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105. Seis meses antes de sua morte, estando em Sena para cuidar
da doença dos olhos, começou a ficar gravemente enfermo em todo o
resto do corpo. Seu estômago se desfez pelos problemas contínuos e
por males do fígado, e vomitou muito sangue, parecendo estar quase à
morte. Ao ser informado, Frei Elias veio de longe, o mais depressa
possível, para junto dele. Quando chegou, o santo pai melhorou
tanto, que pôde sair daquela terra e ir com ele para Celle, perto de
Cortona. Mas, pouco depois de ter chegado, seu ventre se
intumesceu, incharam-se as pernas e os pés, e o estômago piorou
cada vez mais, mal podendo reter algum alimento. Pediu, então, a
Frei Elias, que o fizesse levar para Assis. O bom filho atendeu o
que lhe pedia o bondoso pai, preparou tudo e levou-o para onde
desajava. Alegrou-se a cidade com a chegada do bem-aventurado pai,
e todos louvavam a Deus. Toda a multidão do povo sabia que o santo
de Deus ia morrer logo, e foi por isso que se alegrou tanto.
106. De fato, foi por disposição de Deus que sua santa alma,
livre do corpo, partiu para o reino dos céus do mesmo lugar em que,
ainda na carne, teve o primeiro conhecimento das coisas espirituais e
lhe foi infundida a unção salvadora. Sabia que o Reino dos Céus
está em toda parte e que em qualquer lugar a graça divina pode ser
dada aos escolhidos de Deus, mas a experiência lhe ensinara que
aquele local da igreja de Santa Maria da Porciúncula estava cheio de
graça mais abundante e era freqüentado pelos espíritos celestiais.
Dizia muitas vezes a seus irmãos: "Não saiam nunca deste lugar,
meus filhos. Se os puserem para fora por um lado, entrem pelo outro,
porque este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus.
Aqui o Altíssimo nos deu crescimento quando ainda éramos poucos.
Aqui iluminou o coração de seus pobres com a luz de sua sabedoria.
Aqui incendiou nossas vontades com o fogo do seu amor. Quem rezar com
devoção neste lugar conseguirá o que pedir, e quem o desrespeitar
será mais gravemente punido. Por isso, filhos, tenham todo o
respeito para com o lugar onde Deus mora, e louvem aqui o Senhor com
todo o seu coração, entre gritos de júbilo e de louvor".
107. Nesse meio tempo, a doença se agravou, desvanesceu-se todo
o vigor de seu corpo e, já sem forças, não se podia mover de
maneira alguma. Perguntando-lhe um frade o que preferia suportar:
essa doença constante e demorada ou o martírio violento nas mãos de
um carrasco, respondeu: "Filho, para mim a melhor coisa, a mais
agradável e desejável sempre consistiu em fazer o que o Senhor mais
desejar de mim e em mim. A única coisa que desejo é estar sempre de
acordo e obedecendo à sua vontade em tudo e por tudo. Para mim, no
entanto, suportar esta doença, mesmo que seja por mais três dias,
seria mais doloroso do que qualquer martírio. Não estou falando de
recompensa por merecimento, mas apenas do sofrimento que a doença traz
consigo".
Duas vezes mártir era ele, que suportava de boa vontade, risonho e
alegre, o que para os outros era duro e insuportável só de ver! De
fato, "não tinha sobrado nele membro algum sem excessiva dor". Já
tinha perdido o calor natural e se aproximava cada vez mais da morte.
Espantavam-se os médicos e admiravam-se os frades de que seu
espírito pudesse viver em um corpo já tão morto, pois a carne já se
havia consumido e estava reduzido a pele e ossos.
108. Vendo aproximar-se o último dia, que inclusive já lhe fora
revelado divinamente dois anos antes, chamou os frades que quis,
abençoou a cada um conforme lhe foi inspirado pelo céu, como outrora
o patriarca Jacó com seus filhos, e mesmo como um outro Moisés
antes de subir ao monte que Deus lhe havia indicado, cumulou de
bênçãos os filhos de Israel.
Frei Elias estava à sua esquerda e os outros filhos sentados ao
redor. O santo cruzou os braços e pôs a mão direita sobre a cabeça
dele. Privado como estava da luz e do uso dos olhos do corpo,
perguntou:
- "Sobre quem coloquei minha mão direita?"
- "Sobre Frei Elias", responderam.
- "É isso que eu quero", disse. "Eu te abençôo, meu filho,
em tudo e por tudo, e como o Senhor em tuas mãos aumentou os meus
irmãos e filhos, assim sobre ti e em ti a todos eu abençôo. No
céu e na terra te abençoe Deus, Rei do Universo. Abençôo-te
como eu posso, mais do que eu posso, e, o que eu não posso, que
possa em teu benefício aquele que pode tudo. Lembre-se Deus de tua
ação e dos teus trabalhos, e reserve o teu lugar na retribuição dos
justos. Que tenhas toda bênção que desejas e alcances tudo que
pedires com justiça".
- "Adeus, meus filhos, vivei sempre no temor do Senhor, porque as
maiores provações vos ameaçam e a tribulação está às portas.
Felizes os que perseverarem no que empreenderam, porque os escândalos
que estão para vir vão afastar alguns do seu meio. Eu me apresso a
ir para a casa do Senhor, para o meu Deus vou com confiança, porque
o servi com devoção".
Como estivesse hospedado no palácio do bispo de Assis, pediu aos
frades que o levassem o mais depressa possível para Santa Maria da
Porciúncula. Queria entregar sua alma a Deus naquele lugar em que,
como dissemos, começou a entender com perfeição o caminho da
verdade.
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