CAPÍTULO 5. Perseguido e aprisionado pelo pai

10. Enquanto o servo de Deus Altíssimo estava nesse lugar, seu pai o buscava por todos os lados, querendo saber que fim levara o filho. Quando entendeu como ele estava vivendo naquele local, teve o coração ferido de íntima dor, e ficou muito perturbado com a súbita mudança. Convocou amigos e vizinhos e correu o mais depressa que pôde para onde morava o servo de Deus. Francisco, que era um atleta de Cristo ainda novato, sabendo das ameaças dos que o perseguiam e pressentindo sua chegada, não quis dar oportunidade à raiva e se meteu numa cova secreta que tinha preparado para isso.

Esteve um mês nesse esconderijo, que ficava na casa e talvez só fosse conhecido por um amigo, mal ousando sair para as necessidades. Comia algum alimento, quando o recebia, no fundo da cova. Todo auxílio lhe era levado em segredo. Banhado em lágrimas, rezava continuamente para que Deus o livrasse da mão dos que o perseguiam e lhe permitisse cumprir seus piedosos propósitos. Jejuando e chorando, implorava a clemência do Salvador e, desconfiando da própria capacidade, punha em Deus todo o seu pensamento. Mesmo dentro do buraco e na escuridão, gozava de uma alegria indizível, que nunca tinha experimentado. Cheio de ardor, saiu do esconderijo e se apresentou às injúrias dos que o perseguiam.

11. Levantou-se sem vacilar, com alegria e presteza, ostentando o escudo da fé para combater pelo Senhor e munido com as armas de uma grande confiança. Tomou o caminho da cidade e, animado pelo entusiasmo divino, começou a acusar-se por sua demora e covardia.

Vendo-o, todos os que o conheciam e confrontavam o presente com o passado passaram a insultá-lo vergonhosamente, chamando-o de louco e demente, e lhe atiraram pedras e lama das praças. Viam-no completamente transformado em seus hábitos e muito acabado pela mortificação, e atribuíam seu comportamento à fraqueza e à loucura. Mas, como a paciência vale mais que a arrogância, o servo de Deus se fazia surdo a tudo isso e, sem se ofender ou abater, dava graças a Deus por todas as coisas.

Pois é em vão que o iníquo persegue quem tem ideais elevados: quanto mais for ultrajado, maior sua vitória. O coração generoso, disse um autor, torna-se mais forte com o desprezo.

12. Mas o tumulto pelas praças e ruas da cidade durou tanto, ouvindo-se em toda parte o clamor dos que o insultavam, que, entre os muitos a cujos ouvidos chegou, estava também seu pai. Ouvindo o nome do filho, e que estava sendo comprometido nesse tipo de conversa por seus concidadãos, levantou-se imediatamente, não para libertá-lo mas para perdê-lo. Sem consideração alguma, partiu como um lobo para cima da ovelha e, olhando-o com truculência, arrastou-o com modos indignos e afrontosos para casa. Sem qualquer compaixão, prendeu-o por muitos dias em um lugar escuro e, querendo dobrá-lo para seu modo de ver, agiu primeiro com palavras e depois com chicotadas e algemas.

Com isso tudo, o próprio Francisco ficou ainda mais pronto e decidido a seguir seu santo propósito, e sem se convencer com as palavras, nem se cansar da cadeia, não perdeu a paciência. Não são castigos e algemas que vão mudar a maneira de pensar ou de agir, ou afastar de Cristo aquele que aprendeu que deve se alegrar nas tribulações. Não treme diante de um dilúvio de muitas águas quem, na hora do apêrto, se refugia no Filho de Deus, o qual, para que nossas tribulações não nos pareçam insuportáveis, sempre mostra que já passou por coisas piores.