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13. Aconteceu que seu pai precisou ausentar-se, a negócios, por
algum tempo, deixando o homem de Deus preso no calabouço. A mãe,
que ficou sozinha com ele em casa, e não aprovava o procedimento do
marido, dirigiu-se ao filho com palavras ternas. Mas, vendo que
não conseguia fazê-lo mudar de opinião, sentiu seu coração
materno se enternecer e, soltando as correntes, deixou-o sair.Ele
deu graças a Deus e voltou depressa para o lugar onde estivera antes.
Provado pelas tentações, gozava agora de maior liberdade e, depois
de tantas lutas, parecia mais sereno. As dificuldades lhe deram maior
segurança, e começou a andar mais confiante e livre por toda parte.
Nesse meio tempo, o pai estava de volta. Não o tendo encontrado,
acumulando seus desatinos, armou uma gritaria com sua mulher.
Depois, irado e ameaçador, correu em busca do filho, decidido a
expulsá-lo da região, se não conseguisse traze-lo de volta.
Mas, como o temor de Deus é o arrimo da confiança, logo que o
filho da graça viu que seu pai carnal estava chegando, veio seguro,
alegre e espontaneamente ao seu encontro, dizendo claramente que, para
ele, cárceres e castigos não queriam dizer nada. Até garantiu
que, por amor de Cristo, estava disposto a suportar qualquer mal.
14. Vendo que não poderia afastá-lo do caminho em que se metera,
o pai cuidou apenas de reaver o dinheiro. O homem de Deus tinha
querido gastá-lo todo para o sustento dos pobres e na construção
daquele lugar mas, como não lhe tinha amor, não podia sofrer
decepção alguma, nem se perturbou com a perda de um bem a que não
tinha apego. Quando achou o dinheiro que ele, desprezador por
excelência dos bens terrenos, ávido demais das riquezas celestes,
tinha jogado a uma janela como lixo, acalmou-se um bocado o furor do
pai irado. A recuperação foi como um refrigério para sua sede de
avareza.
Mais tarde, apresentou-o ao bispo da cidade, para que, renunciando
em suas mãos à herança, devolvesse tudo que tinha. Ele não se
recusou. Até se apressou alegremente a fazer o que pediam.
15. Diante do bispo, não se demorou e nada o deteve: sem dizer
nem esperar palavra, despiu e jogou suas roupas, devolvendo-as ao
pai. Não guardou nenhuma peça, ficou completamente nu diante de
todos. O bispo, compreendendo sua atitude e admirando muito seu
fervor e constância, levantou-se e o acolheu em seus braços,
envolvendo-o no manto. Compreendeu claramente que era uma
disposição divina e percebeu que os gestos do homem de Deus, que
estava presenciando, encerravam algum mistério. Tornou-se, desde
então, seu protetor, animando-o, confortando-o e abraçando-o com
caridade.
É aqui que o nu luta com o adversário nu e, desprezando as coisas que
são do mundo, aspira apenas à justiça de Deus. Foi assim que
Francisco tratou de desprezar a própria vida, deixando de lado toda
solicitude mundana, para encontrar como um pobre a paz no caminho que
lhe fora aberto: só a parede da carne separava-o ainda da visão
celeste.
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