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10. Enquanto o servo de Deus Altíssimo estava nesse lugar, seu
pai o buscava por todos os lados, querendo saber que fim levara o
filho. Quando entendeu como ele estava vivendo naquele local, teve o
coração ferido de íntima dor, e ficou muito perturbado com a súbita
mudança. Convocou amigos e vizinhos e correu o mais depressa que
pôde para onde morava o servo de Deus. Francisco, que era um atleta
de Cristo ainda novato, sabendo das ameaças dos que o perseguiam e
pressentindo sua chegada, não quis dar oportunidade à raiva e se
meteu numa cova secreta que tinha preparado para isso.
Esteve um mês nesse esconderijo, que ficava na casa e talvez só
fosse conhecido por um amigo, mal ousando sair para as necessidades.
Comia algum alimento, quando o recebia, no fundo da cova. Todo
auxílio lhe era levado em segredo. Banhado em lágrimas, rezava
continuamente para que Deus o livrasse da mão dos que o perseguiam e
lhe permitisse cumprir seus piedosos propósitos. Jejuando e
chorando, implorava a clemência do Salvador e, desconfiando da
própria capacidade, punha em Deus todo o seu pensamento. Mesmo
dentro do buraco e na escuridão, gozava de uma alegria indizível,
que nunca tinha experimentado. Cheio de ardor, saiu do esconderijo e
se apresentou às injúrias dos que o perseguiam.
11. Levantou-se sem vacilar, com alegria e presteza, ostentando o
escudo da fé para combater pelo Senhor e munido com as armas de uma
grande confiança. Tomou o caminho da cidade e, animado pelo
entusiasmo divino, começou a acusar-se por sua demora e covardia.
Vendo-o, todos os que o conheciam e confrontavam o presente com o
passado passaram a insultá-lo vergonhosamente, chamando-o de louco e
demente, e lhe atiraram pedras e lama das praças. Viam-no
completamente transformado em seus hábitos e muito acabado pela
mortificação, e atribuíam seu comportamento à fraqueza e à
loucura. Mas, como a paciência vale mais que a arrogância, o servo
de Deus se fazia surdo a tudo isso e, sem se ofender ou abater, dava
graças a Deus por todas as coisas.
Pois é em vão que o iníquo persegue quem tem ideais elevados:
quanto mais for ultrajado, maior sua vitória. O coração generoso,
disse um autor, torna-se mais forte com o desprezo.
12. Mas o tumulto pelas praças e ruas da cidade durou tanto,
ouvindo-se em toda parte o clamor dos que o insultavam, que, entre os
muitos a cujos ouvidos chegou, estava também seu pai. Ouvindo o nome
do filho, e que estava sendo comprometido nesse tipo de conversa por
seus concidadãos, levantou-se imediatamente, não para libertá-lo
mas para perdê-lo. Sem consideração alguma, partiu como um lobo
para cima da ovelha e, olhando-o com truculência, arrastou-o com
modos indignos e afrontosos para casa. Sem qualquer compaixão,
prendeu-o por muitos dias em um lugar escuro e, querendo dobrá-lo
para seu modo de ver, agiu primeiro com palavras e depois com
chicotadas e algemas.
Com isso tudo, o próprio Francisco ficou ainda mais pronto e
decidido a seguir seu santo propósito, e sem se convencer com as
palavras, nem se cansar da cadeia, não perdeu a paciência. Não
são castigos e algemas que vão mudar a maneira de pensar ou de agir,
ou afastar de Cristo aquele que aprendeu que deve se alegrar nas
tribulações. Não treme diante de um dilúvio de muitas águas
quem, na hora do apêrto, se refugia no Filho de Deus, o qual,
para que nossas tribulações não nos pareçam insuportáveis, sempre
mostra que já passou por coisas piores.
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