CAPÍTULO 6. Comportamento dos irmãos que cuidam de São Francisco. Como deseja viver.

102. O santo suportou isso com toda paciência e humildade, durante quase dois anos, dando em tudo graças a Deus. Para pensar mais livremente em Deus, e para percorrer as moradas do céu em seus êxtases freqüentes, vivendo na riqueza da graça diante do dulcíssimo e sereníssimo Senhor do universo, confiou o cuidado de sua pessoa a alguns frades verdadeiramente dignos de sua predileção. Eram homens virtuosos, entregues ao Senhor, gratos aos santos, aceitos pelos homens, sobre os quais o santo pai Francisco se apoiava como uma casa sobre quatro pilares. Não lhes vou citar os nomes agora em respeito a sua modéstia, que sempre foi íntima amiga desses santos frades.

A modéstia, aliás, é ornamento de todas as idades, testemunha da inocência, indício de um coração puro, norma de conduta, glória especial da consciência, guarda de boa fama e distintivo de toda honestidade. Foi a virtude que adornou esses companheiros do santo e os tornou amáveis e aceitos por todos. Foi uma graça comum a todos, mas cada um tinha sua virtude. Um deles se destacava por sua discrição, outro era de uma paciência fora do comum, outro de renomada simplicidade e o último juntava à robustez do corpo a mansidão de espírito. Todos cuidavam da tranquilidade do santo pai com toda a atenção, esforço e boa vontade. Tratavam também de sua doença sem poupar sacrifícios e fadigas para estarem ao inteiro dispor do santo.

103. Embora já consumado em graça diante de Deus e resplandecendo em obras diante dos homens deste mundo, o santo pai estava sempre pensando em empreender coisas mais perfeitas e, como soldado veterano das batalhas de Deus, provocava o adversário para novos combates. Propunha-se a grandes proezas sob a orientação de Cristo e, mesmo semimorto pela falta de saúde, esperava triunfar do inimigo numa nova refrega. De fato, a virtude verdadeira não conhece fim, pois sabe que sua recompensa é eterna. Ardia, por isso, em um desejo enorme de voltar à humildade do começo, e seu amor era tão grande e alegremente esperançoso, que queria reduzir seu corpo à primitiva servidão, embora já estivesse no limite de suas forças.

Afastava de si os obstáculos de todas as preocupações e freava de uma vez a agitação de todas as solicitudes. Precisando moderar seu rigor antigo por causa da doença, dizia: "Vamos começar a servir a Deus, meus irmãos, porque até agora fizemos pouco ou nada". Não pensava que já tivesse conseguido dominar-se mas, firme e incansável na busca da renovação espiritual, estava sempre pensando em começar.

Queria voltar a servir os leprosos e ser desprezado como nos outros tempos. Queria fugir ao convívio das pessoas e ir para os lugares mais afastados, para se livrar de todos os cuidados e preocupações com as outras coisas, e ficar separado de Deus apenas pela parede provisória do corpo.

104. Percebendo que muitos queriam alcançar cargos e honrarias e detestando sua temeridade, tentou afastá-los dessa peste por seu próprio exemplo. Dizia que seria coisa aceitável e boa diante de Deus assumir o governo dos outros mas só deviam assumir o cuidado das almas os que em tal ofício não buscam seus interesses mas acima de tudo atendem à vontade de Deus. Que não deveriam antepor coisa nenhuma à sua própria salvação nem esperar de seus súditos aplausos mas aproveitamento, nem deviam querer os favores dos homens mas a glória de Deus. Não deveriam ambicionar cargos mas temê-los. O que possuiam não devia orgulhá-los mas humilhá- los, e o que lhes fosse tirado não os devia abater mas exaltar.

Dizia que mandar era coisa muito perigosa, especialmente neste tempo em que a maldade transbordou e a iniquidade superabundou, mas que obedecer era sempre melhor. Sofria porque muitos tinham abandonado os primeiros trabalhos e se haviam esquecido da simplicidade antiga para seguirem novos rumos. Queixava-se dos que no começotinham procurado com ardor as coisas do alto mas tinham acabado por cair em ambições vulgares e terrenas e, deixando as verdadeiras alegrias, corriam atrás de frivolidades e ambições, no campo das pretensas liberdades. Suplicava a clemência de Deus pela libertação de seus filhos e pedia com ardor que os conservasse na graça que tinham recebido.