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109. Já tinham passado vinte anos desde sua conversão e, como
lhe fora comunicado por divina revelação, estava próxima sua última
hora. De fato, quando o bem-aventurado Francisco e Frei Elias
moravam juntos em Foligno, certa noite apareceu em sonho a Frei
Elias um sacerdote vestido de branco, de idade muito avançada e
aspecto venerável, e disse: "Levanta-te, irmão, e diz a Frei
Francisco que já se passaram dezoito anos desde que renunciou ao mundo
e aderiu a Cristo. Permanecerá só mais dois anos nesta vida e
depois, chamado pelo Senhor, seguirá o caminho de toda carne
mortal". Era o que estava acontecendo, para que a seu tempo fosse
realizada a palavra de Deus, anunciada com tal antecedência.
Tendo descansado uns poucos dias no lugar que tanto amava,e sabendo
que tinha chegado a hora de morrer, chamou dois frades, filhos seus
prediletos, e lhes mandou que cantassem em voz alta os Louvores do
Senhor, na alegria do espírito pela morte, ou antes pela Vida, já
tão próxima. Ele mesmo entoou como pôde o Salmo de Davi: "Em
alta voz clamo ao Senhor, em alta voz suplico ao Senhor".
Um dos frades presentes,pelo qual o santo tinha a maior amizade, e
que era muito solícito por todos os irmãos, vendo isso e sabendo que
a morte do santo estava próxima, disse-lhe: "Ó pai bondoso, teus
filhos vão ficar sem pai, vão ficar sem a verdadeira luz de seus
olhos! Lembra-te dos órfãos que estás deixando, perdoa todas as
nossas culpas e alegra com tua santa bênção tanto os presentes como
os ausentes!" Respondeu-lhe o santo: "Filho, estou sedo chamado
por Deus. A meus irmãos, tanto presentes como ausentes, perdôo
todas as ofensas e culpas, e os absolvo quanto me é possível. Leva
esta notícia para todos e abençoa-os de minha parte".
110. Mandou trazer, então, o livro dos Evangelhos e pediu que
lessem o trecho de São João no lugar que começa: "Seis dias
antes da Páscoa, sabendo Jesus que sua hora tinha chegado e devia
passar deste mundo para o Pai..." Era justamente o Evangelho que
o ministro tinha pensado em ler, antes que lhe fosse dada a ordem. E
abriram o livro nesse ponto na primeira vez, embora fosse uma Biblia
inteira o livro em que estavam procurando o Evangelho. Depois,
mandou que lhe pusessem um cilício e jogassem cinzas por cima, porque
dentro em breve seria pó e cinza.
Estando presentes muitos irmãos, de quem ele era o pai e guia, a
esperar com reverência o fim ditoso e bem-aventurado, sua alma
santíssima desprendeu-se da carne e foi absorvida pelo abismo da
claridade, enquanto seu corpo adormecia no Senhor.
Um de seus irmãos e discípulos, não pouco famoso, cujo nome acho
melhor calar agora, porque enquanto viveu na carne não quis
gloriar-se desse fato, viu a alma do pai santíssimo subindo
diretamente para o céu, acima das grandes águas. Era como uma
estrela do tamanho da lua e com toda a claridade do sol, levada por uma
nuvenzinha branca.
111. Possa eu exclamar agora: "Como é glorioso este santo,
cuja alma um discípulo viu subir ao céu! Bela como a lua,
resplandecente como o sol, subindo em uma nuvem branca, brilhava com
toda a glória! O' luzeiro do mundo, que iluminas a Igreja de
Cristo com esplendor maior que o sol, agora já recolheste os raios de
tua luz e foste para a pátria esplendorosa, trocando a nossa
pobreconvivência pela dos anjos e santos! Ó gloriosa beleza de tão
insigne arauto, não deixes teus filhos desamparados, embora já não
estejas mais revestido de carne semelhante à nossa. Sabes, sabes de
verdade as dificuldades em que foram abandonados aqueles a quem bastava
a tua feliz presença para libertar misericordiosamente, a qualquer
momento, dos trabalhos sem conta e das constantes angústias. Pai
santíssimo e cheio de misericórdia, sempre tão pronto a ter
compaixão e a perdoar os teus filhos que pecavam! Nós te
bendizemos, pai digno, abençoado pelo Altíssimo, que é o Deus
eternamente bendito sobre todas as coisas. Amém!"
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