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80. Seria muito longo e praticamente impossível enumerar e
descrever tudo que o glorioso pai São Francisco fez e ensinou durante
a sua vida. Como contar o afeto que tinha para com todas as coisas de
Deus? Quem seria capaz de mostrar a doçura que sentia quando
contemplava nas criaturas a sabedoria, o poder e a bondade do
Criador? Ao ver o sol, a lua, as estrelas e o firmamento,
enchia-se muitas vezes de alegria admirável e inaudita. Piedade
simples,simplicidade piedosa!
Tinha um amor enorme até pelos vermes, por ter lido sobre o
Salvador: Sou um verme e não um homem. Recolhia-os por isso no
caminho e os colocava em lugar seguro, para não serem pisados pelos
que passavam. Que poderei dizer mais sobre as outras criaturas
inferiores, se até para as abelhas, para que não desfalecessem no
rigor do frio, fazia dar mel ou um vinho de primeira? A operosidade e
o engenho das abelhas exaltavam-no a tão grande louvor de Deus que
muitas vezes passou o dia louvando a elas e às outras criaturas.
Como os três jovens de antigamente, colocados na fornalha em brasa,
sentiram-se convidados por todos os elementos para louvar e glorificar
o Criador de todas as coisas, também este homem, cheio do espírito
de Deus, não cessava de glorificar, louvar e bendizer o Criador e
Conservador do universo por meio de todos os elementos e criaturas.
81. Que alegria a sua diante das flores, ao admirar-lhes a
delicada forma ou aspirar o suave perfume! Passava imediatamente a
pensar na beleza daquela flor que brotou da raiz de Jessé no tempo
esplendoroso da primavera e com seu perfume ressuscitou milhares de
mortos. Quando encontrava muitas flores juntas, pregava para elas e
as convidava a louvar o Senhor como se fossem racionais. Da mesma
maneira, convidava com muita simplicidade os trigais e as vinhas, as
pedras, os bosques e tudo que há de bonito nos campos, as nascentes e
tudo que há de verde nos jardins, a terra e o fogo, o ar e o vento,
para que tivessem muito amor e louvassem generosamente ao Senhor.
Afinal, chamava todas as criaturas de irmãs, intuindo seus segredos
de maneira especial, por ninguém experimentada, porque na verdade
parecia já estar gozando a liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Na
certa, ó bom Jesus, ele que na terra cantava o vosso amor a todas as
criaturas, estará agora a louvar-vos nos céus com os anjos porque
sois admirável.
82. É impossível compreender quanto se comovia quando pronunciava
vosso nome, Senhor santo! Parecia um outro homem, um homem de outro
mundo, todo cheio de júbilo e do mais puro prazer. Por isso, onde
quer que encontrasse algum escrito, de coisas divinas ou humanas, na
rua, em casa ou no chão, recolhia-o com todo o respeito e o colocava
em algum lugar sagrado ou decente, pensando que poderia referir-se ao
Senhor ou conter seu santo nome.
Um dia, um frade lhe perguntou por que recolhia com igual apreço os
escritos dos pagãos, onde não estava o nome do Senhor, e ele
respondeu: "Meu filho, contêm as letras com que se escreve o
gloriosíssimo nome do Senhor. O que há de bom neles não pertence
aos pagãos nem a ninguém em particular, mas somente a Deus, 'de
quem são todos os bens'". Outra coisa admirável é que, quando
mandava escrever alguma carta de cumprimentos ou conselhos, não
permitia que se apagasse alguma letra ou sílaba, mesmo que fosse
supérflua ou errada.
83. Como era bonito, atraente e de aspecto glorioso na inocência
de sua vida, na simplicidade das palavras, na pureza do coração, no
amor de Deus, na caridade fraterna, na obediência ardorosa, no
trato afetuoso, no aspecto angelical! Tinha maneiras finas, era
sereno por natureza e de trato amável, muito oportuno quando dava
conselhos, sempre fiel em suas obrigações, prudente no julgar,
eficaz no agir e em tudo cheio de elegância. Sereno na
inteligência, delicado, sóbrio, contemplativo, constante na
oração e fervoroso em todas as coisas. Firme nas resoluções,
equilibrado, perseverante e sempre o mesmo. Rápido para perdoar e
demorado para se irar, tinha a inteligência pronta, uma memória
luminosa, era sutil ao falar, sério em suas opções e sempre
simples. Era rigoroso consigo mesmo, paciente com os outros,
discreto com todos.
Muito eloqüente, tinha o rosto alegre e o aspecto bondoso, era
diligente e incapaz de ser arrogante. Era de estatura um pouco abaixo
da média, cabeça proporcionada e redonda, rosto um tanto longo e
fino, testa plana e curta, olhos nem grandes nem pequenos, negros e
límpidos, cabelos castanhos, pestanas retas, nariz proporcional,
delgado e reto, orelhas levantadas mas pequenas, têmporas achatadas,
língua pacificadora, ardente e penetrante, voz forte, doce, clara e
sonora, dentes unidos, alinhados e brancos, lábios pequenos e
delgados, barba preta e um tanto rala, pescoço esguio, ombros
retos, braços curtos, mãos delicadas, dedos longos, unhas
compridas, pernas delgadas, pés pequenos, pele fina, enxuto de
carnes. Vestia-se rudemente, dormia pouco e era muito generoso.
E como era muito humilde, mostrava toda a mansidão para com todas as
pessoas, adaptando-se a todos com facilidade. Embora fosse o mais
santo de todos, sabia estar entre os pecadores como se fosse um deles.
Pai santíssimo que amas os pecadores, ajuda-os! Com tua poderosa
intercessão e cheio de misericórdia, digna-te levantar os que vês
prostrados na abjeção dos pecados.
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