaizinhos com muita alegria e recebeu a capa,
que valia muito mais e que o santo tinha recebido emprestada de um homem
piedoso naquele mesmo dia, para se defender do frio. O santo, quando
recebeu os cordeirinhos, ficou pensando o que fazer com eles.
Seguindo o conselho do irmão que o acompanhava, devolveu-os ao mesmo
homem para cuidar deles, mandando-lhe que nunca os vendesse nem lhes
fizesse mal algum, mas que os conservasse, alimentasse e tratasse com
carinho.
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