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102. O santo suportou isso com toda paciência e humildade,
durante quase dois anos, dando em tudo graças a Deus. Para pensar
mais livremente em Deus, e para percorrer as moradas do céu em seus
êxtases freqüentes, vivendo na riqueza da graça diante do
dulcíssimo e sereníssimo Senhor do universo, confiou o cuidado de
sua pessoa a alguns frades verdadeiramente dignos de sua predileção.
Eram homens virtuosos, entregues ao Senhor, gratos aos santos,
aceitos pelos homens, sobre os quais o santo pai Francisco se apoiava
como uma casa sobre quatro pilares. Não lhes vou citar os nomes agora
em respeito a sua modéstia, que sempre foi íntima amiga desses santos
frades.
A modéstia, aliás, é ornamento de todas as idades, testemunha da
inocência, indício de um coração puro, norma de conduta, glória
especial da consciência, guarda de boa fama e distintivo de toda
honestidade. Foi a virtude que adornou esses companheiros do santo e
os tornou amáveis e aceitos por todos. Foi uma graça comum a todos,
mas cada um tinha sua virtude. Um deles se destacava por sua
discrição, outro era de uma paciência fora do comum, outro de
renomada simplicidade e o último juntava à robustez do corpo a
mansidão de espírito. Todos cuidavam da tranquilidade do santo pai
com toda a atenção, esforço e boa vontade. Tratavam também de sua
doença sem poupar sacrifícios e fadigas para estarem ao inteiro dispor
do santo.
103. Embora já consumado em graça diante de Deus e
resplandecendo em obras diante dos homens deste mundo, o santo pai
estava sempre pensando em empreender coisas mais perfeitas e, como
soldado veterano das batalhas de Deus, provocava o adversário para
novos combates. Propunha-se a grandes proezas sob a orientação de
Cristo e, mesmo semimorto pela falta de saúde, esperava triunfar do
inimigo numa nova refrega. De fato, a virtude verdadeira não conhece
fim, pois sabe que sua recompensa é eterna. Ardia, por isso, em um
desejo enorme de voltar à humildade do começo, e seu amor era tão
grande e alegremente esperançoso, que queria reduzir seu corpo à
primitiva servidão, embora já estivesse no limite de suas forças.
Afastava de si os obstáculos de todas as preocupações e freava de
uma vez a agitação de todas as solicitudes. Precisando moderar seu
rigor antigo por causa da doença, dizia: "Vamos começar a servir a
Deus, meus irmãos, porque até agora fizemos pouco ou nada". Não
pensava que já tivesse conseguido dominar-se mas, firme e incansável
na busca da renovação espiritual, estava sempre pensando em
começar.
Queria voltar a servir os leprosos e ser desprezado como nos outros
tempos. Queria fugir ao convívio das pessoas e ir para os lugares
mais afastados, para se livrar de todos os cuidados e preocupações
com as outras coisas, e ficar separado de Deus apenas pela parede
provisória do corpo.
104. Percebendo que muitos queriam alcançar cargos e honrarias e
detestando sua temeridade, tentou afastá-los dessa peste por seu
próprio exemplo. Dizia que seria coisa aceitável e boa diante de
Deus assumir o governo dos outros mas só deviam assumir o cuidado das
almas os que em tal ofício não buscam seus interesses mas acima de
tudo atendem à vontade de Deus. Que não deveriam antepor coisa
nenhuma à sua própria salvação nem esperar de seus súditos aplausos
mas aproveitamento, nem deviam querer os favores dos homens mas a
glória de Deus. Não deveriam ambicionar cargos mas temê-los. O
que possuiam não devia orgulhá-los mas humilhá- los, e o que lhes
fosse tirado não os devia abater mas exaltar.
Dizia que mandar era coisa muito perigosa, especialmente neste tempo
em que a maldade transbordou e a iniquidade superabundou, mas que
obedecer era sempre melhor. Sofria porque muitos tinham abandonado os
primeiros trabalhos e se haviam esquecido da simplicidade antiga para
seguirem novos rumos. Queixava-se dos que no começotinham procurado
com ardor as coisas do alto mas tinham acabado por cair em ambições
vulgares e terrenas e, deixando as verdadeiras alegrias, corriam
atrás de frivolidades e ambições, no campo das pretensas
liberdades. Suplicava a clemência de Deus pela libertação de seus
filhos e pedia com ardor que os conservasse na graça que tinham
recebido.
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