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99. Não conseguiu alívio, apesar de serem muitos os que lhe
levaram medicamentos para ajudá-lo, e foi para Rieti, onde constava
haver alguém muito capaz de curar aquela doença. Ao chegar, foi
muito bem recebido, com toda a honra, pela Cúria Romana, que
estava na cidade nesse tempo, mas especialmente por Hugolino, bispo
de Ostia, famoso por sua honradez e santidade.
Ele já tinha sido escolhido por São Francisco como pai e senhor de
toda a Ordem dos seus irmãos, com o consentimento e por vontade do
Papa Honório, porque gostava muito da santa pobreza e tinha uma
reverência especial pela santa simplicidade. Conformava-se em tudo
com os costumes dos frades e, desejando ser santo, era simples com os
simples, humilde com os humildes e pobre com os pobres. Era um irmão
entre os irmãos, o menor entre os menores, e procurava ser como um
dos demais na maneira de viver e de agir. Estava muito empenhado na
difusão da Ordem e, com a sua reputação de santo, conseguiu
extendê-la aos lugares mais longínquos.
Dera-lhe o Senhor uma língua erudita, com que confundia os
adversários da verdade, refutava os inimigos da cruz de Cristo,
reconduzia os transviados ao caminho, pacificava os que estavam em
desavença e reforçava os laços da caridade entre os que se amavam.
Era na Igreja de Deus uma luz que arde e ilumina e uma seta
escolhida, preparada para o tempo oportuno.
Quantas vezes, deixando vestes preciosas, vestia-se como um pobre e
andava descalço como um dos frades, pedindo que fizessem a paz!
Fazia isso entre uma pessoa e outra sempre que era possível, ou entre
Deus e os homens, e sempre com solicitude. Por isso, pouco depois
Deus o escolheu para ser pastor em toda a sua santa Igreja,
colocando-o acima de todos os povos.
100. Para que se saiba que isso foi feito por inspiração divina e
pela vontade de Jesus Cristo, muito tempo antes o bem- aventurado
pai São Francisco tinha predito o fato com palavras e dado um sinal
visível. No tempo em que a Ordem dos frades, pela graça de Deus,
já tinha começado a se difundir bastante, e como um cedro no paraíso
de Deus elevara-se até o céu pelos santos merecimentos, estendendo
os ramos por toda a amplidão da terra como a vinha eleita, São
Francisco dirigiu-se ao Papa Honório, que então governava a
Igreja, e lhe suplicou que nomeasse o cardeal Hugolino, bispo de
Ostia, como pai e senhor dele e de seus frades. O Papa anuiu aos
desejos do santo e delegou com bondade ao cardeal o seu poder sobre a
Ordem dos frades. Ele o recebeu com reverência e devoção, como um
servo fiel e prudente constituído sobre a família do Senhor, e
procurou por todos os modos administrar no tempo oportuno o alimento da
vida eterna aos que lhe tinham sido confiados. Por isso o santo pai se
submetia a ele de todos os modos e o venerava com admirável e
respeitoso afeto.
Era conduzido pelo espírito de Deus, de que estava repleto, e por
isso intuia muito antes o que depois seria revelado aos olhos de todos.
Sempre que lhe escrevia, por algum motivo urgente da Ordem ou pelo
amor que em Cristo lhe dedicava, não se limitava a chamá-lo de
bispo de Ostia ou de Veletri, como os outros faziam nas saudações
de praxe, mas começava com estas palavras: "Ao reverendíssimo
pai, o senhor Hugolino, bispo de todo o mundo". Saudava-o muitas
vezes com bênçãos originais e, embora fosse filho devotamente
submisso, por inspiração do Espírito Santo às vezes o consolava
com uma conversa paternal, como "para cumulá-lo das bênçãos dos
pais na espera do Desejado das colinas eternas".
101. O cardeal também tinha uma amizade enorme pelo santo, e por
isso aprovava tudo que o santo dizia ou fazia; e só de vê-lo ficava
muitas vezes todo comovido. Ele próprio afirmava que nunca tivera
perturbação ou tentação tão grandes que não passassem só de ver
ou conversar com o santo, o que lhe devolvia a serenidade, afugentava
o aborrecimento e o fazia aspirar à alegria do alto. Pusera-se ao
serviço de São Francisco como um servo ao seu senhor, e sempre que
o via fazia-lhe uma reverência como a um apóstolo de Cristo,
inclinando-se exterior e interiormente, e muitas vezes lhe beijava as
mãos com seus lábios consagrados.
Interessou-se com solicitude e devoção para que o santo pai pudesse
recuperar a antiga saúde dos olhos, vendo neleum homem santo e justo,
muito útil e necessário à Igreja de Deus. Compartilhava os
sofrimentos de toda a família dos frades, compadecendo-se dos filhos
no pai. Por isso, exortava o santo pai a cuidar de sua saúde e a
não recusar os remédios necessários na doença, pois esse descuido
podia ser-lhe imputado como falta e não como merecimento. Aceitando
com humildade tudo que lhe foi dito por um senhor tão reverendo e um
pai tão querido, daí por diante São Francisco teve o maior cuidado
e prudência com o que era necessário para sua cura. Só que a
doença tinha se agravado tanto que para qualquer melhora exigia um
especialista muito hábil e remédios muito dolorosos. Por essa
razão, embora lhe tenham cauterizado a cabeça em diversos lugares,
feito sangrias, colocado emplastros e derramado colírios, nada
adiantou. Quase sempre foi ficando pior.
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