CAPÍTULO 7. Assaltado por ladrões, é jogado na neve. Servidor dos leprosos

16. Vestido de andrajos, ele que em outros tempos andara de escarlate, e cantando os louvores de Deus em francês através de um bosque, foi asssaltado por ladrões. Perguntaram-lhe brutalmente quem era, e ele respondeu forte e confiante: "Sou um arauto do grande Rei! Que é que vocês têm com isso?" Bateram nele e o jogaram numa fossa cheia de neve, dizendo: "Fica aí, pobre arauto de Deus". Quando se afastaram, revirou-se na fossa e conseguiu sair, sacudindo a neve. Com alegria redobrada, começou a cantar em voz alta pelos bosques os louvores do Criador de tudo.

Chegando a um mosteiro, passou muitos dias na cozinha como servente, vestido apenas com uma túnica vil. Quisera saciar-se com um pouco de caldo, mas ninguém teve pena dele e não conseguiu sequer alguma roupa velha. Saiu dali, não levado pela raiva mas pela necessidade, e foi para a cidade de Gúbio, onde conseguiu uma túnica com um de seus velhos amigos.

Algum tempo depois, quando a fama do homem de Deus cresceu e o seu nome se espalhou no meio do povo, o prior daquele mosteiro, lembrando-se do que fora feito para Francisco e se arrependendo, procurou-o e pediu-lhe perdão por amor de Deus em seu nome e no dos monges.

17. Depois disso, amante santo de toda humildade, transferiu-se para um leprosário. Vivia com os leprosos, servindo diligentemente a todos por amor de Deus. Lavava-lhes qualquer podridão dos corpos e limpava até o pus de suas chagas, como disse no Testamento: "Como estivesse ainda em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos, mas o Senhor me conduziu para o meio deles e eu tive misericórdia com eles".

Essa visão lhe era tão insuportável que, em suas próprias palavras, no tempo de sua vida mundana, tapava o nariz só de ver suas cabanas a duas milhas de distância. Mas, eis que um dia, quando, por graça e força do Altíssimo, ainda vivia como secular mas já tinha começado a pensar nas coisas santas e úteis, encontrou-se com um leproso e, superando-se, chegou e o beijou. A partir de então, foi ficando cada dia mais humilde até conseguir vencer a si mesmo, por misericórdia do Redentor.

Ajudava também os outros pobres, mesmo quando ainda era secular e seguia o espírito do mundo, estendendo sua mão misericordiosa para os que não tinham nada e mostrando compassivo afeto para com os aflitos. Houve um dia em que, contra seu costume, porque era muito bem educado, tratou mal um pobre que lhe pedia esmola. Mas logo, arrependido, começou a dizer consigo mesmo que era grande ofensa e vergonha negar a quem estivesse pedindo no nome de tão grande Rei, o que quisesse. Resolveu que jamais negaria a quem lhe pedisse em nome de Deus o que estivesse ao seu alcance. E o cumpriu com muita diligência, até oferecer totalmente a si mesmo, fazendo-se antes um cumpridor que um mestre do Evangelho: "Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te pedir emprestado".