CAPÍTULO 5. Recebido em Rieti por Hugolino, bispo de Ostia. Prenuncia-lhe o santo que seria bispo de todo o mundo

99. Não conseguiu alívio, apesar de serem muitos os que lhe levaram medicamentos para ajudá-lo, e foi para Rieti, onde constava haver alguém muito capaz de curar aquela doença. Ao chegar, foi muito bem recebido, com toda a honra, pela Cúria Romana, que estava na cidade nesse tempo, mas especialmente por Hugolino, bispo de Ostia, famoso por sua honradez e santidade.

Ele já tinha sido escolhido por São Francisco como pai e senhor de toda a Ordem dos seus irmãos, com o consentimento e por vontade do Papa Honório, porque gostava muito da santa pobreza e tinha uma reverência especial pela santa simplicidade. Conformava-se em tudo com os costumes dos frades e, desejando ser santo, era simples com os simples, humilde com os humildes e pobre com os pobres. Era um irmão entre os irmãos, o menor entre os menores, e procurava ser como um dos demais na maneira de viver e de agir. Estava muito empenhado na difusão da Ordem e, com a sua reputação de santo, conseguiu extendê-la aos lugares mais longínquos.

Dera-lhe o Senhor uma língua erudita, com que confundia os adversários da verdade, refutava os inimigos da cruz de Cristo, reconduzia os transviados ao caminho, pacificava os que estavam em desavença e reforçava os laços da caridade entre os que se amavam. Era na Igreja de Deus uma luz que arde e ilumina e uma seta escolhida, preparada para o tempo oportuno.

Quantas vezes, deixando vestes preciosas, vestia-se como um pobre e andava descalço como um dos frades, pedindo que fizessem a paz! Fazia isso entre uma pessoa e outra sempre que era possível, ou entre Deus e os homens, e sempre com solicitude. Por isso, pouco depois Deus o escolheu para ser pastor em toda a sua santa Igreja, colocando-o acima de todos os povos.

100. Para que se saiba que isso foi feito por inspiração divina e pela vontade de Jesus Cristo, muito tempo antes o bem- aventurado pai São Francisco tinha predito o fato com palavras e dado um sinal visível. No tempo em que a Ordem dos frades, pela graça de Deus, já tinha começado a se difundir bastante, e como um cedro no paraíso de Deus elevara-se até o céu pelos santos merecimentos, estendendo os ramos por toda a amplidão da terra como a vinha eleita, São Francisco dirigiu-se ao Papa Honório, que então governava a Igreja, e lhe suplicou que nomeasse o cardeal Hugolino, bispo de Ostia, como pai e senhor dele e de seus frades. O Papa anuiu aos desejos do santo e delegou com bondade ao cardeal o seu poder sobre a Ordem dos frades. Ele o recebeu com reverência e devoção, como um servo fiel e prudente constituído sobre a família do Senhor, e procurou por todos os modos administrar no tempo oportuno o alimento da vida eterna aos que lhe tinham sido confiados. Por isso o santo pai se submetia a ele de todos os modos e o venerava com admirável e respeitoso afeto.

Era conduzido pelo espírito de Deus, de que estava repleto, e por isso intuia muito antes o que depois seria revelado aos olhos de todos. Sempre que lhe escrevia, por algum motivo urgente da Ordem ou pelo amor que em Cristo lhe dedicava, não se limitava a chamá-lo de bispo de Ostia ou de Veletri, como os outros faziam nas saudações de praxe, mas começava com estas palavras: "Ao reverendíssimo pai, o senhor Hugolino, bispo de todo o mundo". Saudava-o muitas vezes com bênçãos originais e, embora fosse filho devotamente submisso, por inspiração do Espírito Santo às vezes o consolava com uma conversa paternal, como "para cumulá-lo das bênçãos dos pais na espera do Desejado das colinas eternas".

101. O cardeal também tinha uma amizade enorme pelo santo, e por isso aprovava tudo que o santo dizia ou fazia; e só de vê-lo ficava muitas vezes todo comovido. Ele próprio afirmava que nunca tivera perturbação ou tentação tão grandes que não passassem só de ver ou conversar com o santo, o que lhe devolvia a serenidade, afugentava o aborrecimento e o fazia aspirar à alegria do alto. Pusera-se ao serviço de São Francisco como um servo ao seu senhor, e sempre que o via fazia-lhe uma reverência como a um apóstolo de Cristo, inclinando-se exterior e interiormente, e muitas vezes lhe beijava as mãos com seus lábios consagrados.

Interessou-se com solicitude e devoção para que o santo pai pudesse recuperar a antiga saúde dos olhos, vendo neleum homem santo e justo, muito útil e necessário à Igreja de Deus. Compartilhava os sofrimentos de toda a família dos frades, compadecendo-se dos filhos no pai. Por isso, exortava o santo pai a cuidar de sua saúde e a não recusar os remédios necessários na doença, pois esse descuido podia ser-lhe imputado como falta e não como merecimento. Aceitando com humildade tudo que lhe foi dito por um senhor tão reverendo e um pai tão querido, daí por diante São Francisco teve o maior cuidado e prudência com o que era necessário para sua cura. Só que a doença tinha se agravado tanto que para qualquer melhora exigia um especialista muito hábil e remédios muito dolorosos. Por essa razão, embora lhe tenham cauterizado a cabeça em diversos lugares, feito sangrias, colocado emplastros e derramado colírios, nada adiantou. Quase sempre foi ficando pior.