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18. A primeira obra que o bem-aventurado Francisco empreendeu
depois que se livrou de seu pai terreno foi edificar uma casa para
Deus. Mas não tentou construí-la desde o começo: consertou o que
era velho, reparou o que era antigo. Não desfez os alicerces mas
edificou sobre eles, reservando essa prerrogativa, mesmo sem pensar,
ao Cristo: ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi
posto: Cristo Jesus.
Voltou pois ao lugar em que, como dissemos, fora construída
antigamente uma igreja de São Damião. Com a graça do
Altíssimo, reparou-a cuidadosamente em pouco tempo.
Foi esse o lugar feliz e abençoado em que teve auspicioso início a
família religiosa e nobre Ordem das Senhoras Pobres e santas
virgens, quase seis anos depois da conversão do bem-aventurado
Francisco e por seu intermédio. Nela estabeleceu-se Clara,
natural de Assis, como pedra preciosa e inabalável, alicerce para as
outras pedras que haveriam de se sobrepor.
Pois já tinha começado a existir a Ordem dos Frades quando essa
senhora foi convertida para Deus pelos conselhos do santo homem,
servindo assim de estímulo e modelo para muitas outras. Foi nobre de
nascimento e muito mais pela graça. Foi virgem no corpo e puríssima
no coração; jovem em idade mas amadurecida no espírito. Firme na
decisão e ardentíssima no amor de Deus. Rica em sabedoria,
sobressaiu na humildade. Foi Clara de nome, mais clara por sua vida
e claríssima em suas virtudes.
19. Sobre ela se ergueu o nobre edifício de preciosíssimas
pérolas, cujo louvor não cabe aos homens mas a Deus. Porque não
conseguimos compreendê-la com nossa inteligência estreita nem
apresentá-la em pobres palavras.
Antes de tudo, elas possuem a virtude da mútua e constante caridade,
unindo a tal pontosuas vontades que, vivendo em número de quarenta ou
cinqüenta em um mesmo lugar, o mesmo querer e não querer parece fazer
de todas um só espírito. Brilha também em cada uma a jóia da
humildade, que conserva os dons recebidos do céu e lhes merece outras
virtudes. O lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a
ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar
nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande
amor pelo Esposo eterno, que a sinceridade desse afeto sagrado apaga
toda saudade da vida passada. Distinguem-se a tal ponto pelo título
da mais alta pobreza que quase nunca se permitem satisfazer as
necessidades extremas de comer e vestir.
20. Adquiriram a graça especial da mortificação e do silêncio,
a ponto de não precisarem esforçar-se para coibir os sentidos e
refrear a língua. Algumas delas já se desacostumaram tanto de falar
que, quando precisam, mal conseguem expressar-se de maneira correta.
Em tudo são adornadas pela virtude da paciência, de modo que nenhuma
adversidade ou moléstia chega a perturbá-las ou alterá- las.
Afinal, chegaram a tal nível de contemplação, que nela aprendem
tudo o que devem fazer ou deixar de fazer e têm a felicidade de saber
deixar-se elevar para Deus, dedicando a noite e o dia aos louvores
divinos e à oração. Digne-se o eterno Deus, com sua santa
graça, dar conclusão ainda mais santa a esse santo começo.
Baste por enquanto isso que dissemos sobre as virgens consagradas ao
Senhor, devotas servas de Cristo, pois sua vida admirável e a
gloriosa instituição que receberam do Papa Gregório, quando ainda
era bispo de Ostia, pedem um tempo especial e uma obra à parte.
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