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97. Por esse tempo, seu corpo começou a padecer diversas
doenças, mais graves do que as que já sofrera. Ele sempre tivera
alguma enfermidade, pois tinha castigado duramente o corpo, por muitos
anos, para reduzi-lo à servidão. Durante dezoito anos completos,
seu corpo não tivera quase nenhum descanso, pois tinha andado por
várias e extensas regiões, lançando por toda parte as sementes da
palavra de Deus com aquele espírito decidido, devoto e fervente que
nele residia. Tinha enchido a terra inteira com o Evangelho de
Cristo: num só dia chegava a passar por quatro ou cinco povoados, ou
mesmo cidades, anunciando a todos o Reino de Deus, e edificando os
ouvintes tanto pela palavra como pelo exemplo, pois toda a sua pessoa
era uma língua que pregava.
Sua carne estava tão de acordo e obedecia de tal forma ao seu
espírito que, enquanto ele procurava atingir a santidade, o corpo
não só não impedia mas até corria na frente, de acordo com o que
está escrito: "Minha alma teve sede de vós, e o meu corpo mais
ainda". A sujeição já era tão costumeira que se tornara
voluntária, e pela humilhação diária tinha conquistado toda essa
virtude, porque muitas vezes o hábito passa a ser uma segunda
natureza.
98. Mas, como é uma lei inelutável da natureza e da condição
humana que o homem exterior vá perecendo cada dia, enquanto a
interioridade se renova sem cessar, aquele vaso preciosíssimo, em que
estava o tesouro escondido, começou a ceder por todos os lados e a se
ressentir da perda de forças. Entretanto, "quando o homem crê
estar no fim, é então que começa", seu espírito se tornava mais
disposto na medida em que a carne estava mais fraca. Tão vivo era seu
zêlo pela salvação das almas e tão grande sua sede pelo bem do
próximo que, quando não podia mais andar, percorria as terras
montado num jumento.
Os frades lhe pediam constantemente que desse um pouco de alívio ao
corpo enfermo e tão debilitado, recorrendo ao auxílio dos médicos.
Mas ele, com seu nobre espírito voltado para o céu, desejando
apenas dissolver-se para estar com Cristo, recusava-se
terminantemente a isso. Entretanto, como não tinha completado em sua
carne o que faltava na paixão de Cristo, embora carregasse no corpo
os seus estigmas, teve uma grave moléstia dos olhos, como se nele
Deus quisesse multiplicar sua misericórdia. A doença crescia cada
vez mais e parecia aumentar dia a dia pela falta de cuidado. Frei
Elias, a quem escolhera como sua mãe e colocara como pai dos outros
frades, acabou obrigando-o a aceitar o remédio pelo nome do Filho de
Deus, por quem tinha sido criado, de acordo com o que está escrito:
"O Senhor fez sair da terra os remédios, e o homem sensato não os
rejeita". Então o santo pai acedeu de bom grado e obedeceu com
humildade aos que o aconselhavam.
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