CAPÍTULO 3. Transformado interiormente, mas não exteriormente, fala alegoricamente de um tesouro encontrado e de uma noiva

6. Já mudado, mas só espiritual e não exteriormente, não quis mais ir para a Apúlia e procurou orientar sua vontade pela vontade de Deus. Por isso subtraiu-se aos poucos do bulício do mundo e dos negócios, querendo imitar Jesus Cristo em seu interior. Como um negociante prudente, escondeu aos olhos dos enganadores a pérola encontrada e, ocultamente, procurou vender tudo para poder adquiri-la.

Tinha predileção por um jovem de Assis, porque era de sua idade e uma amizade plenamente compartilhada permitia contar-lhe seus segredos. Levava-o muitas vezes a lugares afastados e aptos para os seus planos, garantindo que tinha encontrado um tesouro precioso e enorme. Alegre e curioso, o amigo ia de boa vontade com ele todas as vezes que era chamado.

Havia uma gruta perto da cidade, à qual iam com freqüência para falar do tesouro. O homem de Deus, já santificado pelo desejo de ser santo, entrava na gruta enquanto o companheiro ficava esperando do lado de fora e, tomado pelo novo e singular espírito, orava aoPai na solidão. Esforçava-se para que ninguém soubesse o que fazia lá dentro, para que o segredo fosse causa de maior bem, e buscava só a Deus em seu santo propósito. Orava com devoção para que Deus eterno e verdadeiro dirigisse seu caminho e o ensinasse a cumprir sua vontade. Sustentava em sua alma uma luta violenta e não conseguia parar enquanto não realizasse o que tinha resolvido em seu coração. Pensamentos muito variados entrecruzavam-se nele, importunando-o e perturbando-o duramente.

Ardia interiormente pela chama divina e não conseguia esconder o fervor de sua alma. Doía-lhe ter pecado tão gravemente e ofendido os olhos da majestade de Deus. As vaidades do passado ou do presente já não o agradavam, mas ainda não estava plenamente certo de poder resistir-lhes no futuro. Por isso, quando voltava para junto do companheiro, estava tão cansado que nem parecia o mesmo que tinha entrado.

7. Certo dia, tendo invocadomais plenamente a misericórdia divina, o Senhor lhe mostrou o que tinha que fazer. Ficou tão cheio de alegria, que não cabia mais em si e, mesmo sem querer, deixou escapar alguma coisa aos ouvidos dos outros. Mas embora não pudesse calar-se por ser tão grande o amor que lhe fora inspirado, era com cautela que comunicava alguma coisa, e falando em parábolas. Assim como falara ao amigo íntimo de um tesouro escondido, como dissemos, aos outros procurava falar por analogias. Dizia que não queria ir para a Apúlia, mas prometia que haveria de fazer coisas nobres e estupendas em sua própria terra. Os outros acharam que ele ia se casar e perguntaram: "Você vai se casar, Francisco?" Respondeu-lhes: "Vou me casar com uma noiva nobre e bonita como vocês nunca viram, que ganha das outras em beleza e supera a todas em sabedoria".

De fato, a esposa imaculada do Senhor era a verdadeira religião, que ele abraçara, e o tesouro escondido era o reino dos céus, que buscou com tanto entusiasmo. Pois era forçoso que se cumprisse plenamente a vocação evangélica naquele que haveria de ser ministro fiel e autêntico do Evangelho.