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94. Dois anos antes de entregar sua alma ao céu, estando no
eremitério que, por sua localização, tem o nome de Alverne, Deus
lhe deu a visão de um homem com a forma de um Serafim de seis asas,
que pairou acima dele com os braços abertos e os pés juntos, pregado
numa cruz. Duas asas elevavam-se sobre a cabeça, duas abriam-se
para voar e duas cobriam o corpo inteiro.
Ao ver isso, o servo do Altíssimo se encheu da mais infinita
admiração, mas não compreendia o sentido. Experimentava um grande
prazer e uma alegria enorme pelo olhar bondoso e amável com que o
Serafim o envolvia. Sua beleza era indizível, mas o fato de estar
pregado na cruz e a crueldade de sua paixão atormentavam-no
profundamente.
Levantou-se triste e alegre ao mesmo tempo, se isso se pode dizer,
alternando em seu espírito sentimentos de gozo e de padecimento.
Tentava descobrir o significado da visão e seu espírito estava muito
ansioso para compreender o seu sentido. Estava nessa situação, com
a inteligência sem entender coisa alguma e o coração avassalado pela
visão extraordinária, quando começaram a aparecer-lhe nas mãos e
nos pés as marcas dos quatro cravos, do jeito que as vira pouco antes
no crucificado.
95. Suas mãos e seus pés pareciam atravessados bem no meio pelos
cravos, sobressaindo as cabeças no interior das mãos e em cima dos
pés, e as pontas do outro lado. Os sinais eram redondos nas palmas
das mãos e longos no lado de fora, deixando ver um pedaço de carne
como se fossem pontas de cravo entortadas e rebatidas, saindo para fora
da carne. Havia marcas dos cravos também nos pés, ressaltadas na
carne. No lado direito, que parecia atravessado por uma lança,
estendia-se uma cicatriz que freqüentemente soltava sangue, de
maneira que sua túnica e suas calças estavam muitas vezes banhadas
naquele sangue bendito.
Infelizmente, foram muito poucos os que mereceram ver a ferida sagrada
do seu peito, enquanto viveu crucificado o servo do Senhor
crucificado! Feliz foi Frei Elias, que teve algum jeito de vê-la
durante a vida do santo. Não menos afortunado foi Frei Rufino, que
a tocou com suas próprias mãos. Porque, num dia em que lhe
friccionava o peito, sua mão escorregou casualmente para o lado
direito e tocou a preciosa cicatriz. A dor que o santo sentiu foi tão
grande que afastou a mão e gritou pedindo a Deus que o poupasse.
Pois tinha muito cuidado em esconder essas coisas dos estranhos, e
ocultava-as mesmo dos mais chegados, de maneira que até os irmãos
que eram seus companheiros e seguidores mais devotados não souberam
delas por muito tempo.
E o servo e amigo do Altíssimo, embora se visse ornado com jóias
tão importantes como pedras preciosíssimas e assim destacado
espetacularmente acima da glória e da honra de todos os homens, não
se desvaneceu em seu coração nem procurou por causa disso
comprazer-se em alguma vanglória. Pelo contrário, para que o favor
humano não lhe roubasse a graça recebida, procurou escondê-la de
todos os modos possíveis.
96. Tinha decidido não revelar a quase ninguém o seu segredo
extraordinário, temendo que, como costumam fazer os privilegiados,
contassem a outros para mostrar como eram amigos, e isso resultasse em
detrimento da graça que tinha recebido. Por isso guardava sempre em
seu coração e repetia aquela frase do profeta: "Escondi tuas
palavras em meu coração, para não pecar contra ti". Tinha até
combinado um sinal com seus irmãos e filhos: quando queria interromper
a conversa de pessoas de fora que o visitavam, recitava aquele
versículo e eles tratavam de despedi-las delicadamente.
Sabia por experiência como fazia mal contar tudo a todos e que não
pode ser homem espiritual quem não possui em seu coração outros
segredos, mais profundos do que os que podem ser lidos no rosto e
julgados por qualquer pessoa. Tinha percebido que algumas pessoas
concordavam com ele por fora e discordavam por dentro, aplaudiam na
frente e riam-se por trás, levando-o a julgar os outros e até a
suspeitar de pessoas irrepreensíveis.
Infelizmente, muitas vezes deixamos de acreditar na sinceridade de
poucos porque a maldade procura denegrir o que é puro e porque a
mentira se tornou natural para a maioria.
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