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116. Os frades seus filhos, que tinham acorrido com toda a
multidão das cidades vizinhas, contentes por participar de tão solene
funeral, passaram toda aquela noite em que morreu o santo pai dando
louvores a Deus: pela suavidade do júbilo e pela claridade das luzes
até parecia que eram os anjos a velar.
Quando amanheceu, juntou-se a multidão de Assis com todo o clero
e, carregando o sagrado corpo do lugar em que morrera, levaram-no
para a cidade entre hinos e louvores, tocando trombetas. Cada um
levava um ramo de oliveira ou de outras árvores e seguiam solenemente o
enterro, com muitas luminárias e cantando louvores em alta voz.
Quando o cortejo, formado pelos filhos que levavam o pai e pelo
rebanho que acompanhava o pastor em busca do Pastor supremo, chegou ao
lugar em que ele tinha fundado a Ordem das santas virgens e senhoras
pobres, depositaram-no na igreja de São Damião, em que moravam
aquelas suas filhas, por ele conquistadas para o Senhor. Abriu-se
então a janelinha pela qual as servas de Deus costumavam receber a
comunhão no tempo determinado. Abriu-se também a arca em que o
tesouro de virtudes supercelestes estava guardado e em que estava sendo
levado por poucos aquele que costumava arrastar tanta gente. Então a
senhora Clara, verdadeiramente clara pela santidade de seus
merecimentos, primeira mãe das outras porque tinha sido a primeira
plantinha da Ordem, aproximou-se com suas filhas para ver o pai, que
já não lhes falaria e estava a caminho de outras paragens, para não
mais voltar.
117. Suspirando e gemendo muito, olhavam para ele em lágrimas e
começaram a clamar com voz embargada: "Pai, pai, que vai ser de
nós? Pobres de nós, por que nos abandonas? A quem nos entregas,
assim desamparadas? Por que não nos deste a alegria de ir à tua
frente e nos deixaste sofrendo deste jeito? Que mandas que façamos,
presas neste cárcere, pois nunca mais virás visitar-nos, como
costumavas? Contigo vai-se embora toda a nossa consolação. Não
haverá mais conforto igual para nós que nos enterramos para o mundo!
Quem nos acudirá em tamanha pobreza, não só de méritos como de
bens materiais? O' pai dos pobres e amigo da pobreza! Quem nos
socorrerá nas provações, dize-nos tu, que passaste por tantas e
eras um precavido conhecedor desses males! Quem nos consolará nas
tribulações, dize-nos tu, que nos socorreste em tantas que nos
assaltaram! Amarga separação, cruel ausência! O' morte
horrorosa, que trucidas milhares de filhos e filhas, privando-nos
desse pai, apressando-te em levá-lo para longe sem retorno, ele a
quem devemos o grande florescimento de nossos esforços, se é que
alguma coisa temos!"
Mas o virginal pudor lhes embargava o pranto, e não ficava bem chorar
demais por ele, quando em sua morte tinham acorrido multidões de
anjos, alegrando-se os cidadãos dos céus e os que moram na casa de
Deus. Entre a tristeza e a alegria, beijavam suas mãos
esplêndidas, ornadas de pedras preciosas a brilhar. Quando ele foi
levado, fechou-se para elas a porta, que jamais poderá ser aberta
para outra dor comparável.
Que compaixão enorme tiveram todos pelo seu sofrido e piedoso
lamento! Os maiores gemidos foram, principalmente, os de seus filhos
entristecidos! Todos partilhavam sua dor, porque eraimpossível
reprimir as lágrimas quando os anjos da paz choravam com amargura.
118. Por fim, chegando à cidade, colocaram com grande alegria e
júbilo o seu corpo santíssimo no lugar sagrado, que passou a ser mais
sagrado. Para glória de Deus todo-poderoso, dali ele ilumina o
mundo numa profusão de milagres, do mesmo modo que antes o iluminava
pela doutrina de sua santa pregação. Demos graças a Deus.
Amém.
Santíssimo e abençoado pai, procurei honrar-te com justos e
merecidos louvores, embora insuficientes, e narrei por escrito todos
os teus feitos. Concede agora que este pobre frade seja digno de te
seguir no presente para que, pela misericórdia de Deus, possa te
acompanhar no futuro. Lembra-te piedosamente dos pobres filhos para
os quais mal sobrou alguma consolação depois que te foste, tu que
eras o seu único e especial consolo. Porção primeira e melhor de
sua herança, foste admitido nos coros dos anjos e colocado no trono
glorioso dos Apóstolos, mas eles jazem na lama, presos num cárcere
escuro, e clamam por ti em seu pranto: "Ó pai, apresenta a Jesus
Cristo, Filho do Pai Eterno, os seus sagrados estigmas, e mostra
os sinais da cruz no lado, nos pés e nas mãos, para que ele se digne
ter a misericórdia de mostrar suas próprias chagas ao Pai que, por
certo, olhando para elas, sempre vai ter piedade de nós, pobres
pecadores. Amém! Assim seja! Assim seja!"
Termina o segundo livro.
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