|
91. Certa ocasião, o bem-aventurado e venerável pai São
Francisco afastou-se das multidões que todos os dias acorriam cheias
de devoção para vê-lo e ouví-lo e procurou um lugar calmo,
secreto e solitário para poder se entregar a Deus e limpar o pó que
pudesse ter adquirido no contacto com as pessoas. Costumava dividir o
tempo que tinha recebido para merecer a graça de Deus e, conforme a
oportunidade, consagrar uma parte ao auxílio do próximo e outra à
contemplação no retiro.
Por isso levou consigo muito poucos companheiros, os que melhor
conheciam sua vida santa, para que o protegessem da invasão e da
perturbação das pessoas, e para que preservassem com amor o seu
recolhimento.
Passado algum tempo nesse lugar e tendo conseguido, por uma oração
contínua e uma contemplação freqüente, uma inefável familiaridade
com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou
podia querer dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de
que modo, por que caminho e com que desejos poderia aderir com maior
perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração e o beneplácito de
sua vontade. Essa foi sempre a sua mais alta filosofia, seu maior
desejo, em que ardeu enquanto durou sua vida: gostava de perguntar aos
simples e aos sábios, aos perfeitos e aos imperfeitos como poderia
chegar ao caminho da verdade e atingir metas cada vez mais elevadas.
92. Embora fosse perfeitíssimo entre os mais perfeitos, não o
reconhecia e se julgava absolutamente imperfeito. Já tinha provado e
visto como é doce, suave e bom o Deus de Israel para os que são
retos de coração e o procuramna verdadeira simplicidade.
Doçura e suavidade, que a tão poucos são dadas mas que a ele tinham
sido infundidas do alto, arrancavam-no de si mesmo e lhe davam tanto
prazer que desejava de qualquer maneira passar de uma vez para o lugar
onde uma parte dele já estava vivendo. Possuindo o espírito de
Deus, estava pronto a suportar todas as angústias, a tolerar todas
as paixões, contanto que lhe fosse dada a possibilidade de cumprir-se
nele, misericordiosamente, a vontade do Pai celestial.
Dirigiu-se um dia ao altar construído na ermida em que estava e, com
toda a reverência, depositou sobre ele o livro dos Evangelhos.
Depois, prostrado em oração, não menos com o coração do que com
o corpo, pediu humildemente que o Deus de bondade, Pai das
misericórdias e Deus de toda consolação, se dignasse mostrar-lhe
sua vontade. E para poder levar a termo perfeito o que tinha começado
com simplicidade e devoção, suplicou a Deus que lhe indicasse o que
era mais oportuno fazer logo que abrisse o livro pela primeira vez.
Imitava, assim, o exemplo de outros homens santos e perfeitos que,
conforme lemos, levados por sua devoção no desejo da santidade,
tinham procedido semelhantemente.
93. Terminada a oração, levantou-se com espírito humilde e
ânimo contrito, fez o sinal da santa cruz, tomou o livro do altar e o
abriu com reverência e temor. A primeira coisa que se lhe deparou ao
abrir o livro foi a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no ponto
que anunciava as tribulações por que deveria passar. Mas, para que
ninguém pudesse suspeitar de que isso tivesse acontecido por acaso,
abriu o livro mais duas vezes, e encontrou a mesma coisa ou algo
parecido. Cheio do Espírito Santo, compreendeu que deveria entrar
no reino de Deus depois de passar por muitas tribulações, muitas
angústias e muitas lutas.
Mas o valente soldado não se perturbou com a guerra iminente nem
desanimou de enfrentar os combates do Senhor nas fortalezas deste
mundo. Não temeu sucumbir ao inimigo, ele que não cedia nem a si
mesmo, apesar de ter sustentado por muito tempo fadigas superiores a
todas as forças humanas. Estava cheio de fervor e, se houve no
passado alguém que o igualasse nos bons propósitos, ainda não se
encontrou ninguém que o igualasse no desejo. Porque também tinha
mais facilidade para fazer as coisas perfeitas do que para louvá-las,
e empenhou esforço e ação nas boas obras, não apenas nas palavras.
Por isso estava sempre alegre e tranquilo, entoando no coração
cânticos de júbilo para si mesmo e para Deus. Também mereceu uma
revelação maior, ele que tanto se alegrara com coisas bem menores,
como o servo fiel nas coisas pequenas que foi colocado acima de outras
maiores.
|
|