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6. Já mudado, mas só espiritual e não exteriormente, não quis
mais ir para a Apúlia e procurou orientar sua vontade pela vontade de
Deus. Por isso subtraiu-se aos poucos do bulício do mundo e dos
negócios, querendo imitar Jesus Cristo em seu interior. Como um
negociante prudente, escondeu aos olhos dos enganadores a pérola
encontrada e, ocultamente, procurou vender tudo para poder
adquiri-la.
Tinha predileção por um jovem de Assis, porque era de sua idade e
uma amizade plenamente compartilhada permitia contar-lhe seus
segredos. Levava-o muitas vezes a lugares afastados e aptos para os
seus planos, garantindo que tinha encontrado um tesouro precioso e
enorme. Alegre e curioso, o amigo ia de boa vontade com ele todas as
vezes que era chamado.
Havia uma gruta perto da cidade, à qual iam com freqüência para
falar do tesouro. O homem de Deus, já santificado pelo desejo de
ser santo, entrava na gruta enquanto o companheiro ficava esperando do
lado de fora e, tomado pelo novo e singular espírito, orava aoPai na
solidão. Esforçava-se para que ninguém soubesse o que fazia lá
dentro, para que o segredo fosse causa de maior bem, e buscava só a
Deus em seu santo propósito. Orava com devoção para que Deus
eterno e verdadeiro dirigisse seu caminho e o ensinasse a cumprir sua
vontade. Sustentava em sua alma uma luta violenta e não conseguia
parar enquanto não realizasse o que tinha resolvido em seu coração.
Pensamentos muito variados entrecruzavam-se nele, importunando-o e
perturbando-o duramente.
Ardia interiormente pela chama divina e não conseguia esconder o
fervor de sua alma. Doía-lhe ter pecado tão gravemente e ofendido
os olhos da majestade de Deus. As vaidades do passado ou do presente
já não o agradavam, mas ainda não estava plenamente certo de poder
resistir-lhes no futuro. Por isso, quando voltava para junto do
companheiro, estava tão cansado que nem parecia o mesmo que tinha
entrado.
7. Certo dia, tendo invocadomais plenamente a misericórdia divina,
o Senhor lhe mostrou o que tinha que fazer. Ficou tão cheio de
alegria, que não cabia mais em si e, mesmo sem querer, deixou
escapar alguma coisa aos ouvidos dos outros. Mas embora não pudesse
calar-se por ser tão grande o amor que lhe fora inspirado, era com
cautela que comunicava alguma coisa, e falando em parábolas. Assim
como falara ao amigo íntimo de um tesouro escondido, como dissemos,
aos outros procurava falar por analogias. Dizia que não queria ir
para a Apúlia, mas prometia que haveria de fazer coisas nobres e
estupendas em sua própria terra. Os outros acharam que ele ia se
casar e perguntaram: "Você vai se casar, Francisco?"
Respondeu-lhes: "Vou me casar com uma noiva nobre e bonita como
vocês nunca viram, que ganha das outras em beleza e supera a todas em
sabedoria".
De fato, a esposa imaculada do Senhor era a verdadeira religião,
que ele abraçara, e o tesouro escondido era o reino dos céus, que
buscou com tanto entusiasmo. Pois era forçoso que se cumprisse
plenamente a vocação evangélica naquele que haveria de ser ministro
fiel e autêntico do Evangelho.
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